Resenha: Alerta de Risco – Neil Gaiman | Cinema de Buteco
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Resenha: Alerta de Risco – Neil Gaiman

QUAL LADO DE NEIL GAIMAN VOCÊ CONHECE? A versatilidade deste ser ao escrever é tão incrível, que é impossível rotula-lo. Para quem não sabe, a jornada do autor até o sucesso foi um tanto difícil. Após ser rejeitado inúmeras vezes por editores, Neil aproveitou a carreira como jornalista para fazer os contatos que precisava. Depois de inúmeras críticas literárias, biografia da banda Duran Duran e inúmeros artigos, chegou a vez de publicar o livro “Don’t Panic”, que o levaria até o romance que traria tal reconhecimento para o autor: Good Omens. Desde então, Gaiman se dedicou e se arriscou em diversas áreas, como os quadrinhos, terror, mistério, ficção científica e muitos livros infantis. E mesmo com tamanha versatilidade, é impossível não encontrar as marcas de Gaiman em suas histórias.

“Este livro, assim como a vida contém elementos capazes de pertubá-lo. Aqui você vai encontrar morte e dor, lágrimas e desconforto, violência de todos os tipos, crueldade e até abuso. Há também gentileza de vez em quando, espero. Até um punhado de finais felizes. (Afinal, poucas historias terminam mal para todos os participantes.) ” 

Assim como fez em Coisas Frágeis 1 e 2 e Fumaça e Espelhos, Gaiman reúne em Alerta de Risco uma série de contos repletos de deuses, monstros e magia. São 24 contos, que variam entre histórias de terror e fantasmas, conto de fadas, de fábula e poesia. Lançado pela Intrínseca no mês de agosto, temos uma lista de contos com histórias e personagens que você já conhece, porém, tudo se transforma quando passa pelas mãos do autor. “A Bela e a Adormecida”, por exemplo, mistura a história de Branca de Neve com Bela Adormecida, criando um conto em que as mulheres se transformaram nas protagonistas de uma bela aventura. Já em “Cão Negro”, revisitamos Deuses Americanos e vemos Shadow, que ao voltar para os Estados Unidos se mente numa confusão num bar e acaba não conseguindo chegar em seu destino final. Em Alerta de Risco ainda nos deparamos também com a versão do autor para Sherlock Holmes e uma história do universo de Doctor Who.

Para entender um pouco do que se trata esta coleção de contos e pertubações, separei três que gostei muito e que apresenta a versatilidade do autor ao tocar em temas como família, reviravoltas e contos de fadas. Confira:

  • Detalhes de Cassandra:

E se a sua mentira se tornasse realidade? Quando adolescente, Neil Gailman acreditava que era mais fácil imaginar uma namorada do que ter uma de verdade. Pensando assim, escreveu Detalhes de Cassandra. Neste conto, seu personagem reencontra amigos de infância e um deles fala que teve notícias de Cassandra, a garota com quem ele perdeu a virgindade quando adolescente. A verdade é que Cassandra era pura invenção do garoto para não ficar para trás quando todos os seus amigos começaram a fazer sexo.

Assustado, o protagonista deste conto revela para todos que a Cassandra era pura invenção. Mas para piorar a situação, até a própria mãe acaba conhecendo a tal Cassandra. O que mais gosto neste conto é como um pequeno ato que realizamos sem pensar acaba voltando quando menos imaginando. Este conto perturbador me pareceu bastante um capitulo Twilight Zone, aquela série dos anos 60 que criava histórias perturbadoras com pequenas coisas do cotidiano.

“Certas coisas ficam à espreita, esperando pacientemente por nós, em passagens sombrias da nossa vida. Acreditamos que ficaram para trás, que as ultrapassamos, que lá vão ressecar e encolher e serão levadas pelo vento – mas estamos enganados. Elas permanecem lá na escuridão, à espera, se exercitando, praticando seus golpes mais potentes, o soco impetuoso, duro e insensível no estomago, só aguardando o momento em que voltaríamos por aquele caminho. ”

  • Hora de Aventura:

Será que você sabe a verdade sobre a vida que seus pais levaram antes de você nascer ou só uma versão bonita e resumida? Neste pequeno conto, Gaiman pondera sobre a morte e sobre como, ao falecer, as pessoas levam consigo suas histórias. Ao arrumar a casa, o protagonista e sua mãe acabam encontroando uma figura esculpida numa pedra vermelha. Uma pessoa, um herói ou talvez um deus, com expressão de dor no rosto entalhado grosseiramente. Este pequeno objeto na verdade é uma lembrança que o falecido pai havia trazido ao voltar de uma guerra no Cazaquistão. E foi com aquela pequena pedra que o protagonista percebe que não sabe de fato o que seu pai viveu antes de voltar para casa, nos fazendo refletir que nunca saberemos a história e a vida que cada um leva DE VERDADE.

“As aventuras têm seu lugar e estão muito bem nele, mas há muito a ser dito a respeito das refeições em horários regulares e uma vida resguardada de sofrimento. ”

  • Diamante e Pérolas – Um conto de fadas:

Se em João e Maria Gaiman deu um ar bastante sombrio para um dos contos mais clássicos que conhecemos e em A Bela e a Adormecida, as mocinhas indefesas ganham força, atitude e mostram que não precisam ficar à espera de nenhum homem para salva-las, em Diamante e Pérolas, o autor nos surpreende com um conto em que a filha da madrasta sai para comprar drogas! No caminho, a garota se encontra com uma prostituta, um cachorro falante, um traficante e um apartamento bastante bagunçado. O que pode não fazer sentido algum acaba nos lembrando as fábulas de esopo, nos trazendo lições onde menos esperamos.

O mais engraçado deste conto é que ele foi escrito a partir de um ensaio fotográfico com a mulher que se tornaria sua esposa: Amanda Palmer. Desde os dezoito anos ela posava como morta para seus autorretratos e pediu para que Gaiman escrevesse algumas legendas em suas fotos, afinal, ninguém compraria um livro de fotos de uma mulher morta que nem mesmo estava morta de verdade, mas que, se Gaiman escrevesse algumas legendas, talvez o público se interessasse. Assim nasceu Diamante e Pérolas – Um conto de fadas.

“Estamos todos usando máscaras. É isso que nos torna interessantes.”

Os três contos acima me chamaram bastante atenção pela criatividade do autor e o seu poder de transformar casualidades em momentos de fantasia. Nesta coleção, temos muitos estilos de universo e de narrativa, fazendo com que estranhemos a virada brusca entre um cenário e outro. Para quem é fã do autor e diz que leria até a sua lista de supermercado, pode ficar tranquilo. Nesta edição, por exemplo, temos um conto sobre o dia em que ele está sem inspiração (sim! Até o mestre tem dias assim!) e aproveitou para fazer uma cadeira.

Como grande fã do autor, fico muito feliz de que a Editora Intrínseca tenha acolhido suas obras e dado o cuidado que merecia a essa e todas as outras edições, respeitando as capas originais e fazendo um excelente trabalho de tradução. Alerta de Risco é uma excelente opção para quem ainda não teve contato algum com o autor e não sabe por onde começar a explorar o vasto mundo da fantasia urbana.

Ficha Técnica:Neil-Gaiman-Alerta-de-Risco-Resenha-Intrinseca-01- Resenha: Alerta de Risco – Neil Gaiman

Título | Alerta de Risco
Autor | Neil Gaiman
Tradutora | Augusto Calil
Editora | Intrínseca
Edição | 1a
Idioma | Português
Especificações | 304 páginas
Dimensões | 16 x 23 cm
ISBN | 978-85-510-0030-4

Felipe Borba

Nasceu no Pará, cresceu no Maranhão e vive em Minas Gerais. Além de se considerar um explorador da natureza; Felipe é publicitário com especialização em Marketing Estratégico, é viciado em novas tecnologias, queria ser adotado pelo Neil Gaiman e tem mais livros do que dá conta de ler.