Resenha: O Livro de Memórias - Lara Avery | Cinema de Buteco
Buteco Literário Destaques Resenhas

Resenha: O Livro de Memórias – Lara Avery

Se você soubesse que iria perder a memória, o que faria para se lembrar da sua vida? Singelo e maduro. O livro das memorias, escrito por Lara Avery, tinha tudo para ser mais um clichê do gênero Young-Adult que aborda doenças sérias e terminais na adolescência. Mas, a autora teve a capacidade de conduzir a história de Samantha Agatha MacCoy ou Sammie (para os íntimos), com mais leveza.

A  doença, a autodescoberta, o contato com o primeiro amor, os conflitos familiares,  todos esses ingredientes você encontra na história de Sammie. Mas, de uma forma que não é apelativa. É isso que nos toca no livro: não sentimos vontade de chorar ou ficamos com dó de Sammie, mas conseguimos perceber o quanto ela foi forte enfrentando, sem ficar na posição de vítima, uma doença séria. Como ela conseguiu superar a frustação de ter seus sonhos interrompidos.

Outro ponto interessante do livro é a forma como ele é escrito. O que lemos são as memórias da Samantha, ou seja, sua percepção do mundo (presente e futuro). Estamos em contato direto com a personagem e nem lembramos que existe um autor por trás disso. Tanto que, há momentos que vemos as trocas de mensagens de textos entre Sammie e seus amigos, que realmente parece que pegamos o seu celular ou computador para ler. Trabalhar essa metalinguagem é positivo e agrega ao livro, pois nos faz ficar mais conectados na narrativa.

Ah, e esse formato já fica escancarado na primeira página, quando Sammie se apresenta:  “Você sou eu, Samantha Agatha McCoy, em um futuro não muito distante. Estou escrevendo para você. Dizem que minha memória nunca mais será a mesma, que vou começar a esquecer as coisas. Só um pouco no início, depois muito. Então, estou escrevendo para lembrar”.

A protagonista e sua doença

Sammie tem 18 anos, mora na pequena cidade de Uper Valley, participa de competições de debate e será a oradora da turma. Seu sonho é vencer o torneio nacional de debate, entrar na NYU e conquistar Stuart Slah. Mas, no meio do caminho, surgiu a Niemann-Pick tipo C (NP-C), uma doença genética, na qual o colesterol e acumula no fígado e no baço, temdo como consequências obstruções no cérebro que atrapalham a coordenação motora, a memória, o metabolismo e a cognição. “É demência, basicamente”.

É a partir desse diagnostico que conhecemos a protagonista. A princípio, Sammie cria uma força tarefa para combater a doença formada por seus ícones do feminismo: Elizabeth Warren, Beyoncé, Malala Yousafzai, Serena Williams e sua médica, Nancy Clarkington. Cada uma a inspirava de uma forma diferente para lutar e provar para si mesma que era capaz de enfrentar todas as consequências. Afinal, ela não queria que essa condição mudasse seus planos.

Mas, claro, a vida não é assim. Não basta querer. E a doença foi avançando. A memória era o diferencial de Sammie, algo do qual ela se orgulhava, mas que ela sabia que perderia rapidamente.  “Não sei outra forma de expressar. E não gosto de não saber. Nada. Não gosto de não saber em geral. Eu deveria sempre ser capaz de saber”, afirma em um momento em que percebe que o não saber será algo constante em sua vida.

“… há algo de libertador em pensar na morte”.

Por saber que o tempo é curto e o seu desejo de realizar as coisas é grande, Sammie se arrisca mais: vai a festas com pessoas da sua idade (algo que recriminava) e tem coragem de declarar seu amor a Stuart, um aspirante a escritor, que já teve até um conto publicado.  Assim, vamos descobrindo as outras facetas da personagem.

“E se for apenas o começo de uma série de fracassos? E se for tudo o que sou? E se for o fim?”

Sammie sente o peso da doença na final nacional de debate, quando esqueceu a sua fala. Até então, quase ninguém sabia da sua condição, pois ela não queria que a sua habilidade fosse julgada sob o viés da NP-C. Mas, Sammie descobriu que esconder o fato só machucaria a si mesma e as pessoas ao seu redor. Ela precisava vencer o medo de se expor.

“Às vezes você pode parar ou fazer uma pausa pelo menos. Às vezes você pode simplesmente ser”.

Uma lição que o livro deixa está relacionada as cobranças que fazemos de nós mesmos. Na idade de Sammie e seus amigos é comum ficarmos perdidos, sem saber o que queremos da fazer ou ser. Mas, é aí que realmente podemos perceber a maturidade com que o livro aborda o assunto: “Talvez a gente dependa demais das outras pessoas para definir o que é sucesso. Temos que nos acostumar com a ideia de que ninguém se importa tanto quanto nós porque… advinha? Ninguém se importa. Sucesso, fracasso, tanto faz! Ninguém vai te dar um tapinha nas costas por passar todos os dias estudando ou pesquisando ou desistindo de tudo para escrever. Então, o ideal é fazer todas essas coisas por nós mesmos, não pelos outros”. Anote esse conselho e leve para a vida.

O que vamos vendo, ao longo do livro, é o registro diário da vida de Sammie. Quando ela tem crises, percebemos isso na escrita do texto. A confusão mental, a repetição das sentenças, as palavras erradas, tudo isso é impresso para que o leitor sinta o mesmo que a protagonista. “Quero que este livro tenha as minhas palavras, mesmo que sejam palavras erradas”.

A forma como essa narrativa é feita, nos faz ter empatia por Sammie, pois temos clareza de como ela se sente, com a sua incapacidade de mudar uma sentença que a torna tão dependente. “… senti como se tivesse sendo discutida como um conceito, não uma pessoa. Um conceito com o qual todos no cômodo se importavam profundamente, mas, ao mesmo tempo, uma não pessoa. Um gerador de consequências”.

O fim

Mesmo sendo um livro da Samiie, sobre a Sammie, podemos ter a percepção de outros personagens, que vez ou outra invadem o notebook da adolescente e deixam suas mensagens, principalmente no final do livro… Não posso contar como para não estragar a surpresa.

Definitivamente, “O livro das memórias” é sobre escolhas e saber lidar com o inesperado. No fim, todos teremos apenas as lembranças dos momentos vividos. A questão é: o que você está fazendo para construir essas lembranças?

É um livro leve, de leitura rápida e não muito denso, embora consiga trazer boas reflexões. E, sem muito drama.

16558714_444032899261129_1480204639_n Resenha: O Livro de Memórias - Lara AveryFicha Técnica

Título original | The Memory Book
Tradução | Flávia Souto Maior
Páginas | 352
Lançamento | 25/08/2016
ISBN |  9788555340178
Selo | Seguinte

Larissa Borges

Nasceu em Salvador (BA), mas veio tão nova para Minas Gerais que fala mais uai do que ôxe. É jornalista, com MBA em Marketing Estratégico. Gosta de viajar, música, fotografia, ciência, inovação e sempre aprender coisas novas. Mas, seus vícios mesmo são livros, séries e chocolate.