Críticas Suspense

Crítica: Elle (2016)

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A parceria entre a atriz francesa Isabelle Huppert e o diretor holandês Paul Verhoeven prometia um bom resultado, mas creio que poucos imaginavam que Elle seria tão impactante e imprevisível.

Huppert, essencial para o filme, já mostrou diversas vezes o seu talento para personagens não-convencionais. Talvez, o melhor exemplo seja a complexa Erika Kohut, de A Professora de Piano. Por sua vez, Verhoeven teve diversas oportunidades de mostrar sua disposição e talento para tratar de sexo, sedução e dominação sem pudor, como fez em Instinto Selvagem.

A união da dupla nos permite conhecer Michèle, uma mulher que exige estar no controle sempre, em todas as situações, o que torna suas relações difíceis. Para fazer parte de sua vida é necessário ter disposição para aguentar sua quase constante expressão de desdém, seu ar de superioridade e sua necessidade de ser sincera ao extremo.

O abuso sexual que abre o filme poderia mudar qualquer pessoa com as mesmas características, mas Michèle não se rende a fragilidade e prefere se mostrar inatingível. Não há denúncia e o relato da agressão acontece com a mesma naturalidade com que outra pessoa teria revelado que gosta de café sem açúcar.

Entre tantas qualidades de Elle, o que se destaca é o suspense, mantido por boa parte do filme, que se transforma em drama e não deixa de fazer uso da capacidade que os personagens têm de jogar. Os envolvidos não têm noção do perigo desse jogo, mas a necessidade de brincar com fogo pode cegar até mesmo os mais cautelosos.

Michèle é única e ofusca os outros personagens do filme. O vizinho charmoso e prestativo é casado com uma moça cristã que causa preguiça, o filho é submisso e a imposição da nora incomoda Michèle (provavelmente por perceber que a moça consegue ser tão incisiva quanto). Para completar as dificuldades em lidar com ela, há também a total falta de consideração pelos sentimentos do próximo.

O que mais intriga, porém, é a frieza da protagonista e a nossa curiosidade em descobrir a origem dessa posição. O passado de seu pai parece ser a chave para solucionar essa questão, mas só alimenta a dúvida: afinal, ela já tinha a propensão a se tornar uma mulher indiferente aos sentimentos do próximo ou sua presença em um crime brutal fez com que ela tomasse esse rumo?

Outro fator que destaca o filme é a sua realização numa época em que o feminismo é constantemente discutido, destacado e reforçado. A direção corajosa de Verhoeven pode ser questionada, mas a verdade é que ele deu a Huppert um papel forte e que reforça uma das maiores ideias do feminismo: Michèle não é obrigada a nada, nem mesmo a aceitar o papel de vítima. Por mais que digam que é um filme de reações e relações contraditórias, é importante salientar que a exigência de liberdade implica em comportamento que pode parecer contraditório, mas é o direito que cada indivíduo tem.

 

Graciela Paciência

Graciela Paciência nasceu e cresceu em São Paulo. Por muito tempo acreditou que seu futuro estivesse na direção de videoclipes, mas agora prefere gastar seu tempo livre no cinema, em frente à TV ou na companhia de um bom livro. Gosta de Stephen King, clássicos e cinema europeu. Suas metas de consumo estão (quase) sempre atrasadas, mas o importante é seguir em frente.