Crítica: Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard
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Filme: Adeus à Linguagem

Adeus-a-Linguagem-838x466 Filme: Adeus à Linguagem

por Edson Valente

Em seu trabalho mais recente, Adeus à Linguagem (Adieu au Langage, 2014), Jean-Luc Godard leva ao extremo seu estilo fílmico de vanguarda para discutir justamente os signos contemporâneos.
Ao apropriar-se do 3D, o diretor francês não simplesmente agrega uma tecnologia que, no cinema em geral, é usada para inserir o espectador no campo de ação e aguçar as sensações que experimenta. Nesse filme, a terceira dimensão serve muitas vezes como artifício de deslocamento, exclusão e confusão: em certas passagens é meio para sobrepor elementos de modo a perturbar a cognição, provocando desconforto visual.

Godard trabalha as imagens e os textos a elas associados em três esferas principais: natureza, metáfora e o conceito de Deus, em viés metafísico. E as situa em uma quarta dimensão que de alguma maneira modifica as outras três: a virtualidade. Nessas circunstâncias, o Google torna-se uma nova versão do oráculo e o sumário imediatista, raso e portátil – via smartphones – do conhecimento.

No contexto da superexposição característica da contemporaneidade, a disputa pelo espaço cognitivo é tão intensa que as informações se sobrepõem a ponto de se anular, ou perder sua função original. Na tela, a coerência é banalizada por meio de repetições de falas e imagens, como se a fragmentação fosse o grande sustentáculo de uma nova Babel, fragmentação essa já evidenciada pelo diretor em outros de seus filmes.

Ao tornar ainda mais nebulosas as intercalações das formas de expressão humanas, Godard nada mais faz que reiterar o que acontece em nosso cotidiano e na própria produção artística, em que a interferência do fruidor torna-se fundamental – vide o conceito de obra aberta, referendado por Umberto Eco.

As palavras são protagonistas no encadeamento do caos engendrado em Adeus à Linguagem – lidas, projetadas ou mesmo suprimidas, como quando o cineasta orienta explicitamente, e isso é avisado no começo da exibição do filme, que algumas falas não sejam legendadas.

Um espectro de trama costura o jogo de reflexões e ilações: o relacionamento amoroso entre duas pessoas, um homem e uma mulher, ou o microcosmo mais íntimo do universo das interações. O distanciamento privado antecipa e reconhece o distanciamento público, ou coletivo, amplificando os ruídos internos para a grande massa audiovisual que paira sobre o conjunto global de conexões.

Chegamos a um ponto em que se faz necessária uma inflexão na – ou novas reflexões sobre a – curva ascendente da quantidade de meios e mensagens. Menos se torna mais na efetividade da transmissão de algo apreensível, cognoscível, reconhecível. “Convença-me de que você está me escutando”; “estou buscando a pobreza na linguagem”, diz-se em um diálogo. A profusão ininterrupta de informação resulta em uma vivência superficial de tudo, e isso se estende para as emoções, os sentimentos e a compreensão do papel da espécie no mundo. “Vamos precisar contratar um intérprete para entender as palavras que saem da própria boca”, diz o filme.

E, aqui, o domínio do ser consciente, ou racional, também é julgado. A missão do homem enquanto articulador de dogmas é relativizada, considerados os desvios instaurados no caminho de busca por perspectivas do absoluto. O acaso surge como força motora que subjuga tudo e todos, indistintamente, e a verdade é metaforizada como uma criança jogando dados.

A igualdade dos seres na submissão às tramas perversas do azar invoca outros parâmetros de nivelamento, e Godard posiciona a lente sobre as distinções e intersecções entre inconsciência e barbárie, bestialidade e instinto. Defecar é universal, a fisiologia comum a nos atirar ao patamar mais orgânico da existência. Não o mais rasteiro, contudo; a paridade mais baixa é a selvageria – nela, todos os homens são iguais.

Não é o animal que é cego; é o homem, cegado pela consciência”. Cegado pelo ódio consciente da violência planejada. Hitler não surgiu do nada, alerta o diretor na tentativa de colocar em pauta conflitos da atualidade, engajando-se na discussão de temas diversos e ainda assim interligados como o feminismo e os embates entre os povos – “se os russos virarem europeus eles nunca mais serão russos”.

Liberdade é o que está no centro das pequenas e das grandes revoluções. “Apenas os seres livres podem ser estranhos uns aos outros”. É a chave de todo conflito e também da harmonia, mas esta surge a partir do momento em que todas as liberdades – ou “estranhezas” – sejam respeitadas.
Um dos protagonistas do filme simboliza a falência do homocentrismo – um cão. Enquanto se coça ou rola no chão, é a criatura mais resolvida na tela. Godard cita Rilke: “O que está lá fora só pode ser conhecido pelo olhar do animal”. Ou, indo além, pondera que não há mudez na natureza – até o rio fala por si, dispensando a interpretação da racionalidade.

O diretor põe contra a parede – e não pela primeira vez – a própria linguagem cinematográfica, com a contundência de questioná-la em um quadro de contestação generalizada. Como se o cinema não desse mais conta de enquadrar recortes bidimensionais, ou mesmo tridimensionais, da realidade, ou de uma hiper-realidade já por demais filtrada por outras lentes.

Porém, em Adeus à Linguagem, sobrevivem ao fundo, em modernas TVs de plasma, cenas de películas antigas, solenemente ignoradas pelos personagens (humanos) que, em primeiro plano, perdem-se na transitoriedade da própria verborragia. Esses velhos filmes evocam uma nostalgia que tem de ser ressignificada na necessidade de retomar – atualizar – as origens para desnovelar o emaranhado simbólico em que o contemporâneo nos meteu. O adeus, então, no caso, seria o sinal para um recomeço.

Edson Valente