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Crítica: Aquarius (2016)

Aquarius-218x300 Crítica: Aquarius (2016)SE QUERES SER UNIVERSAL, COMEÇA POR PINTAR A TUA ALDEIA”. Kleber Mendonça Filho parece ter compreendido a essência da frase do Tolstoi para conceber o belo Aquarius.

É compreensível a acolhedora recepção da crítica internacional ao filme após sua exibição em Cannes e em diversos festivais pelo mundo. Aquarius trata de temas universais, como memória, a relação entre o passado e presente, o poder afetivo dos objetos e do corpo. Aquarius é sobre como a vida nos ensina a resistir ao tempo. E a bela maneira como essa resistência é narrada desperta sentimentos compartilhados em todos os continentes.

Mas para tal, o diretor pintou sua aldeia. Aquarius é uma declaração de amor ao Recife. Ele é o Nordeste, é o Brasil. Estampado em toda a sua beleza e contradição. Principalmente, Aquarius é o momento atual da política brasileira. Antes de Mendonça e sua equipe denunciarem o golpe de estado no tapete vermelho de Cannes, eles já haviam feito isso na trama do filme.

Clara, a nossa protagonista (Sonia Braga) nos cativa, mas está longe de ser perfeita. Ela é teimosa e tem dificuldade de admitir seus erros. É contraditória, hipócrita e arrogante, por vezes. E ela está atrapalhando os planos da elite (da qual ela faz parte) de construir um grande empreendimento onde ela reside com as suas memórias. Ela tem o direito legítimo de permanecer em seu lugar, e sua força é admirável, mas essa força incomoda a construtora Bonfim, que tenta a tirar usando o dinheiro, o barulho, a sua família e até a religião.

Qualquer semelhança com alguns fatos presidenciáveis talvez não seja mera coincidência. Além disso, em época de Ministério da Cultura na corda bamba, o filme trata da resistência da arte que continua conectando as pessoas, de geração a geração, independente da mídia.

A contradição da elite no conflito de classes (tão Brasil) também está presente aqui. Clara precisa cruzar o esgoto para passar da parte rica à parte pobre da cidade, para participar da festa de sua querida empregada na pequena laje. E não é à toa que é a empregada negra e “filha da puta” que roubou suas joias que aparece no pesadelo de Clara para avisar que ela está sangrando.

Enfim, Aquarius é uma matriosca. Existem muitas camadas temáticas ali. E o mérito disso tudo combinar tão organicamente em uma narrativa fluida é do roteiro, muito bem estruturado em três capítulos que, antes de te mostrar o conflito (a disputa pelo apartamento), te mostra com uma festa porque o objeto daquele conflito é tão insubstituível para Clara.

Por falar em objetos… A materialidade é central na narrativa de Aquarius. É a ausência de um seio que mostra as dificuldades que tornaram Clara mais forte. O cartaz de Barry Lyndon e a rede na sala encarnam sua serenidade. Uma cômoda de madeira (que rendia um filme só para ela) te faz sentir inveja das peripécias sexuais ali já vividas. A beleza dessa história está no não dito.

E para contar tanto no não dito, só o roteiro e objetos não bastam, você precisa de bons atores. Sorte a nossa que Aquarius tem a Sonia Braga.

Nós sabemos da sua sensibilidade pelo olhar de cumplicidade e auto reconhecimento que ela troca com a namorada de seu sobrinho (a cena mais bonita do filme).  Nós sabemos do seu amor pela arte por dançar Queen e Roberto Carlos na mesma intensidade (aliás, ouça a trilha sonora desse filme!). Nós sabemos dos seus fantasmas pelo poema que não consegue ler no túmulo do marido. Que mulher!

Mas não é só Sonia que merece os louros no elenco. Maeve Jinkings consegue nos passar a mágoa e o carinho que sente pela mãe, coexistindo em uma mulher angustiada e constantemente desconfortável naquele apartamento. Humberto Carrão mostra a ambição daquele jovem canalha no sorrisinho cordial e discurso irônico. E, embora com pouco tempo em cena, o sempre ótimo Irandhir Santos passa a confiança que precisamos do seu personagem.

Por fim, a direção é impecável. Do longo tempo que gasta para os olhares e conversas fora jogada entre os personagens, tão importante para entendermos suas motivações, à câmera que vai transformando Clara de uma mulher zen para alguém paranoica, cansada e sufocada pelo medo.

Ao final da sessão do cinema saí admirada pelo otimismo e sensações boas que o filme desperta. Admirada pela força de Clara. Mas com o gosto amargo na boca pela inevitável constatação de que, às vezes, as pragas vencem.

Larissa Padron

Larissa Padron é jornalista pela UFMG e apaixonada por cinema desde pequenininha (o que ela ainda é). Nas horas vagas dança sem música na cozinha, treina o discurso para o Oscar com o shampoo e coloca uns vídeo no Youtube.