Crítica: Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott
Críticas de filmes Críticas de filmes de ação Destaques Guerra

Filme: Falcão Negro em Perigo (2001)

Falcao-Negro-em-Perigo-review-838x356 Filme: Falcão Negro em Perigo (2001)

O PLANEJAMENTO ORIGINAL DO NOSSO ÚLTIMO MÊS DEDICADO AO TRABALHO DE RIDLEY SCOTT envolvia uma crítica inédita de G.I. Jane e um novo texto para Blade Runner antes do encerramento com Gladiador e “férias” desse nome no Cinema de Buteco até o seu próximo lançamento. Porém, imprevistos acontecem! Cá estou para falar de mais uma obra do cineasta: Falcão Negro em Perigo, de 2001.

Um ano depois de vencer o Oscar por aquele que muitos consideram seu auge, Gladiador, Scott comandou essa adaptação de uma história real acontecida com o exército norte-americano durante a Guerra Civil na Somália em 1993. Um dos atrativos da obra, sem dúvidas, é a capacidade de Scott em atuar nos mais diversos gêneros. Seja na ficção-científica ou nas aventuras de época, o diretor é eficiente e sabe como poucos narrar uma boa história. Ou nos convencer que x acontecimentos rendem uma boa narrativa.

Tudo bem que para Falcão Negro em Perigo, Scott pede mais de duas horas e meia de nossas vidas. Poderia ser menor? Com certeza. Mas será que reduzindo a primeira metade com toda a contextualização e introdução dos vários protagonistas (parece até que aprendeu com Terrence Malick em Além da Linha Vermelha), o espectador ficaria tão envolvido e preso com as eletrizantes sequências de ação do segundo ato? Ridley Scott não poupa esforços para realizar algumas das suas melhores cenas de tiroteios de sua carreira. Os personagens vão parar no meio de uma milícia fortemente armada e que não dá o menor descanso. Chega a ser até dar uma sensação de cansaço físico, tamanha a tensão desses momentos. Ewan McGregor, Josh Hartnett, Jeremy Piven, Eric Bana, Tom Sizemore, Jason Isaac são alguns dos grandes nomes presentes no filme.

O excesso de personagens também tem um efeito negativo, afinal no meio daquela confusão fica até um pouco difícil reconhecer quem é quem. A montagem não ajuda muito e muitas vezes ficamos realmente sem entender o que está acontecendo no filme, mas nada que seja prejudicial para prejudicar a experiência. Dentre os vários nomes do elenco, um deles chama mais a atenção: Falcão Negro em Perigo foi um dos primeiros trabalhos de um até então franzino (!!!) Tom Hardy, cuja apresentação foi falando de maconha e cerveja.

A escolha da trilha sonora diegética é um verdadeiro deleite para quem é fã do rock dos anos 1990: Alice in Chains, Stone Temple Pilots e Faith no More emprestam algumas de suas canções para serem trilha sonora dos alojamentos dos oficiais norte-americanos. Será já que guardavam Metallica para os prisioneiros nessa época…?

Ao contrário do que geralmente acontece em boa parte dos filmes de guerra, Ridley Scott não tenta transformar os EUA em salvadores do planeta. Existem personagens que discutem abertamente sobre a necessidade dessa interferência norte-americana, mas nada de patriotismo. Não se deve julgar soldados por acatarem ordens superiores sem entender de verdade as suas motivações para estarem ali defendendo um país ou ideais. O personagem de Eric Bana, em um dos poucos momentos mais reflexivos da obra, indaga sobre uma eventual conversa com alguém quando ele voltar para casa: “E aí quando me perguntarem se eu sou viciado em guerra, não direi nada. Não direi nada por eles não entenderiam.” E com esse único diálogo, Scott se posiciona como um observador para deixar o juízo de valor apenas para o público.

Falcão Negro em Perigo é um belo filme de ação/guerra com longas cenas de conflitos recheadas de sangue (a violência gráfica não chega a causar desconforto nos mais sensíveis, mas é forte) e tiros para todos os lados. Além de conduzir essas sequências com a maestria habitual, Ridley Scott nos faz acompanhar os anseios desses homens que estão lá arriscando as suas vidas simplesmente porque é esse o trabalho deles.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.