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Filme: Cruzada

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APÓS O LANÇAMENTO DE GLADIADOR, em 2000, Hollywood percebeu o potencial de obras de época. Alexandre e Tróia foram algumas das obras que tentaram repetir o feito de Ridley Scott nas bilheterias e na Academia, mas ficaram chupando o dedo. Coube ao próprio cineasta lançar, cinco anos depois, Cruzada (Kingdom of Heaven) e mostrar que ele é o rei do pedaço.

Comentei na crítica de Chuva Negra que Ridley Scott é extremamente versátil e inquieto com suas obras e já trabalhou com vários gêneros. Gladiador, Cruzada e Robin Hood fazem parte da sua trilogia medieval, que é um sub-gênero em que Scott demonstra um domínio interessante. As sequências de ação de Gladiador já eram chamavam a atenção, mas Scott conseguiu se superar e filmar algo tão intenso quanto a Batalha de Helm’s Deep, em O Senhor dos Anéis: As Duas Torres. Se em alguns momentos ele prefere não se aprofundar nas batalhas, em outro, como na sequência final, dá uma aula de cinema e sutileza com as estratégias dos dois exércitos ficando óbvias sem serem expostas como em tantas obras do cinema que menosprezam a nossa inteligência.

Estrelado por Orlando Bloom, a narrativa apresenta um viúvo que reencontra o seu pai (Liam Neeson) apenas para observar o velhote sendo assassinado e assumir suas funções no conselho do Rei Balduíno, o leproso (vivido por Edward Norton, que mesmo com o rosto coberto por uma máscara é um dos atores mais interessantes do longa-metragem justamente pelo seu trabalho vocal). Antes de chegar lá, Balian sobrevive a um naufrágio e encara outras adversidades até conquistar o rei e as pessoas de Jerusalem. Após a morte de Balduíno, Guy Lusignan (Marton Csokas) toma decisões imprudentes e cabe a Balian proteger a cidade da invasão dos muçulmanos liderados pelo sereno Saladino (Ghassan Massoud).

Cruzada também investe numa característica comum no cinema de Scott: a relação complexa entre pais e filhos. Balian cresceu sem conhecer o pai e quando isso aconteceu foi apenas para receber um breve treinamento e receber sua missão de servir ao conselho do Rei. Além de ver a morte do pai, claro. Balian sente aquele calor, aquela necessidade de merecer isso e de se superar. Porém, não deixa de ser esquisito um ferreiro adquirir tamanhas habilidades como espadachim e como “prefeito” de sua cidade. Pode ser uma impressão, já que o ritmo da narrativa não nos faz ter certeza de quanto tempo se passou exatamente, mas não deixa de parecer apressado. E isso é um problema comum do cinema de Scott, vide O Conselheiro do Crime.

Orlando Bloom, pobre coitado, sempre recebe críticas pesadas por sua falta de expressão. Em Cruzada não poderia ser diferente, mas confesso que nunca me incomodei com o trabalho do ator. É óbvio que se Russell Crowe fosse mais jovem seria a escolha de Ridley Scott para estrelar Cruzada, mas por algum motivo da natureza o papel ficou com o elfo de O Senhor dos Anéis. O restante do elenco é competente com momentos inspirados de Eva Green (ainda que Scott não tenha tido vontade de trabalhar a sua personagem), Liam Neeson, o já citado Edward Norton, dentre outros atores que ajudam no desenvolvimento da narrativa. O excesso de personagens costuma ser prejudicial pelo risco de confundir o espectador ou até mesmo de tornar ingrata a missão de decorar todos aqueles nomes/funções. Fãs de Game of Thrones que o digam, e aliás, quem foi que notou a pequena participação de Nikolaj Coster-Waldau no filme?

Cruzada tem uma mensagem forte sobre os conflitos que acontecem entre a Palestina e Jerusálem.. Em alguns momentos, o roteiro tenta mostrar que é possível a convivência pacífica entre os povos, especialmente nas discussões de Balduíno e Balian, que tentam deixar de lado o fanatismo religioso para simplesmente depositarem respeito nas crenças individuais de cada um. Curioso perceber que o líder muçulmano Saladino é retratado como um homem cheio de bons modos, respeitoso e extremamente inteligente. Scott foge dos esteréotipos de transformar muçulmanos em animais selvagens que querem matar todos. Essa selvageria é parte do ser humano e muitas vezes não está necessariamente ligada à fé.

Para um diretor com uma carreira focada apenas no prazer de produzir cinema de qualidade, Ridley Scott apresenta um resultado acima da média com Cruzada. Mesmo sem conseguir atingir um nível de excelência como nas produções anteriores, sua obra é eficiente como cinema de ação e para nos transportar para um passado distante, mas com discussões e conflitos extremamente pertinentes para o momento atual em que vivemos.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.