Críticas

Crítica: Velvet Goldmine (1998)

Antes de comentar o filme Velvet Goldmine, é preciso fazer umas observações sobre outro tema: Rock And Roll. Esse gênero musical, dentre suas inúmeras vertentes (como, por exemplo, o Heavy Metal, Hard Rock, etc…) possui uma ramificação denominada Glam Rock. Esse estilo sonoro nasceu no final dos anos 60 na Inglaterra e teve como representante bandas como T.Rex, Iggy Pop, Roxy Music, e o cantor David Bowie que, para muitos, é até hoje o maior símbolo do Glam Rock. Os cantores que marcaram esse movimento eram conhecidos por terem uma aparência diferente, exagerando no uso da maquiagem, usando cílios postiços, lantejoulas e até batom e, por misturarem esse glamour facial com roupas vistosas e coloridas.

No cinema, esse universo musical foi abordado no filme Velvet Goldmine. Antes de qualquer coisa a mais que possa ser considerada sobre o filme, Velvet Goldmine é uma verdadeira homenagem ao Glam Rock. O filme foi indicado ao Oscar, ao Palma de Ouro, e venceu uma categoria no BAFTA e uma em Cannes. Foi dirigido por Todd Haynes, que conduziu muito bem a história, com sequências dinâmicas e criativas em diversas cenas.

No enredo deste filme, Arthur Stuart (Christian Bale) é um jornalista britânico que recebe a proposta de escrever uma matéria centrada no cantor Brian Slade (Jonathan Rhys Meyers), grandioso ícone da era Glam, que havia forjado seu próprio assassinato durante um de seus shows, como golpe publicitário. Desde a ocasião, Brian tem seu paradeiro desconhecido. Arthur Stuart começa então, a investigar a vida de Slade e a realizar uma série de entrevistas para chegar a uma resposta sobre o que havia, de fato, acontecido ao músico. Em suas investigações, descobre que Slade teve um caso com um homem chamado Curt Wilde (Ewan McGregor). Em dado momento do filme, o jornalista conscientiza-se de ser homossexual. Talvez, essa última observação do filme, possa soar um tanto esquisita e fora de contexto – homossexual? De repente? – mas não é. Acontece que o movimento Glam Rock esteve estreitamente relacionado com o homossexualismo. Aliás, bom exemplo dessa ligação, foi David Bowie, que confundia a imprensa com sua ambiguidade sexual, aparecendo, hora como um homem, hora, com traços explicitamente femininos. E como dito anteriormente neste texto, esse filme, homenageia o Glam Rock, retratando-o em todos os seus aspectos. Portanto, sendo a homossexualidade, uma das características que marcou o movimento Glam, ela faz-se presente também no filme.

E agora, vamos a uma análise direta sobre o todo! Comecemos pelo próprio nome “Velvet Goldime”: o título é uma menção ao Glam. “Velvet Goldmine” é o nome de uma música de David Bowie, pertencente ao disco “The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars”. E essa não é a única referência à Bowie. Há outras relações entre cenas do filme e a vida do cantor, que se ocultam na história. Uma delas, por exemplo, é o fato de Slade, em dado momento de sua carreira, mudar-se para Berlim, mudança que aconteceu na vida pessoal de David Bowie. Além dessa semelhança, Slade incorpora no palco, o Maxwell Demon. Bowie ficou conhecido por incorporar o personagem Ziggy Stardust. Claro que essas discretas menções à Bowie são justas, já que o artista foi o personagem mais popular do Glam Rock.

Esteticamente falando, o filme possui visual muito bonito, com maquiagem, trilha sonora e figurinos impecáveis que, em conjunto, criam no filme uma atmosfera contagiante e que traspõe perfeitamente para as telas o clima do Glam. A fotografia é estonteante, tal como, era o impactante visual que acompanhou o movimento, contando com cores variadas e bem vibrantes. O filme foi lançado em 1998, mas possui um clima e uma estética que remetem muito bem os anos 60, 70 e 80, que são os períodos em que a história se passa. O figurino do filme rendeu a Velvet Goldmine uma indicação ao Oscar de 1999, na categoria “Melhor Figurino”, e o prêmio de “Melhor Figurino” no BAFTA deste mesmo ano. As roupas usadas pelos personagens são quase chocantes por sua peculiaridade. São brilhantes, vivas, extravagantes e, além disso, em conjunto com o figurino, houve um capricho especial também na maquiagem, sendo que por fim, esses dois aspectos resgataram perfeitamente o estilo Glam dos anos 70.

Possui um elenco muito bem selecionado, composto por nomes como Christian Bale e Ewan McGregor, que tiveram uma excelente atuação, fato que não seria tão simples para qualquer ator, visto que Velvet é um filme ousado e que possui algumas cenas um tanto excêntricas.

A trilha sonora, como é de se esperar, é magnífica. Primeiramente, temos Ewan McGregor soltando a voz e cantando todas as músicas de seu personagem. O ator Jonathan Rhys Meyers, interprete de Brian Slade, também canta a maior parte das músicas do seu personagem, embora algumas tenham sido dubladas pelo vocalista da banda Radiohead, Thom Yorke. Outro ponto interessante é que Michael Stipe, vocalista da banda americana R.E.M, foi o produtor executivo do filme. E Stipe, é claro, caprichou na hora de escolher os sons! As músicas do filme não são versões originais, mas sim covers executados por duas bandas especialmente montadas para essa finalidade.

Todd Haynes, diretor de Velvet Goldime, usou no filme duas espécies de faixas. Várias versões originais da década de 70 acompanham sequências em que os atores não cantam, como música incidental. E algumas outras canções (em menor número), foram gravadas especialmente para o filme, por bandas como Shudder to Think, Pulp e Grant Lee Buffalo, com o objetivo de reproduzir  estilos musicais como o power rock dos anos 80 ou o próprio glam. Haynes, incialmente, pretendia usar como trilha sonora, canções de David Bowie. Porém, o músico não deu permissão para isso, alegando que, futuramente, ele próprio iria realizar um filme contando a história do Glam Rock britânico. Em sua trilha sonora, o filme possui canções de artísticas como Roxy Music, T.Rex, Gary Glitter, Cockney Rebel e The Stooges.

Velvet Goldmine é um filme fundamental para os fãs e apreciadores do Rock And Roll. Em Velvet, o espectador encontra de forma muito bem apresentada, um pedacinho da história do Rock, num momento em que houve uma quebra de paradigma desse gênero, e, uma significativa modificação visual e musical.

Juliana Vannucchi