Crítica: Magical Girl, de Carlos Vermut.
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Filme: Magical Girl (Mostra de São Paulo 2015)

Magical_Girl_Foto_pel_cula_5871 Filme: Magical Girl (Mostra de São Paulo 2015)

O início de Magical Girl é extremamente tocante: em um ato de desespero para realizar o último desejo de Alicia (Pollán), sua filha pré-adolescente que enfrenta um câncer ao qual provavelmente não sobreviverá, Luis (Bermejo) folheia o diário da garota e, ao descobrir seu sonho de adquirir a fantasia rara de uma cantora-anime japonesa (a “Magical Girl” do título), sai à procura de dinheiro emprestado para comprá-la. Em poucos minutos, o diretor e roteirista Carlos Vermut estabeleceu um conflito bem definido e de fácil identificação, apresentou personagens doces em sua humanidade e nos encantou com sua relação cheia de doçura e companheirismo – uma trinca capaz de garantir o sucesso de qualquer drama.

Infelizmente, não demora muito para descobrirmos que o longa envolverá também outros núcleos de personagens que formarão um painel interconectado ao estilo dos filmes de Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga – e quanto mais o cineasta espanhol se esforça para ligar uma história na outra de maneira cada vez mais inesperada e chocante, menos nos lembramos do início tão promissor que a narrativa tivera.

(E eu aconselho, claro, que o leitor que não queira conhecer detalhes da trama abandone este texto imediatamente.)

Nossa primeira frustração, na verdade, se dá diante da revelação do monstro que Luis conseguira esconder a princípio: falhando em levantar o dinheiro por meios legais ou mesmo morais, o sujeito se aproveita de uma mulher extremamente fragilizada e deprimida (a bela Bárbara, interpretada pela ótima Bárbara Lennie) que cruza seu caminho por uma coincidência absurda (o filme é cheio delas) e se oferece a ele sexualmente, transando com ela e passando a ameaçar contar tudo a seu possessivo marido Alfredo (Elejalde) caso ela não lhe dê o dinheiro para a fantasia. Para piorar, ao melhor (ou seria pior?) estilo Efeito Borboleta, a ação mau-caráter do sujeito “obriga” a moça a se prostituir para um grupo de sádicos, iniciando uma série de eventos que vão se tornando cada vez mais catastróficos.

Mesmo se o espectador conseguir evitar questões acerca da implausibilidade dos fatos (“E se aquele jorro de vômito não houvesse atingido Luis naquele momento específico? Se ele não houvesse conhecido Bárbara, como levantaria o dinheiro? E ela se reencontraria da mesma maneira com o ex-professor e protegé Damían (Sacristán)?”), é impossível não se irritar com o exagero nas ações de praticamente todos os personagens, que parecem movidos muito mais pelo interesse do diretor e roteirista de criar soluções drásticas que levem sua trama a direções imprevistas que por suas próprias necessidades, personalidades ou convicções morais.

Trazendo ao menos interpretações fortes de boa parte do elenco e desenvolvendo duas ou três dinâmicas intrigantes (a “servidão” emocional imposta por Bárbara sobre Damían desde o flashback que abre a projeção não é apenas verossímil, como até compreensível), Magical Girl é um drama razoavelmente eficiente que derrapa ao tentar ser espertinho, surpreendente e espetacular demais.

Se houvesse escolhido apenas uma de suas subtramas para desenvolver de maneira profunda e privada de sensacionalismo, o resultado teria provavelmente sido muito superior.

Magical Girl (Idem, Espanha/França, 2014). Escrito e dirigido por Carlos Vermut. Com José Sacristán, Barbara Lennie, Luis Bermejo, Israel Elejalde, Lucía Pollán, Elisabet Gelabert, Miquel Insua, Teresa Soria Ruano, David Pareja, Eva Llorach, Javier Botet, Lorena Iglesias e Marisol Membrillo.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.