Crítica: A Grande Aposta, de Adam McKay
Comédia Críticas de filmes Drama

Filme: A Grande Aposta

A-Grande-Aposta-crítica-Steve-Carell Filme: A Grande Aposta
EM 2008 ACONTECEU UMA DAS MAIORES CRISES ECONÔMICAS MUNDIAIS (descrita como uma “marolinha” pelo governo brasileiro em referência aos impactos no país) e A Grande Aposta (The Big Short) se junta ao time formado por Margin Call, de J.C. Chandor; Inside Job, de Charles Ferguson; e Too Big to Fail, de Curtis Hanson; para abordar o tema. O diferencial é contar com um elenco estelar e uma boa (e necessária) dose de sarcasmo para contar a sua história.

Estrelado por Ryan Gosling, Christian Bale, Brad Pitt e com a melhor atuação da carreira de Steve Carell, a produção dirigida por Adam McKay (O Âncora) apresenta três núcleos de personagens que não chegam a contracenar juntos. Ou seja, nossas expectativas de ver Bale e Gosling aparecendo ao mesmo tempo não são concretizadas. Existe uma conexão em que as atitudes de um personagem vai influenciando as de outros, o que acaba se tornando uma das partes mais interessantes da narrativa. McKay compensa a falta de uma cena com todos os atores com um roteiro que conecta as descobertas de Michael Burry (Bale), o oportunismo de Jared Vennett (Gosling), o temperamento explosivo de Mark Baum (Carell), a experiência de bem Rickert (Pitt) e a sorte dos novatos Jamie Shipley (Finn Wittrock) e Charlie Geller (John Magaro).

Bale, que recebeu uma indicação ao Oscar 2016 por sua atuação, está realmente muito bem na pele de um gênio da economia que descobre a bolha no mercado imobiliário e começa a investir contra a bolsa, para o delírio dos executivos de Wall Street que acham uma loucura alguém apostar contra os imóveis e enxergam nisso a chance de lucrarem com a “estupidez” alheia. Com traços da síndrome de Asperger (veja A Rede Social, de David Fincher, para entender) e um olho de vidro, Burry fica no seu escritório descalço, usando camisetas largas e bermudas, enquanto ouve bandas de metal e faz seu air drum e analisa dados da inteligência de informação da sua empresa. Toda a caracterização do personagem é ótima, mas a verdade precisa ser dita e não há nenhum ator melhor em A Grande Aposta que Steve Carell. Depois de fazer carreira no mundo da comédia, Carell começou a optar por produções dramáticas para dar um novo rumo em sua carreira. Foxcatcher mostrou para os cinéfilos que um dos melhores comediantes em atividade também poderia assustar na pele de um homem com sérias deficiências mentais. Desta vez, na pele do enfazadinho Baum, o ator divide a sua interpretação em momentos de impulsividade e de observação, sempre conservando o olhar de quem está prestes a explodir e iniciar uma briga. Sensacional.

Se eu tivesse um embasamento econômico digno de ser compartilhado, provavelmente faria uma análise mais profunda do que é apresentado em cena nos momentos em que detalhes mais técnicos são apresentados (embora a narrativa tome a liberdade de criar “parênteses” para nos explicar algumas coisas mais importantes. É engraçado demais e tal, mas nos tira completamente da imersão no filme), mas posso falar sobre pessoas. A Grande Aposta pode até ser uma obra sobre o colapso da economia mundial, mas não deixa de ser também sobre a nossa ganância. Como coloquei no parágrafo anterior, os banqueiros deliraram com alguém investindo contra o “infalível” mercado imobiliário. Nenhum profissional tentou entender o que estava sendo dito ou aconselhou Burry a não cometer essa “loucura”. Muito pelo contrário: com dificuldade de conter os sorrisos, muitos silenciaram ou aceitaram a proposta de bom grado. Isso sem deixar de lembrar a sequência em que Baum e sua equipe entrevistam dois empresários almofadinhas que não tem a menor ideia das consequências de suas ações e se divertem esbanjando todo o dinheiro que conseguem. A Grande Aposta deixa de ser apenas sobre economia para ser um retrato cruel da ignorância.

Com uma montagem ágil que dá um ritmo quase que de vídeo-clipe para o longa-metragem, A Grande Aposta se destaca como um tapa na cara da hipocrisia disfarçado de comédia, como quem não quer nada além que mostrar a verdade e comer uma pizza logo depois, já que é isso que importa realmente. Mesmo todas as boas piadas da adaptação do livro de Michael Lewis ou as grandes atuações do elenco, A Grande Aposta não deixa os seus espectadores abandonarem os cinemas sem refletirem sobre a grande merda que é o sistema.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.