Crítica: A Cabana (The Shack, 2017), de Stuart Hazeldine
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Crítica de A Cabana

O Cinema de Buteco adverte: a crítica de A Cabana possui spoilers, uma sinceridade ácida e deverá ser apreciada com moderação

critica-a-cabana-poster Crítica de A CabanaPERCEBEMOS O VALOR QUE HOLLYWOOD DÁ PARA BEST-SELLERS COM OS NOMES ENVOLVIDOS EM ADAPTAÇÕES. A Cabana (The Shack, 2017) é um bom exemplo de produção caça-níquel voltada para quem teve preguiça de ler o livro ou simplesmente leu e achou a oitava maravilha do mundo. Não sei em qual categoria você se encaixa, leitor (a), mas eu vou te dizer já já qual é a minha posição nessa história.

Li esse livro há um bom tempo. Não porque eu precisava de um auxílio espiritual ou estivesse num período crítico psicológico que me fizesse apelar para auto-ajuda. Li porque eu tinha tempo de ler qualquer porcaria. Porra. Eu lia até os livros do Dan Brown nessa época. A Cabana chegou como uma leitura fácil, popular e que, ingenuamente, pensei que pudesse me acrescentar algo. O livro de William P. Young não é uma bomba que dá vontade de arrancar os olhos, mas está longe de algo inesquecível.

Por isso mesmo que me chateei ainda mais com o resultado dessa adaptação cafona de um tal de Stuart “nunca ouvi falar” Hazeldine. (Mentira. Acho que já vi Exame, o seu trabalho anterior, mas não tenho certeza e não importa tanto assim – exceto se a gente for discutir como o cara saiu de um filme de terror para cair na porra de uma adaptação de best-seller) O livro não merecia um produto tão inferior assim.

Começando pelo clima de sessão da tarde versão descarrego do Senhor que domina o longa-metragem quase inteiro e passando pela escalação do elenco (se um diretor desconhecido não foi o suficiente para você perceber como os executivos de Hollywood apostavam nesse filme, os atores podem ajudar a te fazer cair na real), A Cabana é um raro caso em que meus limites foram testados e eu quis imediatamente desistir. Continuei firme e forte porque tenho uma lista de piores filmes de 2017 para entregar e daqui dois meses teremos os piores do primeiro semestre. A Cabana fatalmente estará presente nas duas listas.

Mas afinal… o que A Cabana tem de errado?

Queria escrever “tudo” e encerrar com um “vlw, flw”, mas preciso resistir à tentação. A Cabana apresenta a história do sofrimento de um homem (Sam Worthington) desiludido com a vida e a sua própria existência. Toda a crise começou depois da morte da filha caçula numa viagem. A mocinha foi sequestrada e assassinada por um maluco – mas nem pense em se empolgar achando que A Cabana caminha pro lado do suspense investigativo ou da vingança (como no sensacional Os Suspeitos), pois o assunto aqui é divino. Esse é um filme sobre falar com Deus e resgatar sua fé.

O personagem de Worthington recebe uma carta de uma pessoa desconhecida para ir até a cabana em que a sua vida perdeu o sentido. Lá, ele terá um encontro definitivo com Deus (Octavia Spencer), Jesus e o Espírito Santo. Ou seja, será a terapia mais intensa que o cinema já mostrou em todos os tempos. Eu nem questiono essa parte, sabe? Mas imaginar Octavia Spencer como Deus é improvável demais para me manter concentrado. Péssimo casting, mas lembra que falei que os executivos estão interessados apenas em arrancar dinheiro do público através de uma história sobre busca da fé? E olha que eu nunca critiquei o trabalho da atriz no passado. O negócio é que a cara debochada dela não bate com Deus, véi. Aceitá-la aqui é pedir demais.

Hazeldine, ou quem quer que seja o produtor manda-chuva da vez, comanda sequências vergonhosas como uma corrida por cima da água do lago; uma narração em off expositiva que convida os telespectadores de novelas da Record a se sentirem em casa; visual e trilha sonora cafonas; Octavia Spencer como Deus; Worthington redefinindo os significados de atuação no piloto automático; e ainda tenta nos convencer para uma narrativa que não cativa ou consegue desarmar aqueles que começam a assistir já com um pré-conceito estabelecido. O diretor é desprovido da capacidade de narrar uma boa história e nos envolver, como o autor do livro faz no original. Para o bem ou para o mal, é fundamental conquistar o seu público. A Cabana falha miseravelmente nisso.

É preciso separar qualidade técnica da obra de tema de interesse (afinal, o longa-metragem permanece em cartaz em muitas salas de cinema brasileiras). A função da crítica é orientar o público sobre fragilidades, qualidades, defeitos e inovações presentes em cada obra. É lamentável dizer que, pelo menos na minha concepção de rapaz perdido, A Cabana seja apenas uma mensagem vazia disfarçada de uma adaptação pretensiosa para tentar fisgar apenas pelo coração e transformando a lição da obra original em algo muito raso.

Como disse, esse é um sério candidato para competir com o último Resident Evil pelo título de pior lançamento de 2017. Vou me esforçar loucamente para assistir muita porcaria e tentar ser justo (ou apenas para tentar evitar dar mais motivos para uma futura punição divina… apesar que nem Deus deve ter ficado satisfeito de se ver representado pela engraçada (sqn) Octavia Spencer) no final do ano, mas vou admitir que será páreo duro achar algo desse nível de qualidade.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.