As Aventuras de Pi


O QUE HÁ DE MAIS BONITO NO CINEMA, e na arte de uma maneira geral, é que ela só se completa no outro. Um filme não tem um significado único, ele tem um significado para mim, outro para você, e um individual para cada um de seus espectadores. E a beleza de As Aventuras de Pi está em narrar (com um visual estonteante) uma fábula com metáforas suficientes para fazer seu espectador ficar pensando em todos os seus possíveis significados por semanas.

Sem nunca perder o respeito por nenhuma religião, Ang Lee, um dos diretores mais sensíveis da atualidade, nos mostra que a maior de todas as religiões é a arte, recorrendo a uma bela fábula para tocar em um ponto recorrente à sua filmografia: o protagonista que mesmo sabendo ser diferente de todos a sua volta, se esforça ao máximo para se adaptar ao seu mundo.

Na trama, Pi Patel, um indiano que mora na parte francesa do Canadá, narra a um jornalista a sua história da juventude, quando uma crise econômica fez sua família vender o zoológico do qual eram proprietários e embarcar em um navio cargueiro japonês, junto com todos os animais do zoo, da Índia para o Canadá.

Uma tempestade faz o navio naufragar e deixa Pi à deriva em um bote com uma zebra, um chipanzé, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker. E é curioso que Pi (que optou por um apelido de apenas duas letras para, inteligentemente, evitar o bullying na escola), se refira ao animal por seu nome e sobrenome, demonstrando um respeito e um grau de hierarquia que se tornará completamente justificável durante o filme.

Enfrentando diversas provas como fome, a saudade da família, tempestade, frio e, é claro, o medo de ser devorado por um tigre, Pi, um hindu meio cristão que também admira Alá, começa a questionar o destino que Deus reservou a ele. E não precisar ser nenhum grande entendedor da Bíblia para entender a referência a Jó. As referências passam também pela arca de Noé (obviamente) ao o milagre da multiplicação.

E a história do garoto em um bote cheio de animais perigosos só é verossímil porque, em primeiro lugar, Lee deixa o clima de fábula explicito desde o início, com a história do seu tio, um homem de corpo esquisito que tem uma paixão inexplicável por piscinas. Caso a fábula não fique clara mesmo assim, por favor, note que o manual se sobrevivência que Pi encontra no bote ensina a como deixar animais carnívoros enjoados em caso de naufrágio.

Em segundo lugar, acreditamos nela porque o filme é tão tecnicamente cuidadoso, que nunca notamos onde termina o que é de carne osso e onde começa o digital, pois mesmo sabendo que, provavelmente, o diretor não encontrou uma ilha com milhões de suricatos, não notamos nada de CGI nos bichinhos, muito menos em Richard Parker. Até mesmo a tempestade que causa o naufrágio parece tecnicamente perfeita. A linda fotografia de Claudio Miranda faz com que cada minuto do filme seja digno de um quadro para você emoldurar e colocar na sua sala. E sim, vale a pena pagar uns reais a mais pelo ingresso 3D.

O cuidado visual é tão grande que passei os 30 minutos iniciais do filme achando que Ang Lee estava me enganando e tinha feito um filme a la Discovery Channel, cheio de efeitos visuais, só para mostrar que aprendeu a fazer 3D. Mas com o passar do tempo, os belos efeitos e o preciosismo visual vão se integrando de maneira orgânica à trama, permitindo que o espectador veja a sensibilidade da história e mergulhe ainda mais em todas as suas metáforas.

E por falar em beleza e sensibilidade destaco duas cenas: aquela em que Pi percebe que o navio já está completamente submerso e a cena na qual coloca a cabeça de Richard Parker em seu colo, aceitando o que pode significar a sua morte.

O Cinema de Buteco adverte: o trecho a seguir possui spoilers e deverá ser apreciado com moderação.

Conversando com um amigo ao final da sessão, comentei que senti vontade de escrever sobre o filme, e ele perguntou “com ou sem spoilers”. Eu respondi: “Não faz diferença, esse filme não foi feito para você acompanhar uma historinha e sim para você viver uma experiência”. Tento explicar:

Ao final do filme, depois de conseguir chegar ao México e ser resgatado, Pi conta no hospital, para o pessoal da seguradora, uma versão completamente diferente do naufrágio, na qual ficou preso no bote com um budista, um cozinheiro desumano (Gerard Depardieu) e sua mãe. Todos acabaram mortos e Pi teve que despertar o animal dentro de si para sobreviver.

O Pi adulto pergunta ao jornalista qual história ele prefere, e ele, é claro, responde “a do tigre”. Pi então conclui: Isso é Deus.

Na minha versão, a história do final (sem os animais) é a verdadeira e Deus é a história inventada por Pi, para tornar sua experiência verdadeira menos dolorosa (e isso é também evidenciado no começo quando Pi diz que deuses são seus super-heróis). Na minha concepção do filme, que, como já dito, não desrespeita a crença de ninguém, Deus é o imaginário a que recorremos todos os dias para tornar a vida mais cheia de sentido e menos cruel.

E não importa se a minha interpretação é verdadeira ou não, porque, como eu já disse no início, a arte só se completa no outro. E esta é a minha experiência, e eu espero que a sua seja tão rica quanto a minha foi, mesmo que ela seja completamente diferente.

 

Nota superficial 1: Não se engane pelo título brasileiro sessão da tarde. As cenas envolvendo a hiena são bem fortes para que você leve uma criança ao cinema.

Nota superficial 2: Conversando com algumas pessoas notei o quanto é curioso que o filme traga lembranças de outros filmes. Para mim foi, nessa ordem: Compramos um Zoológico, Titanic, Free Willy, Mogli, Madagascar e Avatar.

Nota:[quatro]


Author: Larissa Padron

Larissa Padron é jornalista pela UFMG e apaixonada por cinema desde pequenininha (o que ela ainda é). Nas horas vagas dança sem música na cozinha e treina o discurso para o Oscar com o shampoo.

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Comentários

  1. Cinéfilo da Silva disse:

    Lembra o Náufrago tb né Tullio Dias?!

    1. Eu posso assistir Naufrago 85 vezes q eu vou dormir em todas… Então não, não lembra rs…

    2. Anderson Renato Vobornik Wolenski disse:

      Osman Torres Ximenes Junior, o tal Richard Parker é o próprio PI! Recomendo ler o livro também. História fantástica. Contudo coloco um parêntes. A fortes indícios que o livro escrito por Yann Martel no qual originol este filme, possui a mesma história central em um livro escrito por um brasileiro. Procure por Moacyr Scliar, escritor brasileiro falecido em 2011. Ele escreveu um livro no qual narra uma história de uma onça pintada e um menino naufragados em pleno oceano. Coincidência? Não acredito.

  2. Muito bom seu texto Larissa, parabéns! Confesso que sua análise do fim do filme me fez mudar de opinião. A principio, não tinha gostado da conclusão, mas enxergando por essa perspectiva, ganho todo um significado diferente, e muito mais interessante.

  3. Necessito de uma crítica da Larissa sobre Pitch Perfect. Please. ahauhauhauhuhau

  4. Mariah Gama disse:

    Esse filme é surpreendentemente inteligente e sensível , um dos melhores que eu vi no ano :)

  5. Fred Borges disse:

    parei de ler, qd ela descreveu a cena do tigre no colo do Pi. antes q eu lesse spoilers
    n sei se ela citou, mas o filme é uma adaptação do livro… a Larissa sabóia

    1. Oi Fred, sabia que é uma adaptação do livro sim, mas como não li o livro, não vi pq citar… Mas a cena da cabeça do tigre não é spoiler não, quando tem spoiler eu cito =)

  6. Fred Borges disse:

    sabia*?

  7. Lu Callegari disse:

    Marcelo Vieira LEIA ISSO ENJUEIRA!! huhhuh

  8. Excelente! Em 3D então…sem palavras!!!!

  9. Diene Oliveira disse:

    ótima crítica! Foi o melhor filme em 3d que eu já vi…A história é linda, os efeitos são ótimos, vale muito a pena assistir.

  10. Realmente, foi assim que eu me senti tb. O filme a princípio é muito louco, mas, no fim, é tocante, nos leva a refletir. OLhem essa crítica Germanda Araujo e Mônica Lopes, muito interessante.

  11. Me deu uma vontade de assistir PI agora… quem se habilita a me acompanhar?!

  12. Um dos melhor filmes que tive o prazer de ver em 2012! Muito show!

  13. o melhor filme, o melhor 3d a melhor trilha sonora…muiiiito bom

  14. Iago Freitas disse:

    Larissa gostei muito da sua conclusão sobre o final do filme, eu sou religioso e para mim o significado foi bem diferente, mas me questionei sobre as pessoas que não creia em Deus, como veria este final, e acredito que se conseguiram concluir da mesma forma que vc, com certeza aproveitaram bem o filme. muito boa sua critica….

  15. Assisti em 3D, muito bom! Lindas cenas, fotografia incrível… só não gostei do título em português pq aventuras lembra algo infantil e divertido, o que não é o caso.

  16. É um ótimo filme, e um bela crítica! Vale apena assistir..

  17. Filme muito bonito mas vazio, se compararem com a complexidade de "O Labirinto do Fauno" vao perceber como a estoria fui mastigada nas "Aventuras de Pi".

  18. galerinha.. leiam essa critica.. Victor Dani Jessica mt boaa..

    1. Elton Cesar disse:

      Já assisti, o filme é lindo! Pena que em Mga só dublado e sem 3D

    2. eh.. exclusao interiorense.. rss

    3. Amanda Brilhador disse:

      ué num faço parte da galera :p

  19. Roland Gentil Dantas disse:

    Li o livro, fui no cinema ver o filme e achei a adaptação do roteiro íncrivel, o diretor trabalhou muito bem, é de longe o melhor filme que vi em 2012.

  20. Daniel Rosa disse:

    Na torcida para o Oscar, parabéns bela critica Larissa.

  21. Karlen Demétrio disse:

    mesmo não havendo o interesse em assistir esse filme, após essa crítica, é impossível não experimentar essa experiência!

    1. Ele é muito bom mesmo! Lindo.

  22. Assiti e amei! Vou assitir novamente em 3D! Incluo nessa lista da Nota superficial 2 o filme " O Náufrago"!

  23. Anderson Renato Vobornik Wolenski disse:

    Filme fantástico. O diretor conseguiu superar a emoção ao ler o livro escrito por Yann Martel, Life of PI. Contudo coloco um parêntes. A fortes indícios que o livro escrito por Yann Martel no qual deu origem ao filme, possui a mesma história central de um livro escrito pelo brasileiro, Moacyr Scliar, escritor brasileiro. Ele escreveu um livro no qual narra uma história de uma onça pintada e um menino naufragados em pleno oceano. Coincidência? Não acredito.

    1. Se eu não me engano, Yann Martel admitiu que plagiou esse livro que sgeundo ele era "mal escrito". Mas novamente, eu li uns rumores.

  24. Adorei o filme…me fez lembrar muito de algumas cenas do Peixe Grande qdo assisti….

  25. Ju Minelli disse:

    No início foi exatamente o título "sessão da tarde" que tirou meu Tesão de ver o filme… Reconsiderarei…

  26. Ana Sa disse:

    Achei maravilhoso!!!!Efeito visual maravilhoso aberto a várias formas de interpretar a vida e a religião e fé.O fato desagradável de ser considerado uma cópia de nosso escritor brasileiro, que acabou se retratando vale a pena ser conferida para se tirar suas próprias conclusões. Se não foi o mais bonito, foi um dos mais lindos que já vi.

  27. Eu sai do cinema maravilhado, mas não conseguia explicar o filme.
    Comecei a pesquisar e cheguei em uma explicação (minha interpretação) em 03 partes:

    Primeira:
    PI é o tigre e existem 03 coisas que reforçam isso:
    1 ) Quando Pi entra na igreja o padre fala: "Você deve estar Sedento" ou em outra tradução: Você deve ser o Sedento".
    Sedento era nome do Tigre antes de trocarem a papelada.
    2 ) O Pai de PI fala para o filho que nos olhos do tigre só se pode ver um espelho dos seus sentimentos.
    3 ) A segunda história contada pelo PI aos japoneses.
    Pi deve que se tornar o tigre para se salvar.
    Quando PI chega na praia o tigre vai embora, pois não é mais necessário para sua sobrevivência.

    Segunda parte:
    Perdido no mar, PI procura um significado, um sentido para sua existência e se ver perdido entre o ceu e o mar, onde várias vezes os dois se tornam um (a comunhão com Deus).

    Terceira parte:
    No final ele pergunta: qual história voce prefere, o homem responde "A do tigre ".
    E ele termina: "Com Deus é igual".
    Na vida todos nós sofremos, perdemos amigos e parentes e sobrevivemos.
    Podemos escolher uma vida com Deus ou sem Deus.
    Mas como o escritor disse: "A História com Deus é melhor".

  28. Ivana Emmeline Mendes disse:

    Filme incrível! Muito bom!

    1. Cássia Mendes disse:

      cinema de buteco ? kkkk

  29. Filme incrível, e melhor de tudo, que te faz refletir sobre alguns conceitos!

  30. excelente filme. há tempo nao via um filme tao belo e cheio de emoçoes.

  31. excelente filme. há tempo nao via um filme tao belo e cheio de emoções (2)

  32. Fiquei refletindo o filme o dia inteiro, visualmente fantástico. E tocante ao mesmo tempo.

    Ang Lee é ótimo em fazer o filme durar mais tempo sendo projetado nos nossos pensamentos.

    Lembro que levei quase 2 meses tentando descobrir se tinha gostado ou não de "HULK", que alias está entre um dos melhores filmes de heróis da minha coleção. Mas que também não se encaixa no gênero e por isso levei tanto tempo pra entender pq gostava e desgostava dele, hehe.

  33. Vidda K Paz disse:

    Uma sessão de psicanálise !Equilibrar a fera e o humano em nosso intimo com ajuda da arte ou da religiosidade para que a harmonia guie a vida…

  34. Bela interpretação Larissa… para mim deus é isso – quem nos coloca o livre arbítrio para escolher. Usarmos nossos instintos a favor da vida, somente dominando-o e principalmente colocando-o a nosso serviço… o tigre depois de servi-lo- foi pro lugar de onde veio. Belo filme!

  35. Um dos melhores filmes que já assisti… repleto de emoções prendendo- nos à tela, visual riquíssimo, ensinamentos valiosos…verdadeira aventura espiritual. A cena da hiena me provocou certa irritação rsrsrs. Parabéns!!!

    1. Meu filho gostou muito tbm , quero assistir logo .bjoooo querida

    2. Assista em 3 D, fantástico! Beijo Eliza Monteiro.

  36. Preciso por tudo que é "Madre Teresa de Caucutá" assistir esse filme, preciso!