Crítica: Aferim!, de Radu Jude.
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Filme: Aferim! (Mostra de São Paulo 2015)

AFERIM_web_4 Filme: Aferim! (Mostra de São Paulo 2015)

Aferim! é um filme atípico: estética e mesmo tematicamente, é um óbvio filhote do Novo Cinema Romeno; mas enquanto os filmes dirigidos por Cristi Piuiu e Cristian Mungiu não oferecem qualquer fresta para que o sofrimento de seus personagens “respire”, este filme apresenta um inesperado humor negro que, em seus melhores momentos, me fez rir alto na sala de exibição.

Escrito e dirigido por Radu Jude, o longa é um road movie (ou melhor: mountain movie) que acompanha o oficial de justiça Constandin (Corban) e seu filho Ionita (Comanoiu) em uma jornada a cavalo pelo interior romeno no início do século XIX em busca de um cigano escravo que fugiu. Concentrando boa parte de seus 108 minutos de projeção nas conversas que os dois mantém ao longo da jornada, o roteiro não só diverte pelo absurdo das ideias retrógradas daqueles dois homens (antes de ser informado de quando a narrativa se passa, eu podia jurar que ela datava da Idade Média) como funciona como um espelho em que a estupidez das ideias de seres humanos supostamente racionais em pleno 2015 surge refletida – uma semelhança que absolutamente assustadora considerando estarmos mais de 200 anos à frente daqueles homens.

Completamente ignorantes quanto a praticamente qualquer assunto, os homens vistos em Aferim! acreditam que a Terra termina em um grande precipício, chamam o Sol e a Lua e “planetas” e, quando a questão torna-se um pouco mais complexa, não hesitam em resmungar um conformado: “quem sou eu para saber uma coisa dessas?” e é hilário, ouvir o longo monólogo (ou, para quem preferir, a gritaria) de um padre que, atribuindo um estereótipo a cada nacionalidade e raça conhecida por ele, precisa de poucos minutos em cena para se inscrever no grupo dos personagens mais ignorantemente preconceituosos que já vi em um filme (e sua punchline de associar os romenos a um “povo decente destinado a sofrer pelo Evangelho” é com facilidade uma das piadas de que mais ri em um filme este ano).

A visão míope de mundo daqueles camponeses, aliás, derivada de uma educação limitada à Bíblia e a tradições e crendices orais, é exatamente o que os faz tão machistas, violentos e mesquinhos – e é no mínimo assustador perceber que, por mais que riamos dos xingamentos absurdos disparados por Constandin a qualquer mulher que cruze seu caminho, vivamos em uma sociedade formada por jovens com acesso à educação e livre informação e que, mesmo assim, se apressam em xingar uma presidenta eleita democraticamente de “puta”, “velha”, “desgraçada” e daí para baixo (ou escrever um artigo em uma das revistas de maior circulação no país defendendo a tese de que o que uma senhora de mais de sessenta anos deidade precisa para conseguir governar é um pênis) como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Fotografado em um preto e branco lindíssimo e através de planos gerais que, estáticos ou movimentando-se sutilmente, tratam seus personagens como membros de uma mesma sociedade (ou um grupo social perdido em um tempo-espaço longínquo) ao invés de seres humanos individuais donos de ideias próprias, o longa faz um retrato cru e repleto de ironia da estupidez do homem europeu do campo no período pós-Idade Média, traçando um paralelo óbvio com seus colegas de espécie que, aqui no Terceiro Milênio, ainda defendem a pena de morte, o fazer justiça com as próprias mãos e o desprezo a imigrantes – com a simples diferença de que, hoje, nós aprendemos a deixar as coisas debaixo dos panos e não gritar a quatro ventos (mesmo que acreditamos nisso) que ciganos (ou judeus, ou árabes, ou negros) não passam de “animais”.

Western rodado no leste europeu remetendo ao humor do Monty Python, Aferim! é um filme único em sua mistura de influências, provocando o riso com a mesma eficiência que nos envergonha de fazer parte de uma geração ainda tão atrasada e burra.

Aferim! (Idem, Romênia, 2015). Escrito e dirigido por Radu Jude. Com Teodor Corban, Mihai Comanoiu, Toma Cuzin, Alexandru Dabija, Luminita Gheorghiu, Victor Rebengiuc, Alexandru Bindea, Mihaela Sirbu, Adina Cristescu, Serban Pavlu e Gabriel Spahiu. 

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.