Crítica: Réquiem Para Um Sonho, de Darren Aronofsky
Críticas de filmes Drama

Crítica: Réquiem Para Um Sonho

REQUIEM PARA UM SONHO Jennifer Connelly

Jared Leto e Jennifer Connelly interpretam um casal apaixonado que é destruído pelo uso das drogas em um dos principais trabalhos de Darren Aronofsky

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RÉQUIEM PARA UM SONHO É UM DAQUELES FILMES QUERIDINHOS DO PÚBLICO. Independente de sua qualidade (ou não) ou excesso de moralismo, o longa-metragem de Darren Aronofsky se tornou cult e sempre é lembrado quando se fala em produções sobre a dependência. Um dos “méritos” da obra é mostrar como os usuários chegam ao seu limite. A degradação dos protagonistas mexe com as emoções do espectador sem fazer distinções entre os que já experimentaram ou não substâncias químicas. Óbvio que o resultado é mais eficaz com os que tiveram um passado (ou presente) cheio de excessos, afinal é inevitável acabar se colocando no lugar dos personagens.

No entanto, verdade seja dita, Réquiem Para Um Sonho é uma produção extremamente superestimada por uma geração que parece ter ignorado a existência de Trainspotting, de Danny Boyle; Operação França II, de John Frankenheimer; ou Vício Frenético, de Abel Ferrara. As obras citadas falam dos problemas decorrentes do vício sem parecerem uma longa campanha antidrogas, como no caso do filme de Aronofsky. Aliás, o diretor passou os últimos meses de 2011 lançando vídeos contra drogas. De qualquer forma, a propaganda hollywoodiana contra o consumo de substâncias químicas não merece ser considerada ruim, é apenas inferior aos outros filmes que abordam o tema e sofre com um nada bem vindo moralismo que diminui o seu brilho substancialmente. Nós sabemos que drogas fazem mal, mas quanto exagero, não é mesmo?

As “viagens” apresentadas em Réquiem Para Um Sonho passam longe da maioria das tentativas do cinema em retratar os efeitos das drogas na mente dos usuários. Talvez seja por isso que Trainspotting seja o meu filme predileto do tema, pois nada será capaz de vencer Ewan McGregor mergulhando dentro de uma privada. Nem mesmo as viagens erradas de Tenacious D ou Anjos da Lei 2. O único momento em que Aronofsky permite um delírio dos seus infelizes personagens é, logo no começo, quando Jared Leto “rouba” a arma de um policial e brinca de “peruzinho”. De resto, as “viagens” são retratadas com flashes rápidos das pupilas, da agulha, da droga entrando em contato com o sangue e outras inserções que visam recriar os efeitos. O resultado, infelizmente, soa como um trabalho de faculdade de cinema de alunos do primeiro ano.

O roteiro não perde tempo apresentando o vício dos personagens para o espectador. Na verdade, as próprias apresentações dos protagonistas são um tanto rasas. Harry (Leto) e Tyrone (Marlon Wayans) são dois jovens dependentes que pensam ter tirado a sorte grande ao começarem a revender suas drogas. Não somos convidados a sentir empatia por eles, nem mesmo quando assistimos aos planos de Harry com a sua namorada Marion (Jennifer Connelly) ou Ty relembrando sua infância. Há um distanciamento até mesmo nas cenas com Sara (Ellen Burstyn), mãe de Harry. Apesar de ser a personagem melhor desenvolvida, ainda assim fica a sensação de frieza e distanciamento. Sara é uma viúva solitária, faz vista grossa para o vício do filho, e é vítima de um médico que a faz tomar anfetaminas para perder peso e aparecer na televisão. As consequências das decisões de Sara são assustadoras, um verdadeiro filme de terror que só é superado pelo humilhante desfecho da bela Marion, que é “obrigada” a usar seu corpo como moeda de troca para sustentar o vício.

Já nos primeiros minutos do longa-metragem sentimos a pretensão artística de Aronofsky em criar uma obra definitiva sobre o consumo de drogas. Réquiem Para um Sonho pode ser moralista e ter seus defeitos, mas seria um grande erro afirmar que o cineasta não conseguiu produzir um filme forte e que realmente marcou época. O sucesso se deve, além da narrativa, claro, à trilha sonora épica do compositor Clint Mansell. O tema principal é trilha da sequência em que Harry e Tyrone caminham para vender a televisão e conseguirem mais dinheiro para comprar drogas. A música é perfeita na composição de retratar os dois jovens sendo julgados por um bando de senhoras da terceira idade, praticamente com um faixa de “viciados” pregada na testa de cada um, enquanto se arrastam para buscar o dinheiro. Não se enganem: a ausência dessa música reduziria bastante a eficiência do filme em causar impacto nos espectadores.

Apesar dos comentários pouco amigáveis, confesso ter um carinho especial pelo longa-metragem e especialmente por Darren Aronofsky. Réquiem Para Um Sonho apenas não resistiu ao teste do tempo e envelheceu mal, ainda mais quando comparado com Trainspotting, por exemplo. Seus pontos positivos, além do terrorismo relacionado ao mundo das drogas (moral da história: mesmo se você ficar viciado por acidente, o seu destino será cruel. Se for viciado por vagabundagem, vai acabar com um consolo na bunda no meio de uma festa de ricaços tarados, ou sem um braço, ou, Deus me livre, contando as horas para o novo lançamento do Michael Bay), envolvem apresentar ao mundo do cinema um cineasta talentoso e um dos melhores compositores da atualidade. Apenas por esses detalhes, podemos dizer que se trata de um filme especial.

Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) Dirigido por Darren Aronofsky. Com Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Ellen Burstyn

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.