Sons de Buteco: As músicas de Aquarius | Cinema de Buteco
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Sons de Buteco: As músicas de Aquarius

CONFESSO QUE A MINHA VONTADE ERA ESCREVER UMA NOVA CRÍTICA DE AQUARIUS NO PORTAL, mas depois de reler com mais atenção os textos da Larissa e do Leonardo percebi que não existia a necessidade. Porém, ainda sinto uma enorme necessidade de falar sobre a obra de Kleber Mendonça Filho e usarei a trilha sonora como uma desculpa. Me perdoem. Ou não.

“Another One Bites the Dust”

O longa começa em 1980, mesmo ano em que era lançado The Game, oitavo disco de estúdio do Queen. “Another One Bites the Dust” é uma composição do baixista John Deacon, que caprichou nas suas influências no funk para compor a faixa e sua linha de baixo marcante. Uma curiosidade é que a canção só foi lançada como single depois de uma sugestão do rei do pop Michael Jackson.

Minha primeira reação (fora o tesão normal que aparece quando escuto uma linha de baixo desse nível) foi lembrar de As Vantagens de Ser Invisível. O motivo é que ambas histórias acontecem numa época em que não existia mp3 ou internet para se conseguir as novidades musicais. Tento imaginar a sensação de quem ouvia Queen pela primeira vez, assim como foi para os personagens de As Vantagens de Ser Invisível com “Heroes”, de David Bowie.

Essa introdução é a minha parte favorita do filme justamente por mostrar as expressões de satisfação dos personagens ouvindo Freddie Mercury provavelmente pela primeira vez dentro de um carro passeando pela praia. Só quem tem uma relação forte com música boa consegue entender isso.

“Fat Bottomed Girl”

Outro clássico do Queen na trilha sonora de Aquarius. Lançada pouco antes de “Another one Bites the Dust”, a letra fala sobre garotas “popozudas”, vamos colocar assim. Claro que com toda a classe do Queen, né?

Clara (Sonia Braga) está em casa curtindo sua rede e de repente começa a ouvir uma verdadeira baderna no andar de cima. Para tentar competir com a festinha particular, ela coloca logo um vinil do Queen para tocar enquanto bebe vinho e tem planos para curtir a noite intensamente. Antes disso, ela ouvia “O Quintal do Vizinho“, do rei Roberto Carlos, depois daquele quase coito no arrasta pé da terceira idade, como bem lembrou o amigo Alex Gonçalves, do Cine Resenhas.

“Meu Som é Pau”

Well… Nada mais normal que ouvir (e curtir) um forró eletrônico, né? Pois é. Modernizaram o forró. E pra pior, óbvio. Com letras influenciadas pelo batidão carioca (ou pela incapacidade de tentar novas variações de rimas para “amor” e “dor”), esse novo “forró” faz uma mistura de instrumentos tradicionais do ritmo com guitarras, baixos etc. Independente do atentado sonoro que é, “Meu Som é Pau” funciona muito bem para retratar a minha segunda cena favorita de Aquarius.

Incomodada com a bagunça rolando no andar de cima de seu apartamento, Clara decide ir até lá para resolver o problema. No entanto, pela porta entreaberta, ela descobre que o pau está comendo literalmente lá dentro. Umas seis, oito pessoas estão sem roupa trepando loucamente numa orgia nunca antes vista na história do edifício Aquarius. O mais marcante está na mudança de olhar de Clara. A raiva é substituída pelo choque, depois vira curiosidade e se torna em tesão.

“Recife Minha Cidade”

Eu até entendo ver um público que não consome cinema nacional dizendo que sabotou Aquarius. Entendo até a parte que eles boicotaram algo que não assistiriam de forma alguma. Entendo as viagens de querer interpretar Clara como uma versão da ex-presidente Dilma Rousseff. Símbolo da resistência. Mas o que eu não consigo entender é quem critica a trilha sonora de Aquarius.

Véi… Não dá.

Gostar ou não de determinado tipo de música não pode servir como parâmetro para dizer que a trilha sonora de um longa-metragem é ruim. A história se passa no nordeste. Estamos falando de uma obra que presta um serviço de amor para Recife. O verdadeiro mau-gosto está em questionar raízes culturais.

“Hoje”

Como disse o Leo Lopes, “essa aí toca no final. Toca forte. Que momento.”

“Hoje”, de Taiguara, aparece em dois momentos ao longo de Aquarius. Nos minutos iniciais e no encerramento, diria épico. Depois de descobrir que seu prédio está condenado por uma infestação de cupins, só resta a vingança para Clara. Ela faz isso levando parte dos cupins dentro de uma mala para o escritório dos engenheiros responsáveis pelo projeto do novo edifício. Com um discurso forte e decidido, Clara mostra a sua força e obstinação mesmo diante do cenário negativo. Ou ela simplesmente foi lá ser barraqueira e tocar o terror no habitat dos grandes empresários. Qualquer que seja a sua interpretação, não deixa de ser uma bela cena com uma trilha sonora muito bem escolhida.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.