Crítica: Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob.
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Filme: Olmo e a Gaivota (Mostra de São Paulo 2015)

olmo-and-the-seagull Filme: Olmo e a Gaivota (Mostra de São Paulo 2015)

Assim como fez em Elena, seu filme anterior, a cineasta Petra Costa dirige Olmo e a Gaivota (agora com o auxílio de Lea Glob) como um estudo de personagem que, ao tentar investigar as motivações, medos, angústias e frustrações por trás das palavras e ações de sua protagonista, reflete acerca de sentimentos comuns à experiência humana – ou, neste caso, à experiência feminina. Desta vez, porém, Costa consegue se livrar do impulso de se colocar à frente das câmeras e desviar a atenção de sua personagem principal, jogando generosamente o filme nas mãos da espetacular Olivia Corsini (que, por sua vez, o toma para si e o transforma em um sensível, intimista e existencial retrato da alma inquieta de uma gestante).

Híbrido entre documentário e ficção, o longa se propõe a registrar o período em que (a atriz) Corsini aguarda o nascimento de seu primeiro filho, do momento em que um teste de farmácia resulta positivo (causando-lhe problemas imediatos na montagem de sua nova peça, já que alguns de seus colegas se contrapõem à sua manutenção no grupo durante uma importante turnê que se aproxima) aos primeiros dias de vida do bebê. Casada com (o também ator) Serge Nicolai, Corsini parece ter dado a Costa e Glob total acesso a sua intimidade – mas, como não poderia deixar de ser, os momentos mais reveladores que a câmera da diretora capta podem tanto ser espontâneos, conscientemente (ou inconscientemente) encenados ou, como parece ocorrer na maior parte do tempo, uma mistura entre a mulher e sua persona dramática.

Independente de qualquer coisa, a verdade é que Olivia Corsini mostra-se uma mulher fascinante em sua humanidade: enfrentando um período de constantes alterações de humor e de uma contínua sensação de deslocamento, ela sabe muito bem, como diz em off, que é a vida que traz no ventre quem “dita as regras do jogo”, dedicando-se a ela com uma devoção cuja ferocidade é diretamente proporcional às duvidas que pairam em sua mente. E é tocante (e ao mesmo tempo triste), ouvi-la falar do marido como o homem com quem experimentou um tipo de amor diferente, mais tranquilo, seguro e garantido (subentendendo uma decisão conveniente de manter-se sob seus cuidados apesar de não nutrir por ele uma paixão avassaladora).

Mas afinal de contas, não é isso que as pessoas costumam chamar de amor? Captando os momentos de intimidade que Corsini e Nicolai compartilham abraçados um ao outro antes de pegar no sono, a dupla de diretoras nos leva a compreender a dinâmica que permitiu que, ao menos até ali, fizesse aquelas duas pessoas se manterem juntas mesmo que as dúvidas jamais tenham deixado de rodear seus pensamentos: no final do dia, ter um companheiro dedicado e disposto a se manter por perto mesmo nos momentos de som e fúria é uma dádiva a ser aceita e cultivada.

Abordando ainda as transformações físicas e sensoriais em que uma mulher costuma atravessar em seus meses como gestante (o tato aguçado da protagonista torna-se quase um elemento visual do longa), Olmo e a Gaivota funciona, de certa forma, como uma declaração de amor a nossas mães, parceiras e futuras mães de nossos filhos.

Olmo e a Gaivota (Olmo and the Seagull, Dinamarca e outros, 2015). Escrito e dirigido por Petra Costa e Lea Glob. Com Olivia Corsini e Serge Nicolai. 

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.