Crítica: De Volta Para o Futuro - Parte III, de Robert Zemeckis
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Crítica: De Volta Para o Futuro – Parte III (1990)

SE A FICÇÃO CIENTÍFICA TEM O PODER de nos teletransportar a futuros dos mais plausíveis aos mais desvairados, o western está irrevogavelmente preso a um período bem específico do passado. Misturar os dois soa tão improvável e anacrônico quanto promissor, mas volta e meia, quando tentam, os resultados são medianos (Cowboys & Aliens) ou ainda piores (As Loucas Aventuras de James West).

Foto-Doc-e-Marty-838x431 Crítica: De Volta Para o Futuro - Parte III (1990)

Com uma concorrência dessas, não ficaria difícil eleger De Volta Para o Futuro – Parte III como o melhor “faroeste sci-fi” já feito – embora isso seria uma injustiça, e por dois motivos. Primeiro porque a terceira aventura de Marty McFly e Doc Brown pelos confins do espaço-tempo é um ótimo filme por si só e um excelente fechamento para a trilogia iniciada cinco anos antes. Segundo porque, ao contrário de De Volta Para o Futuro – Parte II, o último filme da trilogia acaba sendo o que menos explora a parte científica da coisa, preferindo focar mais nos seus personagens a expandir as possibilidades de idas e vidas temporais e realidades alternativas.

Foto-Doc-e-Marty-838x431 Crítica: De Volta Para o Futuro - Parte III (1990)

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Assim como o segundo filme não estava preocupado em retratar um futuro muito pé-no-chão para a Hill Valley de 2015, De Volta Para o Futuro III não reproduz necessariamente o que teria sido viver no Velho Oeste (embora talvez o “apetitoso” jantar que Marty come no rancho de seus antepassados, com água suja e comida cheia de pedrinhas, não esteja muito distante do que era uma refeição cotidiana naquela época). O oeste americano é aqui muito mais uma homenagem ao gênero cinematográfico e à própria sétima arte do que qualquer coisa, e a dupla Robert Zemeckis (direção e roteiro) e Bob Gale (roteiro) se esbalda brincando com todos os elementos típicos do bangue-bangue: temos porradaria no saloon, índios em pé de guerra com a cavalaria, personagens arquetípicos como o barman, o xerife e o coveiro, tiro certeiro na corda durante um enforcamento, duelo à la Sergio Leone e assalto a trem.

A diferença é que aqui eles ganham um novo ângulo justamente pelo choque cultural de se ter viajantes do tempo dando uma voltinha por aí: se a cultura dos anos 1980 já chocava os hillvallenses de 1955 no primeiro filme, imagina quando a diferença é de um século inteiro? Marty deixa bandidos boquiabertos ao dançar o moonwalk em pleno saloon, Doc Brown é recebido às gargalhadas quando explica o que são automóveis, e até Clint Eastwood, ícone dos westerns, vira motivo de piada entre a população local (“Que diabo de nome estúpido é esse?”).

Foto-Doc-e-Marty-838x431 Crítica: De Volta Para o Futuro - Parte III (1990)

De Volta Para o Futuro III também é repleto de referências à própria franquia, que a esse ponto já havia criado um monte de padrões e tradições repetidos a cada filme. Temos a perseguição que se segue a uma discussão no bar com um Tannen; a maquete preparada pelo Doc para ilustrar a logística da próxima viagem no tempo (ele é modesto, “Me perdoe pela crueza da maquete”, mas exibe um ferrorama pra moleque nenhum botar defeito); a visita inesperada de uma mulher na oficina do Doc (“Marty, cubra a máquina do tempo!”); Marty “pré-inventando” algum apetrecho (o skate no primeiro filme, o frisbee no terceiro); e o Tannen da vez levando estrume na cabeça. Minhas duas auto-referências favoritas: o rápido diálogo em que Marty e Doc invertem seus bordões (Marty exclama: “Great Scott!”, e o doutor retruca: “Yeah, this is heavy”) e o momento em que Marty desperta na presença da personagem de Lea Thompson e dá uma olhada quase imperceptível debaixo das cobertas pra ver se ainda está de calças, lembrando do incidente “Calvin Klein” no primeiro filme.

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O elenco faz um ótimo trabalho como de praxe, todo mundo interpretando antepassados de seus personagens e caprichando nos sotaques, de Tom Wilson (que faz um Bufford Tannen sujo, babão e sempre divertido) a Lea Thompson (embora esta esteja no filme mais pra cumprir tabela do que qualquer coisa, acabando num papel secundário que não faz muito sentido – se ela é a trisavó de Marty McFly por parte de pai, como pode ser a cara da mãe dele?).

Foto-Doc-e-Marty-838x431 Crítica: De Volta Para o Futuro - Parte III (1990)

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Mas De Volta Para o Futuro III pertence mesmo a Christopher Lloyd, cujo Doc Brown deixa de ser apenas um gênio malucão: ora um bad-ass, ora um Don Juan, o cientista mostra facetas inesperadas, dança, atira, anda de hoverboard, fica bêbado – voltando à sobriedade através de um repulsivo e poderoso “suco do despertar”, basicamente uma mistureba de todos os temperos disponíveis no saloon – e até mesmo se apaixona. Mary Steenburgen é uma adição mais que bem-vinda ao elenco e é a grande presença feminina do filme, compondo uma Clara Clayton – professorinha balzaca, interessada na ciência, charmoso olhar de peixe morto – que torna perfeitamente crível seu romance com o Doutor.

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Depois de uma tensa sequência de ação desenfreada envolvendo uma locomotiva, o DeLorean, o hoverboard e um monte de fumaças coloridas, as cenas derradeiras do último De Volta Para o Futuro têm um quê de melancólicas. O DeLorean, que já não mais voava, perdera os pneus para se adaptar melhor aos trilhos e estava cheio de fios, válvulas e gambiarras sobre o capô, é despedaçado ao ser atingido por um trem. Ver o capacitor de fluxo rachado e os circuitos do tempo piscando pela última vez é de partir o coração – a cena remete ao caminhão “sangrando” óleo em Encurralado, mas ali o veículo era o vilão da história, aqui é o nosso companheiro de aventuras há três filmes que se vai.

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Logo depois, chega a hora de nos despedirmos dos dois protagonistas. Marty, que começou a trilogia como um roqueiro sonhador com medo de ousar e viu com os próprios olhos a vida medíocre que o esperava, evita um acidente de carro que estragaria seu futuro e abre caminho para inúmeras possibilidades – “O futuro é o que você faz dele”, diz seu amigo Doc Brown. Este, por sua vez, um gênio falido e solitário no primeiro filme, retorna triunfalmente do Velho Oeste com esposa, dois filhos e uma locomotiva steampunk toda estilosa, partindo para novas e desconhecidas aventuras temporais – cabe ao espectador imaginar quais elas serão.

Sobe o tema épico de Alan Silvestri. A locomotiva acende as luzes, solta fogo, bate as asas e levanta voo. Ecoando o último plano do primeiro filme, o veículo dá meia-volta no ar e voa, apitando, em direção à tela. Os letreiros garrafais não deixam dúvidas:

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Ou será que foi mesmo o fim?

Embora um De Volta Para o Futuro – Parte IV provavelmente nunca vai sair da imaginação dos fãs, a verdadé que o adeus de Marty ao seu amigo Emmett Brown no terceiro filme não significou a última vez que os dois personagens se encontraram, nem a última viagem no tempo que fizeram juntos e tampouco a última vez que Christopher Lloyd esbugalhou os olhos na pele de Doc Brown. Confira em breve, aqui no Cinema de Buteco, nossa matéria especial De Volta Para o Futuro: depois da trilogia!

Lucas Paio

Lucas Paio é mineiro de Belo Horizonte, passou quatro anos na China e desde 2013 vive em Berlim, onde passa o tempo livre no cinema (os poucos que exibem filmes sem dublagem em alemão) e conhecendo a cerveja, digo, a cultura local.