Cinema de Buteco

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O Último Portal

Postado por em 17 de junho de 2012

ANTES DE SE TRANSFORMAR EM UM DOS ATORES MAIS QUERIDOS DO CINEMA ATUAL, Johnny Depp tinha uma carreira bem interessante com diversos personagens curiosos e bem trabalhados. Em 1999, ele já era o ator fetiche do diretor Tim Burton, mas a parceria ainda não estava banalizada e sempre oferecia um ar de estranhamento como novidade. E a melhor parte é que Piratas do Caribe ainda não existia e ninguém imaginava que um pirata chamado Jack Sparrow pudesse fazer tanto sucesso. Felizmente, quando é dirigido por diretores competentes, Depp consegue fugir da imagem excêntrica criada com o seu personagem mais famoso. Em Busca da Terra do Nunca, de Marc Forster; e Inimigos Públicos, de Michael Mann; são belos exemplos disso, em tempos que Depp parecia apenas se repetir. Outro exemplo de destaque na carreira do ator está em O Último Portal, thriller comandado pelo cineasta Roman Polanski, que consegue tirar uma das melhores atuações da carreira do ator.

Polanski brinca com o ocultismo na adaptação de um livro escrito por Arturo Pérez-Reverte. Depp interpreta Dean Corso, um negociante de livros raros de moral duvidosa e é contratado pelo misterioso Boris Balkan (Frank Langella), um especialista em demonologia que está decidido a pagar uma grande fortuna para ter certeza de que possui a cópia original de um livro supostamente escrito pelo próprio capeta. A obra em questão oferece poderes para quem desvendar o seu enigma, tudo em um oferecimento do coisa ruim dos confins do underground.

O cinismo e a frieza do personagem de Depp geram bons momentos para o espectador, que fica na dúvida se deveria realmente torcer pelo sucesso dele. Emmanuelle Seigner (musa proibida de Harrison Ford em Busca Frenética) aparece como a atriz feminina principal e que tem a missão de salvar Depp de alguns apuros na mesma proporção que se revela como o maior deles, em uma cena mais para o final do filme. Aliás, creio que talvez seja a única cena em que um homem se arrepende de uma transa ainda durante o ato. Geralmente aquela sensação de culpa costuma vir depois do alívio. Antes porém, ela dá as primeiras pistas de que não é muito normal: enquanto Depp banca o enfermeiro para a moça, ela usa o seu próprio sangue para “batizar” o personagem, que fica surpreso ao perceber os olhos dela mudando de cor várias vezes.

A obsessão é um tema presente na maioria dos filmes de Polanski e em O Último Portal ela é bem destacada e funciona de uma maneira curiosa invertendo os destinos de seus personagens. Se desde o começo da história é Balkan que se aproveita do caráter duvidoso de Corso, usando tudo que está ao seu alcance para poder descobrir a resposta para o enigma de Lúcifer, logo é o próprio personagem de Depp que se vê preso ao desejo de encontrar a resposta. Logo após ridicularizar uma seita satanista e que pratica sexo inconsequente como forma de homenagear o capeta, o destino de Balkan é revelado para o espectador de uma forma cruel.

O Último Portal é um excelente filme, cansativo em partes, mas que é mais um belo exemplar da capacidade de Polanski em aumentar o talento de bons atores. Tanto Depp quanto Langella tem muito que agradecer ao diretor. Infelizmente o filme não é muito comentado na filmografia de Polanski, ficando sempre deixado em segundo plano. Uma pena.

Nota:

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