Crítica: É o Amor, de Paul Vecchiali.
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Filme: É o Amor (Mostra de São Paulo 2015)

-o-amor Filme: É o Amor (Mostra de São Paulo 2015)

Se há algo que prejudica É o Amor, novo longa-metragem do veterano diretor francês Paul Vecchiali, é a falta de dinheiro (além, claro, do mau gosto absurdo do cineasta para qualquer tipo de efeito visual): logo quando o filme tem início, os créditos já invadem a tela e é difícil não rir da precariedade das fontes de Word que atravessam o quadro na diagonal acompanhados pelo som de uma locomotiva ou se colocam sobre uma cartela de uma única cor chapada e “sangram” como aqueles velhos “WordArts” que todo mundo que viveu os anos 90 não vê há mais de duas décadas. Superando esse estranhamento inicial, o filme funciona como um eficiente estudo sobre a liberação sexual de adultos acima dos trinta e cinco anos, encontrando maneiras inclusive de usar o orçamento limitadíssimo como desculpa para experimentar um anacronismo interessante.

Escrito pelo próprio Vecchiali, o longa gira em torno e quatro personagens cujos destinos amorosos se entrecruzam: Odile (Adverbe) vive reclamando que o namorado Jean (Cervo) chega em casa tarde demais e possivelmente a está traindo desde sabe-se lá quando. Cansada de suas desculpas esfarrapadas, ela decide ir atrás de um novo crush: o ator gay Daniel (Luco), que acabou de iniciar um relacionamento com o “urso” Albert (Karakozian), um ex-militar que herdou uma vinícola do pai e descobriu recentemente não só a própria homossexualidade, mas também a vocação para cuidar da casa e paparicar o novo namorado. Surpreendentemente, Daniel sede à sedução de Odile e se apaixona tanto por seu sexo que decide disputá-la com o agora “cão arrependido” Jean.

Pensado e executado como uma ode à liberdade da mulher e do homem homossexual, É o Amor apresenta personagens amáveis e comoventes em seu desespero por amor e aceitação, aproveitando para cutucar uma série de convenções sociais antiquadas que, por incrível que pareça, continuam ditando as regras em pleno 2015 (a ideia de que a poligamia é aceitável apenas para o sexo masculino e a de que o homossexual precisa necessariamente ser efeminado são apenas duas delas).

Incluindo uma série de experimentalismos com a linguagem que, mesmo que não sejam particularmente inéditos, surpreendem o espectador e o desafiam a pensar naquilo que estão assistindo ao serem arrancados da zona de conforto (no mais óbvio e interessante deles, Vecchiali filma dois diálogos específicos, situados em momentos distintos da projeção, através do ponto de vista de seus dois participantes, exibindo-os um após o outro e, ao quebrar o fluxo “tradicional”, temporal e causal da narrativa, não apenas permite que seus quatro atores principais tenham a oportunidade de manter-se em seus personagens por monólogos que se estendem por longuíssimos minutos como também dá ao espectador a chance de notar a forma diferente com que cada um deles encara e reage aos mesmos temas, conflitos e incidentes experimentados mutuamente).

Rodado inteiramente em locação no litoral de uma afastada cidade europeia (francesa?) e aparentemente sempre no mesmo horário (eu não duvidaria que boa parte da iluminação é natural), É o Amor constantemente desrespeita o tempo-espaço diegético em que suas cenas se passam, exibindo, por exemplo, uma festa à beira mar que, rodada em um pátio vazio e aberto (o quadro), sugere como local diegético (o campo) a pista de dança de uma boate graças ao som alto cuja origem não pode encontrar-se em quadro devido à total falta de equipamentos – e a estratégia não funciona apenas como uma brincadeira metalinguística, mas, principalmente a partir do momento em que nos acostumamos com essa linguagem, como uma forma de direcionar nossa atenção àquilo que realmente importa para Vecchiali: seus personagens.

Personagens que, decidindo assumir quem são e o que querem bem depois da adolescência, acabaram de se libertar do sinto de castidade que muitos ainda insistem em vestir.

É o Amor (C’est l’amour, França, 2015). Escrito e dirigido por Paul Vecchiali. Com Astrid Adverbe, Pascal Cervo, Julien Luco, Fred Karakozian, Jacques Loucq e Paul Vecchiali.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.