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Filme: O Novo Mundo – Versão Estendida

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FÃ DE ANIMAÇÕES DA DISNEY QUE SOU, um dos meus filmes preferidos é Pocahontas. Tinha cinco anos quando fui ao cinema assisti-lo e fiquei obcecada pela história da princesa Powhatan que se apaixonou pelo colono John Smith e li muita coisa sobre o assunto. Em 2005, Terrence Malick lançou O Novo Mundo, filme live-action inspirado no romance. Mas não confunda a Pocahontas da Disney – adulta, curvilínea, alta e magra como uma modelo, com um guaxinim e um beija-flor a tira-colo – com a Pocahontas de Malick. Neste último, ela é mais próxima da realidade: baixinha, com idade entre 13 e 16 anos, inocente, curiosa, esperta e doce. Historiadores nunca mencionaram um romance entre ela e Smith – apenas obras fictícias o fizeram até hoje. Apesar disso, o filme se apoia, quase que em sua totalidade, em verdades históricas. O Novo Mundo é uma crônica sobre Pocahontas e a colonização do estado da Virgínia, Estados Unidos, no início do século XVII.

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Terrence Malick é conhecido por fazer filmes sem um roteiro conciso; no máximo, escreve (como esboço) o tema da cena e assunto do diálogo entre os personagens, mas no momento da gravação o que manda é o improviso, levando Malick a mudar a história quase todo dia. Exemplo disso é Adrien Brody em Além da Linha Vermelha. Brody era o protagonista. Com o desenrolar dos improvisos e ao decorrer do tempo, a história progrediu para outros lados e Malick reduziu o ator a um mero coadjuvante, com poucas falas e pouca importância. Com a versão estendida, temos maior compreensão de várias cenas e mais tempo de tela de alguns personagens. Achei a edição melhor: tem fotografia adicional, cenas adicionais e mais longas, os voice-overs são mais bem editados e mais longos e há uma divisão em capítulos.

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O filme já começa com Pocahontas (Q’orianka Kilcher) pedindo ajuda a um espírito para ajudá-la a contar a história de sua terra enquanto vemos imagens de um rio em movimento. Imagens são o carro chefe dos filmes de Malick, e aqui a fotografia fica a cargo de Emmanuel Lubezki (que, depois desse filme, nunca mais parou de trabalhar com o diretor), profissional capaz de captar a poesia da natureza por suas cores e luzes e de transformar qualquer ambiente em novo personagem da história. Vemos os rios e os peixes, as florestas, as árvores longas e frondosas, pessoas nuas nadando, as pradarias… e embarcações. Os índios, retratados como “fadas”, como crianças curiosas que se movem como que em um balé contemporâneo, estão em polvorosa. Os navegantes estão chegando, dentre eles um homem acorrentado que espia pelas frestas do navio. É o Novo Mundo, para ambos os povos. O homem acorrentado é John Smith (Colin Farrell), preso por coordenar um motim durante a viagem. Ao desembarcarem, sua sentença é prioridade. Smith, prestes a ser enforcado, é perdoado pelo Capitão Newport (Chistopher Plummer) com a condição de não “sair da linha” sequer uma vez.

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O tempo passa, os colonos se instalam e fazem contato com os nativos, mas a desconfiança é mútua. A comida começa a estragar, os homens adoecem e ficam loucos. Um belo dia, um dos nativos pega uma machadinha disposta em uma mesa. Um colono o grita, o índio corre e o colono acaba atirando no índio. Smith, amigo dos nativos, castiga o colono na frente da tribo. O clima é tenso e apreensivo. Newport avisa que voltará para a Inglaterra em busca de mais suprimentos e solicita a Smith, o único soldado entre os colonos, que vá até a cidade onde está o chefe da tribo para persuadi-lo a trocar mantimentos, utensílios e armas. Smith, a caminho da tal cidade, se perde da comitiva, é atacado pelos índios e levado ao chefe para ser executado.

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A sequência seguinte é fantástica: do momento em que entra na gigante oca para ser interrogado até o momento em que é salvo da morte por Pocahontas, é impossível desviar o olhar. São cenas tipicamente malickianas em que fotografia, natureza e música estrondosa (maravilhosamente bem-feita por James Horner) valem mais que qualquer palavra. Quando o chefe aceita o pedido da filha, acontece uma espécia de batismo e John Smith é aceito pela tribo. Ele passa a viver entre os índios, aprende sua cultura, faz amizade com as pessoas e vive uma história tórrida de amor e paixão com Pocahontas. Mais tarde, Powhatan (August Schellenberg), o cacique, liberta Smith e o manda de volta para a casa. Uma série de acontecimentos leva ao surgimento de novos conflitos entre índios e ingleses, trazendo maiores problemas como o isolamento de Pocahontas por sua tribo, mais mortes e o rapto da jovem. Curioso é pensar que o batismo de Smith é a antítese do batismo da princesa. Futuramente, ela é batizada na religião dos ingleses e passa a ser chamada de Rebecca (antes disso, durante todo o tempo, o nome “Pocahontas” não é pronunciado), a se vestir como a civilização ocidental da época e a praticar os costumes ingleses. Ambos passam pela “catequese” do povo um do outro.

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O Novo Mundo é um estudo antropológico que me faz lembrar o que Stanley Kubrick fez em 2001 – Um Odisseia no Espaço com o segmento A Aurora do Homem. Percebe-se o riquíssimo trabalho histórico feito pela equipe. Os dialetos, a linguagem corporal dos índios, o figurino e a pouquíssima maquiagem dos personagens, a magnífica direção de arte e cenografia de Jack Fisk – que trabalha com Malick desde 1969: tudo é resultado óbvio de pesquisa extensa, árdua e detalhista. A riqueza histórica, psicológica, antropológica e sociológica fica ainda mais evidente na ilustração das práticas e acontecimentos conhecidos como a busca desenfreada por riqueza, a organização social das comunidades tanto indígena quanto inglesa; o fanatismo religioso; a eventual loucura causada pela empreitada, pelo frio, pela fome e pela doença (em uma cena, um homem morre e alguém come suas mãos). O filme mostra os índios como os injustiçados e os colonizadores como os vilões (a maioria das retratações sobre dominações, seja lá o cunho que tiverem, tendem a vitimizar um lado da moeda), mas apesar da visão romântica, no fim das contas Malick não estava tão errado (ele também mostra a fúria indígena quando descobrem que os ingleses não vão embora e pretendem civilizar a Virgínia), uma vez que ferro e pólvora vencem, na maioria das vezes, pedra e força física. Ele até brinca com os clichês conhecidos, como o encanto dos índios por espelhos, roupas e bússolas, apontando a inocência dos aborígenes. Ainda assim, tudo é belíssimo e fidedigno.

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É interessante ouvir os personagens expressarem seus pensamentos durante todo o filme (por meio de sons não-diegéticos). Filosófico, Malick usa o voice-over exaustivamente em seus filmes como um recurso extra para ilustrar ainda mais a personalidade de seus personagens. Pocahontas quer conectar-se com os espíritos da Natureza, com a lembrança de sua mãe e com John Smith. John Smith pensa que a Virgínia será um recomeço, uma nova sociedade (quase que socialista, por assim dizer), onde ninguém é explorado e a lei é justa e não desfavorece a ninguém, e expressa seu amor exasperado pela princesa índia.

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Colin Farrell está ótimo como o homem em conflito consigo mesmo, ex-pirata, agitador, soldado, idealista apaixonado, aventureiro desiludido com sua nação e com a América que desejava. Mas a verdadeira estrela do filme é Q’orianka Kilcher, na época com apenas 14 anos. A atriz conseguiu transmitir ao mesmo tempo sabedoria, ingenuidade, força e fragilidade, liderando as cenas com maestria e maturidade. A versão estendida permite que vejamos muito mais do romance entre o casal protagonista. A noção de pedofilia que temos, nos tempos do séc. XVII, não existia. Homens mais velhos casavam-se com crianças. Tal prática era tão normal que Pocahontas, acreditando que Smith havia morrido, casou-se com John Rolfe (Christian Bale), homem mais velho e colonizador riquíssimo que enviuvou cedo. A história entre esses dois é diferente, de amor construído, de um curando as feridas do outro. Rolfe tem princípios, é bom pai de família, bom profissional, tem prestígio na Corte e acaba se apaixonando por Pocahontas. Sempre excelente, Bale transmite calma e segurança a Pocahontas e a nós, espectadores, ganhando a simpatia do público ainda órfão do romance entre a índia e o aventureiro.

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Menção mais que honrosa para todo o elenco formado por gigantes que, muitas vezes, tiveram só uma pontinha (a velha história da edição de Malick, imprevisível, que não perdoa grandes ou pequenos talentos): Wes Studi, August Schellenberg, David Thewlis, Yorick van Wageningen, Raoul Trujillo, Ben Mendelsohn, Noah Taylor, Ben Chaplin, Jamie Harris, Eddie Marsan e Jonathan Pryce.

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Em uma cena exclusiva da versão estendida, Pocahontas, deprimida e afogada em sofrimento, pega um cogumelo e está prestes a comê-lo quando escuta um pássaro cantar. Ela larga o cogumelo e toca a árvore em sua frente. Emocionada, toma um banho no rio e redescobre seu amor pela floresta, pelos índios, pela terra e encontra novo sentido em viver. Os filmes de Terrence Malick mostram a paixão do diretor pela natureza, pela espiritualidade, pelas virtudes, pela família, pelas pessoas. O que quis mostrar em O Novo Mundo – o que sempre quer mostrar em suas obras – são as dicotomias, o bem e o mal representado em várias formas: Novo e Velho Mundo, inocência e malícia, índio e homem branco, natureza e civilização, espiritualidade e ganância, amor e ódio. A poesia de Malick se apresenta nas pequenas coisas.

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Título original: The New World
Direção: Terrence Malick
Produção: Sarah Green
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Q’orianka Kilcher, Colin Farrell, Christian Bale, Christopher Plummer, August Schellenberg, Wes Studi, David Thewlis e Yorick van Wageningen
Lançamento: 2005
Nota:[cinco]

Fernanda Minucci