La La Land e a maldição do reconhecimento | Cinema de Buteco
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La La Land e a maldição do reconhecimento

Na noite de 29 de Fevereiro de 1940, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas coroava “E o Vento Levou…” numa cerimônia na qual o entregou dez estatuetas – incluindo a principal, melhor filme – dentre treze possíveis. Aos admiradores d’”O Mágico de Oz”, indicado a seis prêmios e vencedor de “apenas” dois, restava a decepção. Passados 58 anos e algumas semanas mais, a data de 23 de Março de 1998 marcava o depósito de onze óscares na conta de “Titanic”, nomeado quatorze vezes, assim enfurecendo os fãs de “Gênio Indomável”, “Melhor é Impossível” e “Los Angeles: Cidade Proibida”, títulos que se tiveram de se contentar com, na soma total, meia dúzia de outros prêmios. Há cerca de um mês, em 24 de Janeiro, La La Land era indicado a quatorze categorias do cada vez mais próximo Oscar 2017.

Desde esta data, o longa-metragem passou de uma produção extremamente aguardada – sobretudo em razão da boa base de fãs cultivada por “Whiplash” (2014), projeto anterior do diretor Damien Chazelle – e, quando lançada, notadamente bem recebida, a um título perseguido e crucificado mesmo por aqueles que, inicialmente, dele gostaram. Uma situação reveladora da imaturidade que se mantém atrelada à comunidade cinéfila.

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Percebe-se automaticamente que o desempenho de uma realização cinematográfica nas grandes premiações sujeita-a à consequência imediata de duas reações emocionais extremas por parte do público: de um lado, há filmes cuja mediocridade é refutada pelo fator – “não é ruim, afinal de contas, foi premiado!” -; do outro, num movimento tanto mais controverso quanto interessante de ser analisado, há bons filmes atacados por, pasmem, não cumprirem com a “obrigação de grandiosidade” – traduzindo: não serem obras-primas – a que o reconhecimento das premiações, em tese, os acomete – caso de La La Land. Ambas as alterações efetivas de percepção carregam essencialmente o caráter histórico de hipervalorização do Oscar e das demais grandes premiações, não obstante os admiradores contemporâneos da sétima arte afirmem-se firmes opositores do “esquema dos velhinhos conservadores preconceituosos ultrapassados da Academia”. A impulsão de cobrança qualitativa sobre um longa-metragem multiplamente nomeado à premiação oferece à Academia – ou a outros grupos de votantes – credibilidade integral, ao atribui-la a propriedade da razão da maneira mais simples, infantil e eficaz possível – num excesso expositivo intencional: “Se você está dizendo, então deve ser verdade; se não for, eu ficarei revoltado!”.

Muito provavelmente, à altura das cerimônias de premiação introdutoriamente mencionadas – 1940 e 1998 -, os fãs dos projetos envolvidos e não reconhecidos direcionaram seu rechaço aos que saíram vitoriosos. É compreensível: eram contextos nos quais as grandes forças midiáticas – especialmente as norte-americanas, evidentemente – perpetuavam tranquilamente suas vozes uníssonas sobre a sociedade consumidora; sem que houvesse alternativas de informação ou argumentação, os consensos das premiações representavam, solidamente, parâmetros incontestáveis de razão e prestígio. No século XXI, contudo, o ciberespaço oferece às audiências múltiplos meios de acesso a fatos que desmitificam a autoridade dos grandes prêmios, através de detalhamentos informativos e analíticos de suas estruturas de campanha, lobby e votação, exposição de pontos de vista artísticos mais embasados e criteriosos, além de conhecimentos que explicitam o fato de que a esfera cinematográfica vai muito além do período carnavalesco das carecas douradas. Entre este caminho da sofisticação do debate ou a mera intensificação do alcance de suas vozes – sem a “complexidade” do acréscimo de embasamento -, no entanto, majoritária parcela dos cinéfilos decidiu pelo segundo percurso. E, em três anos, desde quando “Trapaça” exemplificou exatamente o mesmo fenômeno, não houve disposição e reflexão suficientes para a alteração da trajetória.

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Reside ainda maior nível de contradição nesta questão quando nos lembramos da frequente aversão coletiva ao conservadorismo do grupo votante da Academia – no sentido propriamente etário -, e ressaltamos que Damien Chazelle, diretor e roteirista de La La Land, tem 32 anos. Destarte, ainda que pudesse representar um suspiro revigorante de incentivo às novas iniciativas da produção cinematográfica estadunidense e uma quebra de tradição do Oscar – seria o mais jovem cineasta premiado -, apoiá-lo não representaria, neste contexto, agir de maneira “opositora” – tornando-se, portanto, refutável. Mesmo ao indicarmos algumas outras edições da premiação nas quais, embora o vencedor tenha sido um, o perdedor foi quem entrou para a história – alguém lembra mais de “Shakespeare Apaixonado” do que de “O Resgate do Soldado Ryan”? Ou, por acaso, “Como Era Verde Meu Vale” é mais importante do que “Cidadão Kane”? -, é difícil acreditar que seja possível frear a incontrolável ânsia por direcionar raiva e desqualificação àquele que é presentemente reconhecido.

Não sabemos se La La Land seguirá o exemplo de “Titanic” e terminará o domingo (26) carregando uma mala de prêmios, ou o de “Trapaça”, e sairá de mãos abandonando. Uma coisa é certa, porém: de um jeito ou de outro, os defeitos, virtudes ou grandiosidades da obra nos aspectos artísticos e culturais que lhe acometem não serão ressaltados ou reduzidos; permanecerão inalterados. E a manhã seguinte, afinal, será apenas mais um dia de sol.

Leonardo Lopes

Estudante de Jornalismo, cinéfilo, marxista e um aspirante à admiração da Sociologia. Ou nada disso.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.