Crítica: A Mulher da Areia, de Hiroshi Teshigahara
Críticas de filmes Romance

Filme: A Mulher da Areia

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“Você cava para viver ou vive para cavar?”, questiona o professor e entomologista Niki (Eiji Okada) à anfitriã, carcereira e “esposa” interpretada por Kyôko Koshida em certo momento deste A Mulher da Areia, e essa indagação não poderia ser mais pertinente nesta produção japonesa vencedora do prêmio do júri do festival de Cannes em 1964 e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro no mesmo ano, que faz as vezes de metáfora da sociedade patriarcal capitalista vigente até os dias atuais.

Antes de entender o porquê, a narrativa adaptada do romance escrito por Kôbô Abe, que também assina o roteiro, apresenta-nos Niki perambulando por dunas, coletando insetos e eventualmente perdendo o horário do ônibus que o levaria de volta à cidade. Por causa disto, aldeões oferecem-lhe estada numa casa localizada dentro de uma depressão, na qual habita a Mulher de Areia do título original. Ingênuo, Niki aceita o convite, abusa da hospitalidade da Mulher e, quando acorda, descobre que a escada que dava acesso à casa foi removida.

Julgando tratar-se de um mal entendido, Niki pede socorro aos aldeões apenas para descobrir o interesse deles: mantê-lo preso, ajudando a Mulher a cavar areia suficiente para vender no mercado e ainda evitar que a casa seja soterrada. Niki, então, planeja formas de fugir, frustradas tanto pela geografia do local quanto pela condição de inferioridade em que se encontra – quando faz a Mulher de refém, os aldeões resolvem cortar o fornecimento de água. Diante de tal situação, o enquadramento de Niki detrás de barras detém uma simbologia óbvia e portanto supérflua. Mas esta é a única decisão equivocada que faz o diretor Hiroshi Teshigahara, no resto do tempo hábil em construir uma atmosfera claustrofóbica graças à trilha sonora inquietante e experimental de Tôru Takemitsu e à fotografia de Hiroshi Segawa, cujos ângulos ousados e inusitados conferem à situação uma dimensão surrealista.

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Contudo, não há nada absurdo nas entrelinhas quando captor torna-se capturado – e explorador, explorado – e o gesto de afundar insetos na areia e vê-los batalhar, em vão, para recuperar a liberdade ganha feitios de uma ironia amarga. Pois, inclusive o conceito de liberdade, na forma mais ampla de ir e vir, é superado pelo desejo obstinado da Mulher em permanecer na casa embora os argumentos de Niki comprovem quão a tarefa deles é inútil. E não duvido que os próprios aldeões compreendam isso intimamente, apesar de estarem forçosamente presos a um círculo vicioso do qual não podem escapar. Lá estão eles, acima, salivando para ver à amostra do erotismo existente entre Niki e a Mulher desde a primeira noite, depois de ele ver o corpo dela nu e coberto de areia. O que conseguem, no entanto, é assistir à tentativa de estupro que reduz, ainda mais, o papel feminino no microuniverso.

Por falar nisso, Teshigahara, de encontro ao que os conterrâneos mais renomados produziam – o heroísmo e honradez do cinema bushido de Akira Kurosawa; o retrato íntimo da família e cultura japonesa em Yasujiro Ozu –, aposta na crítica social universal apesar de restrito a um universo mínimo, do tamanho do grão de areia visto com rigor microscópico na introdução, sobre o qual só podemos construir suposições e analogias. Quantos maridos a Mulher de fato teve e como ela foi parar ali a priori? Seriam todos apenas engrenagens que, defeituosas, pudessem ser intercambiadas? Dentro desta ótica que remete a Metropolis de Fritz Lang, quantas pessoas habitam em idênticas situações no vasto deserto de dunas? Quantos turistas incautos ou peregrinos de passagem estão aprisionados ali?

A propósito, a narrativa apresenta respostas e reflexões de forma econômica a todo momento seja no design de produção, seja em detalhes que podem passar despercebidos, como os selos que estampam o passaporte de Niki nos créditos iniciais e reforçam a vida itinerante e desolada que leva, apesar de este ser casado e, segundo o que próprio diz, um professor cuja ausência seria sentida (não é).

Mas é o comentário derradeiro da narrativa que expõe tanto a personalidade frágil do protagonista, quanto as artimanhas propostas pelo capitalismo para manter-nos presos dentro do mecanismo que lhe abastece e consome. Afinal, tanto importa nossa liberdade e a possibilidade de reaver sua vida e fazer o que se ama se não há público perante o qual possamos nos vangloriar de nossos êxitos.

No fim, igual aos insetos que Niki aprisiona, estamos confinados em potes de vidro; podemos ver o mundo exterior, sonhar com ele e confiar no surgimento de uma fresta por onde se possa escapar. Uma ilusão necessária para preservar a própria força de vontade e humanidade de que o capital ultimamente se alimenta.

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FICHA TÉCNICA

Título nacional: A MULHER DA AREIA (Disponível em DVD pela Versátil Filmes)
Título original: SUNA NO ONNA (WOMAN IN THE DUNES)
Ano de lançamento: 1964
País: Japão
Duração: 123 minutos
Diretor: Hiroshi Teshigahara
Roteiro: Kôbô Abe baseado em seu próprio livro
Elenco: Eiji Okada (Niki Jumpei), Kyôko Koshida (Woman), Hiroko Itô, Kôji Mitsui, Sen Yano, Ginzô Sekiguchi, Kiyohiko Ichihara, Hideo Kanze, Hiroyuki Nishimoto, Tamotsu Tamura.
Diretor de fotografia: Hiroshi Segawa
Montagem: Fusako Shuzui
Trilha sonora: Tôru Takemitsu

Marcio Sallem