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Mesa de Bar: Conselhos amorosos para o amigo

TODA SEMANA, TULLIO DIAS E LUCAS PAIO se reúnem numa mesa de bar virtual e discutem as principais notícias do cinema dos últimos sete dias – ou simplesmente o que lhes vier à cabeça, como pedir conselhos amorosos…

Tullio: Lucas. Tudo bem? Preciso da sua ajuda.

Lucas: Tullio. Tudo bem, e você? Pelo modo como você iniciou a conversa, presumo que esteja em necessidade de assistência. Acertei?

Tullio: Cara. Sim. Preciso que você me ajude em algo. E que tenha a mente aberta. Pode ser?

Lucas: Bom, depende. Como cantava Roberto Carlos, é imoral, ilegal ou engorda?

Tullio: As três coisas.

O que rola é que preciso que imagine uma situação inusitada. Mesmo. E quero a sua opinião especificamente porque você é de capricórnio e talvez possa me dar uma luz à respeito de uma situação romântica.

Lucas: Tullio, eu nem sei o que ser de capricórnio significa, exceto que há um bode associado ao dia em que nasci. Mas estou sempre aberto a dar conselhos errados para pessoas desesperadas.

Esta coluna nasceu para que resumíssemos as notícias da semana sobre cinema, mas depois que já dedicamos este espaço para um obituário do Prince, discussões sobre o Radiohead e uma homenagem às palhetas de guitarra, não vejo por que não poderíamos fazer uma edição sobre as desventuras amorosas de Tullio Dias. Então diga lá.

Tullio: Notícias são efêmeras, mas o amor persiste ao tempo. Vento. E às vezes até ao poderoso F5, meu caro.

O que acontece é que estou a fim de uma garota e ela basicamente não sabe disso. É complicado porque ela namorou com um amigo meu. Terminaram no final do ano e ele nem fala muito com ela mais. Se eu não estivesse MUITO a fim, sequer cogitaria isso, mas não me parece ser algo meio passageiro. Começou no carnaval e agora está aí. Pegando pesado.

Pior, meu velho, é que nem falei nada disso com ele e ela percebeu. Fiquei com o cu na mão quando me perguntou se estava acontecendo alguma coisa, pois ela estranhou eu, de repente, começar a conversar tanto com ela. Tive que dar a real… deixando implícita a parte “tô muito a fim de beijar a sua boca, véi!!!”

Ou seja… imagine que você é essa garota… que o João Golin era o seu ex… e que eu estou a fim de te pegar. Como lidar?

Lucas: Então quer dizer que há três meses você anda alimentando pensamentos impuros, imaginando dia e noite uma interação mais sórdida com a pobre garota, não colocou nada na mesa e agora despejou tudo num ímpeto incalculado?

Tullio: Eu dei a real de que eu não iria conversar com ela na época em que ela estava com o “João”. E que não sabia o quanto ela era interessante e tinha amor pelo que fazia. Eu tenho um fraco por gente apaixonada pelo que faz. Descobri isso agora, uai…

Ela é demais, cara. E eu fico tão a fim dela que temo ser incapaz de “funcionar” se acertar na loteria de um beijo acontecer.

Lucas: Eu acharia muito doido se você providenciasse os links do Facebook para que os nossos leitores pudessem clicar em “ela” e “o João” e conferir os perfis. Mas algo me diz que isso não vai rolar.

Até agora não entendi o problema, Tullio. Ela está solteira? O ex não quer ela mais? Você a corteja? Qual o impedimento?

Tullio: Ela está solteira. Acho. O meu amigo não a quer mais. Pelo menos é o que diz. Eu não falei: “João, tô a fim da tua ex.” Ele é possessivo, cara!!! Eu a cortejo sim. O impedimento é o fato dela ser ex do meu amigo!!!!

Lucas: Esse tipo de situação já inspirou grandes músicas e obras de arte. “Layla”, do Eric Clapton, por exemplo, era sobre a então esposa de George Harrison, seu amigo do peito. A mesma mulher que inspirou “Something”, que o George compôs e gravou com os Beatles. Anos depois, o Clapton se casaria com a ex-esposa do amigo – e o George até mesmo compareceu ao casamento.

Tullio: EU FIZ UMA MUSICA PRA ELA, VÉI! Hahahahahaha

Lucas: É do nível de Eric Clapton e George Harrison?

Tullio: Claro que não. Eu sou punk que toca apenas nota tônica e nada mais dessas coisas bonitas aí. Mas o combustível motivacional foi o mesmo.

Olha. O George Harrison certamente era uma pessoa de bem. Viajava nas cítaras indianas, nos chás de cogumelos e teve maturidade de não cortar relações. Tenho esse receio que o “João” não vá entender assim e preferir fazer apenas uma música ao ímpeto de quebrar a minha cara. Ou que ela mesma não ache tudo isso muito errado e pare de falar comigo.

Lucas: Você já tocou pra ela essa música, numa serenata ao luar com ela na varanda e você lá embaixo, à la Romeu?

Tullio: Não, cara. Sou baixista. Baixista que canta ou é nível Les Claypool ou Paulo Ricardo. Acho que estou pior que o segundo.

Lucas: Tullio, uma dica meio fora da curva seria você dar o fora da sua cidade natal por um tempo. Sair desse Belo Horizonte e buscar novos. BH é um ovo – talvez um ovo de avestruz, mas ainda um ovo – e você fatalmente, como agora, acabará apaixonado por uma ex-namorada do seu amigo, ou uma amiga da sua ex-namorada, ou vai saber, por uma prima de segundo grau.

É uma dica que não ajuda em nada a sua situação atual, mas o que você esperava ao pedir ajuda logo pra mim?

Tullio: Porra, Lucas!

Lucas: Em uma dica alternativa, simplesmente abra seu coração pra ela e foda-se. O pior cenário é esse que você delineou: ela pare de falar com você para sempre, seu amigo “João” te encha de porrada, e você não tenha sequer uma música no top 10 da Billboard pra servir de consolação.

Tullio: …

Lucas: No outro extremo, pode ser que ela se apaixone por você imediatamente, seu amigo João seja o seu padrinho no casamento e a música que você compôs pra ela seja o novo sucesso brasileiro internacional depois de “Ai, Se Eu Te Pego”.

A probabilidade é que o resultado seja algo entre um extremo e outro. O que já está de bom tamanho. Ou não?

Tullio: Aff… whatever. Vamos indicar cinco filmes sobre essa situação?

Lucas: Vejo que minhas ponderações não surtiram o efeito desejado. Mas vamos lá, tragamos o assunto para o mundo do cinema. Cinco filmes sobre críticos de cinema a fim de ex-namoradas de amigos. No momento não consigo pensar em nenhum, por isso convido a você a dar o pontapé inicial nessa lista.

Tullio: Eu sabia que você não levaria isso a sério. Humpf.

O primeiro filme que posso sugerir é Será Que?, com o Daniel Radcliffe. Ele conhece a garota, se apaixona e descobre que ela namora. Ele prefere manter amizade e guarda o sentimento.

(500) Dias com Ela tem um pouco disso, mas no caminho inverso, né? O cara namora com a garota e ela deixa ele…

Lucas: A minha indicação não é de filme, mas de sitcom: lembra em Friends, quando o Chandler se apaixona pela namorada do Joey, eles se pegam, o Joey descobre e manda o Chandler ficar dentro de uma caixa de madeira na sala enquanto todo mundo participa do jantar de Ação de Graças? Se não me engano é na quarta temporada, uma das melhores. No fim das contas o Joey perdoa o Chandler, que segue namorando a agora ex do Joey. O que é uma esperança pra você!

E também recomendo uma clássica canção de Roberto e Erasmo: “Estou amando loucamente / A namoradinha de um amigo meu!” Que termina com uma pérola da sabedoria: “Eu sei que vou sofrer / Mas tenho que esquecer / O que é dos outros não se deve ter“. O que é uma desesperança pra você…

E pra completar o top 5 cinematográfico-sitcômico-musical, lembrei da lenda do Rei Arthur, onde Sir Lancelot, o cavaleiro da Távola Redonda que é o melhor amigo e braço direito do rei, se apaixona pela Guinevere, a rainha. Essa história já apareceu em trocentos filmes, incluindo Lancelot – O Primeiro Cavaleiro (com Sean Connery como Rei Arthur) e As Brumas de Avalon, uma adaptação marromenos de uma série de livros bem interessante.

Taí, Tullio, já temos um punhado de indicações pra você se inspirar e tomar a decisão antes desse Dia dos Namorados que se aproxima.

Será que Tullio Dias arriscará abrir seu coração à sua amada, ou engolirá seus nobres sentimentos em nome de um bem maior? Aguardem as cenas dos próximos Mesas de Bar…

Redação do Buteco

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