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Filme: Bone Tomahawk (Mostra de São Paulo 2015)

BoneTomahawk_Still8 Filme: Bone Tomahawk (Mostra de São Paulo 2015)

Durante mais de uma hora e meia de projeção, Bone Tomahawk funciona como um western clássico com uma leve (mas óbvia) influência de Quentin Tarantino, especialmente em seus diálogos triviais entre homens brutos no meio de situações de extremo risco. Entre o final do segundo e o começo do terceiro ato, porém, o longa escrito e dirigido por S. Craig Zahler dá uma guinada tão surpreendente que o projeto praticamente muda de gênero – e o mais interessante é notar que, tanto como faroeste quanto como… enfim, vocês vão descobrir, o filme não só funciona como exercício de gênero, como imprime tensão, desenvolve bem seus personagens e ainda consegue ser deslumbrantemente belo em seus aspectos visuais.

Arthur 0’Dwyer (Wilson) é um capitão do exército que, “de molho” devido a uma ferida em uma das pernas, está entediado em meio à sua cidadela vazia (onde, como a narração em off explica, só há esposas e crianças em tempos de guerra). Certo dia, sua mulher, a enfermeira Samantha (Simmons), vai à cadeia tratar um paciente e é raptada na calada da noite. Apavorado com a possibilidade de um sequestro por parte de uma violenta tribo indígena de que pouco se sabe, Arthur convence o xerife Franklin Hunt (Russell), seu ajudante Chicory (Jenkins) e o almofadinha John Brooder (Fox), ex-pretendente de Samantha, a formar uma caravana de resgate – o que eles não imaginam é que… que… bem, vocês vão ter que ver o filme.

Compondo seu quarteto principal (e que carrega o filme durante a maior parte do tempo) com arquétipos típicos dos westerns clássicos dirigidos por John Ford e Howard Hawks – há o mocinho, o xerife durão, o senhor humilde e sábio e, claro, o galanteador encrenqueiro -, Zahler parte de uma premissa também batida do gênero (e que imediatamente remete ao clássico Rastros de Ódio, só para citar o mais representativo) e a desenvolve com cinismo e melancolia, apresentando com cuidado e paciência um universo em que atos heroicos não encobrem a aridez e insipidez da vida no Oeste – e a decisão de trazer um protagonista coxo não poderia ser mais adequada, já que reforça a sensação de impotência humana diante da precariedade de um mundo sem leis.

E se há um ponto que faz Bone Tomahawk ter sua própria “cara” e se estabelecer como um projeto único, aliás, é o modo inteligentíssimo com que seu diretor e roteirista (com o auxílio essencial dos montadores Greg D’Auria e Fred Raskin, obviamente) manipula o tempo de seu universo diegético: aqui, as noites de acampamento em meio ao deserto (uma imagem recorrente do gênero) se estendem por longos minutos de projeção apenas para ouvirmos de um personagem que “ainda são nove horas”, e a jornada enfrentada por Arthur & cia jamais deixa de se mostrar exaustiva, culminando em uma situação de vida ou morte da qual os personagens tem extrema dificuldade de sair devido também ao profundo cansaço que se abate sobre eles.

Beneficiado enormemente pela belíssima fotografia de Benji Bakshi e por diálogos extremamente bem escritos que ora soam elegantes em sua simplicidade ora divertem pelo humor negro absurdo, Bone Tomahawk é um filme simplesmente impecável, trabalhando com competência irretocável dois de meus gêneros favoritos: o western e o…

Desculpem, mas vocês precisarão assistir ao filme.

Bone Tomahawk (Idem, EUA, 2015). Escrito e dirigido por S. Craig Zahler.Com Patrick Wilson, Kurt Russell, Lili Simmons, Zahn McClarnon, Sean Young, Matthew Fox, Sid Haig, David Arquette, Richard Jenkins, Kathryn Morris e James Tolkan.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.