Trilogia do Antes

antes do amanhecer jesse celine

Acredito que se há qualquer tipo de Deus, ele não está em nós. Não em você, ou em mim. Mas no espaço entre nós. Se há algum tipo de mágica no mundo, ela está na tentativa de compreender alguém e compartilhar algo. Eu sei, é quase impossível conseguir isso. Mas quem se importa? A resposta é a tentativa.

Esta fala é dita por Celine (interpretada pela francesa Julie Delpy) em algum momento de Antes do Amanhecer, primeiro filme da trilogia escrita e dirigida por Richard Linklater. E é essa tentativa que vemos ocorrer em toda a trilogia. E é pela impressionante sinergia do trio formado por Linklater, Delpy e Ethan Hawke (intérprete de Jesse) que nos apaixonamos por Jesse e Celine enquanto acompanhamos o início, o meio e (talvez) o fim de sua paixão, sem nunca duvidar de sua verossimilhança.

O já citado Antes do Amanhecer, de 1995, nos apresenta a francesa Celine e o americano Jesse, por volta de seus 23 anos de idade, em um trem de passeio pela Europa. O casal começa a conversar e a atração é instantânea. É então que eles decidem passar o dia juntos em Viena e se apaixonam. Em 2004, Linklater, Delpy e Hawke (que desta vez participam como roteiristas) decidem não jogar essa bela história fora e fazem Antes do Pôr-do-Sol.

Na trama, que também se passa nove anos depois, Jesse escreve um livro de sua história com Celine, e esta, ao ler a obra e perceber-se nela, encontra sua antiga paixão em Paris, e ambos decidem passar novamente o dia conversando antes que ele mais uma vez tenha que pegar um avião para os Estados Unidos, para sua esposa e pequeno filho. A trilogia termina com Antes da Meia-Noite, em 2013 (9 anos), no qual Jesse está casado com Celine, com quem é pai de duas garotinhas, passando as férias na Grécia e, é claro, conversando, e desta vez muito mais sobre sua já desgastada relação.

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Seria tedioso, se os diálogos não fossem tão apaixonantes. Além do mesmo casal como protagonista, todos os filmes têm a característica de se situar no verão europeu, em alguma cidade na qual eles são estrangeiros (mesmo que o segundo se passe em Paris, onde ela mora, eles estão conhecendo pontos turísticos da cidade), o que pode caracterizá-los como road movies (ou um grande road movie dividido em três episódios).

Além de sempre acompanharmos estes turistas passeando a pé, barco, carro, ônibus e trem (e raramente em locais fechados) durante o verão europeu, o road movie pode ser classificado como um filme que envolve uma viagem, na qual a jornada é mais importante do que o destino. E não seria o amor um grande road movie? A jornada que enfrentamos sem parar para pensar como vai acabar?

Esses dias li uma coluna do Antônio Prata que questionava porque sempre tiramos fotografias em situações inusitadas. No casamento, em uma festa, na viagem para Bariloche. Mas nunca tiramos fotografias vendo TV e comendo sorvete no sofá, descabelados e de moletom. Estes momentos não são tão belos quanto os primeiros?
E a paixão tem uma lógica semelhante das férias. Queremos registrar em nossa lembrança aqueles momentos quando entramos em contato com algo então desconhecido, seja um lugar, pessoa ou situação. Quando aquilo já é bem familiar, não tem mais tanta graça, virou rotina, queremos voltar para casa. E então, depois de muito tempo em casa, vivendo todos os dias iguais, passamos a planejar uma nova viagem. Desta forma, é sintomático que Linklater tenha escolhido abordar Jesse e Celine sempre “de passagem” (conceito reforçado belamente pela personagem Natalia, no terceiro filme). No primeiro longa acompanhamos a empolgação do conhecimento do outro, de um novo sentimento. Aquela faísca do desconhecido. No segundo, Jesse e Celine estão se re-conhecendo, afinal, eles passaram nove anos longe e agora já têm mais de 30 e novas vidas. Mas desta vez, há um pouco mais de dor e mágoa neste encontro. Aos 40, o casal já se conhece muito bem. Ambos sentem que a jornada virou rotina, e os vemos usar esta familiaridade para machucar um ao outro.

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Mas o que há de belo nos três filmes, é que em todos vemos a tentativa de alcançar aquela mágica em compreender um ao outro. Aquele Deus que está entre as pessoas. A já citada lembrança é outro tema importante do filme, já que no segundo e no terceiro, há muitas menções ao encontro em Viena. Em Antes do Pôr-do-Sol, Jesse, ao explicar seu livro, fala que lembrar é viver dois momentos diferentes simultaneamente. E é interessante como a lembrança do público nos ajuda a perceber o amadurecimento do casal (o que também está evidente na narrativa cinematográfica de Linklater) a cada filme.

Em Antes do Amanhecer (Amanhecer = a primeira hora do dia = juventude) vemos certo constrangimento juvenil no casal, que se sente atraído instantaneamente (e entendemos porque, já que ambos estão lindos). Ele joga o corpo para cima dela e faz constrangedoras perguntas sobre sexo. Ela tenta esconder sua paranoia e crença em certo misticismo. O primeiro beijo é imaturo, ele pede permissão e ela também está tímida. Ambos decidem ouvir uma música na cabine de uma loja, com uma troca de olhares que nos deixa corados e otimistas ao mesmo tempo:

Os jovens impulsivos não lembram de perguntar o sobrenome um do outro e nem trocam telefone ou endereço (em uma época em que quase ninguém tinha celular e internet), mas combinam de se encontrar novamente na mesma estação de trem, em seis meses.

Em Antes do Pôr-do-Sol (Pôr-do-Sol = metade do dia, melancolia) descobrimos que este encontro nunca ocorreu, mas os dois nunca se esqueceram, afinal, Jesse escreveu um livro sobre esta paixão. Eles continuam as mesmas pessoas, ela paranoica e com medo de morrer a qualquer momento (uma espécie de Woody Allen feminina) e ele obcecado por sexo e insistindo em piadinhas a todo o momento. Mas algumas características mudaram, e agora suas preocupações são mais adultas, como não perder um vôo, não estragar um casamento e a problemática situação política do mundo.

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O fascínio um pelo outro ainda existe, pois eles, assim como nós, percebem que momentos de conexão não ocorrem muitas vezes na vida, e por isso, há também muita mágoa. Ele lamenta que ela não foi ao encontro, ela lamenta que ele se casou e tem um filho de quatro anos. Nós também temos lembranças, afinal “cada pessoa é feita da soma de pequenos e maravilhosos detalhes, por isso elas não são esquecidas”, como diz Celine. Estes detalhes dão uma maturidade e naturalidade ainda maior para esta sequência. Os personagens estão menos constrangidos, apesar de ainda haver certo receio um pelo outro, que notamos não pelas falas, mas pelos silêncios (o que já é, por si só, uma demonstração de brilhantismo do roteiro). Mas, Linklater também amadureceu como roteirista e diretor. A fotografia é mais cuidadosa. Diferente do primeiro, esse filme se passa em tempo real, o que traz mais complexidade aos longos planos e diálogos. E a entrada dos atores como roteiristas contribuiu muito para isto (tanto que foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado daquele ano). Fica evidente que há muito mais de Delpy e Hawke em Celine e Jesse do que no primeiro, e isso não é, de maneira nenhuma negativo. Muito pelo contrário, é corajoso.

A segunda parte também merece o crédito por trazer o mais bonito de Delpy. E não há como não se apaixonar por alguém que compõe e canta “A Waltz for a Night” de maneira tão bela:

E ainda dança ao som de Nina Simone:

Depois de tanto charme, é claro que Jesse se divorciou da esposa e casou com Celine, o que descobrimos em Antes da Meia-Noite (Meia-Noite = fim ou recomeço, depende do seu otimismo), sem dúvida o mais maduro de todos os filmes. O longa começa com Jesse se despedindo de Henry (seu filho do outro casamento) no aeroporto, e percebemos por todo o filme que a distância deste filho o causa culpa e o faz sentir um péssimo pai, o que também afeta Celine e seu atual casamento.

Desta vez, o casal está de férias na Grécia, e é curiosa a ambigüidade, sentimento muito presente naquele casal, entre o local, que representa a Antiguidade mais do que qualquer outro no mundo, e a atual situação dos dois, de uma família fragmentada em modernas relações. Esta ambigüidade também está presente na conversa que Jesse e Celine mantêm com outros casais em uma mesa, no qual falam sobre como o mundo é cada vez mais virtual e o quanto isto reflete nas relações humanas.

E vemos o amadurecimento de Linklater, Hawke e Delpy ainda maior como cineastas, com longos planos sequências, com destaque para a genial cena que se passa em um quarto de hotel, no qual o casal discute como quem já sabe exatamente o que fere um ao outro e com a familiaridade de quem nem se importa mais em vestir a roupa para manter uma briga. A familiaridade também está em nós espectadores, ao reconhecer que Celine atingiu níveis assustadores de sua neurose, enquanto Jesse parece ter amadurecido tanto e se tornado muito mais inteligente, mesmo mantendo sua obsessão por sexo e piadinhas.

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E mesmo este filme sendo cercado de longas brigas, isto de maneira nenhuma diminui a nossa visão por aquela relação (e pelo casamento, como instituição), pois é necessária uma paixão muito maior para se envolver em uma longa discussão. Casais que não se importam mais não se dão ao trabalho, ignoram. A discussão de Jesse e Celine envolve conhecimento, sentimento de querer mudar e energia (o que também é um sintoma de paixão), e isto fica evidente quando Celine fala que sente esperança em ver as filhas brigando, em ver que elas se importam verdadeiramente com algo.

Este filme completa um ciclo (novamente remetendo a jornada) de um relacionamento, que nos dá esperança de que haverá uma tentativa de recomeço, o que fica claro em algumas cenas que fazem rimas visuais com o primeiro filme, como os créditos iniciando na paisagem de uma estrada. É também curioso reparar que o primeiro assunto abordado por Celine e Jesse em Antes do Amanhecer é uma briga entre um casal alemão de meia idade no trem, o que nos mostra que as histórias de cada casal acabam se repetindo, mas cada uma com apaixonantes peculiaridades. E como diz Jesse, não é perfeito, mas é a realidade… E ela não deixa de ser linda por isso.

E assim, é maravilhoso que mesmo saindo do cinema após ver um casal de 40 anos brigar sem parar, temos esperança em relação ao amor, nos sentimos felizes por poder acompanhar aquela incrível jornada com estas duas interessantíssimas pessoas, e mal podemos esperar pela próxima viagem de Jesse e Celine.

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PS: Jesse e Celine também fazem uma ponta em Waking Life, uma animação excelente de Linklater.
2º PS: Este texto é dedicado àquele que faz com que a minha jornada real seja muito melhor do que qualquer idealização do que é o amor.

Autor: Larissa Padron

Larissa Padron é jornalista pela UFMG e apaixonada por cinema desde pequenininha (o que ela ainda é). Nas horas vagas dança sem música na cozinha e treina o discurso para o Oscar com o shampoo.

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Comentários

  1. Vinicius Corrêa disse:

    Ótimo texto. A altura dessa trilogia tão linda em cada sorriso sonhador ou em cada soco de realidade.

  2. Vinicius Wagner Gomes disse:

    Melhor texto que li sobre este filme. Adoro a trilogia. Parabéns. Acopmpanhava seu trabalho no cinemaemcena.

  3. Jean Piter disse:

    Eu me vi envelhecendo com esse casal. Como não se apaixonar?