Crítica: Jovens, Loucos e Rebeldes, de Richard Linklater
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Crítica: Jovens, Loucos e Rebeldes

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Richard Linklater cria o retrato de uma geração chapada num filme recheado de atores que ficaram famosos no cinema. 

Jovens-Loucos-e-Rebeldes-Banner-800x600 Crítica: Jovens, Loucos e Rebeldes

RICHARD LINKLATER É O CARA QUE TERÁ A MINHA GRATIDÃO ETERNA POR CAUSA DA TRILOGIA DO ANTES. Mas dois anos antes de lançar Antes do Amanhecer, o cineasta escreveu e dirigiu Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused), em 1993. Muito do que se assiste em Boyhood, seu ambicioso trabalho mais recente, já podia ser observado nesse longa-metragem recheado de atores iniciantes, como Ben Affleck e Matthew McConaughey. Há uma tendência a não “existir” um roteiro e somos levados apenas a acompanhar aqueles personagens durante um dia de suas vidas. O curioso é notar como o diretor consegue acertar a mão ao criar pessoas tão cativantes e interessantes em todas as suas obras.

A trama, se é que realmente importa, aborda um grupo de adolescentes jovens, loucos e rebeldes em seu último dia de aula. Existem todos os tipos de moleques que você viu na sua época de escola. O atleta, o repetente valentão, o cara bonitão que se formou e continua andando com os estudantes, os novatos, o maconheiro, o idiota, estão todos lá. A única coisa que não existe é aquela sub-trama em que um mocinho se revela interessado numa mocinha e acompanhamos as investidas dele. E isso é interessante, afinal Linklater escapa do caminho mais comum de trabalhar com a busca pelo amor e foca exclusivamente no amadurecimento e nas reflexões de seus heróis.

Jovens, Loucos e Rebeldes é um filme produzido para garotos. Isso pode irritar um pouco as meninas, mas antes de insinuar um possível posicionamento machista do roteiro é preciso entender a proposta do longa-metragem. As meninas viram coadjuvantes enquanto acompanhamos a trajetória de vários garotos. No entanto, se trata apenas do foco da narrativa. As meninas estão lá fazendo as suas coisas, mas a perspectiva geral é toda em cima dos rapazes.

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Seria um absurdo falar de um filme de Richard Linklater sem deixar de mencionar a seleção musical sempre de qualidade inquestionável para os amantes do bom e velho rock n’roll. De cara, na introdução da escola e dos protagonistas, temos “Sweet Emotion”, do Aerosmith. Nossos ouvidos (e olhos, claro) ainda são premiados com sequências acompanhadas de clássicos do KISS, Bob Dylan e Lynyrd Skynyrd, dentre outros. Na arte de escolher repertórios, Linklater só perde para Cameron Crowe, diretor de Quase Famosos.

McConaughey e Affleck participam como meros coadjuvantes, mas não deixam de ser uma atração a parte. É estimulante acompanhar o desempenho desses dois atores numa época em que eram ilustres desconhecidos tentando alcançar seu lugar ao sol. Affleck é o valentão que pratica bullying com os novinhos, enquanto McConaughey chega acompanhado de seu famoso bordão “Alright, alright, alright” e os olhos de quem fumou mais maconha do que dava conta. Imperdível.

Aliás, existe um curioso diálogo entre dois jovens que observam o trote nos calouros. Eles discutem sobre a ética daquela prática ao mesmo tempo que se divertem dizendo que a escola parece aprovar aquela sessão de humilhação ou ritual de passagem, dependendo do seu ponto de vista. Outro diálogo curioso é uma referência ao genial Eles Vivem, de John Carpenter. No meio da festa, um personagem aleatório solta a pérola: “Eu vim aqui para beber cerveja e quebrar a sua cara, e minha cerveja acabou…”, numa possível alusão ao hilário: “I have come here to chew bubblegum and kick ass… and i’m out of bubblegum.

A cena final da obra resume a história de uma maneira linda. A partir do momento em que a estrada é filmada como se ela não tivesse fim, Linklater cria uma metáfora para a nossa própria vida. Estamos numa estrada em que não sabemos quando vai chegar ao fim, existem apenas mistérios para serem desvendados e oportunidades para serem exploradas. Existe muito desse flerte com a maturidade ao longo da narrativa, mas o mais eficiente e poético realmente ficou guardado para o final. Seria a evolução daqueles garotos? Seriam eles finalmente encarando a vida que surge diante de seus olhos?

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.