Crítica: Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg
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Filme: Ponte dos Espiões


Steven Spielberg e Tom Hanks mostram que possuem um talento único para conquistar e cativar seus espectadores com o excelente Ponte de Espiões.

Ponte-de-Espiões-838x438 Filme: Ponte dos Espiões

STEVEN SPIELBERG ANDOU COM O DEDO PODRE NOS TRABALHOS MAIS RECENTES (Cavalo de Guerra e Lincoln, estou olhando para vocês), mas mesmo em seus trabalhos menos inspirados conseguia transmitir emoção e cativar o seu espectador. Com Ponte dos Espiões (Bridge of Spies), o cineasta consegue colocar a sua fórmula mágica de fazer cinema em prática e nos faz mergulhar numa emocionante cinebiografia com personagens carismáticos e apaixonantes, como é de praxe no cinema “spilberguiano”.

Ponte dos Espiões apresenta a história de um advogado norte-americano que recebe a missão de defender um homem acusado de espionagem à favor da União Soviética em plena tensão da Guerra Fria. Mesmo enfrentando a fúria da população, James Donovan (Hanks) encara o desafio e tenta afirmar para todos que qualquer pessoa merece um julgamento e tratamento justo em frente às leis dos EUA.

Um dos melhores papéis da carreira de Tom Hanks foi em O Resgate do Soldado Ryan, sob a direção de Steven Spielberg. O ator conseguiu repetir trabalhos memoráveis nas outras duas parcerias seguintes: Prenda-me se for Capaz e O Terminal. Difícil dizer se é com o Spielberg ou com Robert Zemeckis (Forrest Gump e Náufrago) que Hanks mostra o seu melhor. De qualquer forma, o protagonista de Ponte dos Espiões nos cativa imediatamente. Ele se revela como aquele cara boa praça que todo mundo gosta e quer ter por perto, um idealista que se dedica de corpo e alma pelo trabalho. Hanks consegue capturar a essência de quem foi James Donovan e o que ele representou para a história dos EUA. Mas ele possui um companheiro de elenco que está tão ou mais inspirado: Mark Rylance, que interpreta um espião soviético de um jeito único. Mesmo com toda a frieza, ainda conseguimos sentir calor e emoções no personagem. Ainda que nos presenteie com poucos minutos em cena, em relação a Hanks, Rylance é um ponto alto do longa-metragem.

Spielberg gosta de trabalhar com a questão de relacionamento pai-filho em seus filmes. Praticamente todas as suas obras possuem um conflito paternal, como Guerra dos Mundos e Contatos Imediatos de Terceiro Grau, por exemplo. Ponte de Espiões apresenta o personagem de Tom Hanks claramente dando mais atenção e carinho para as suas duas filhas do que para o garotinho. No entanto, é apenas um detalhe observado e que em nada interfere na narrativa. A verdade é que o advogado Donovan é um verdadeiro paizão da humanidade e percebemos o carinho e preocupação que ele cria pelo seu cliente e posteriormente por um estudante.

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Por conta desse comportamento paizão, temos outro traço do cinema de Spielberg: o ideal norte-americano, a vontade e a fé inabalável de se buscar fazer o que é certo. O Donovan de Spielberg é praticamente um Capitão América sem escudo e com as rugas aparecendo no espelho. Felizmente, mesmo com o patriotismo excessivo, o roteiro é habilidoso em criar personagens secundários com o único propósito de ir contra os ideais de justiça de Donovan.

Aliás, o roteiro foi escrito por Ethan e Joel Coen numa parceria até então inédita com Steven Spielberg, que desejava isso desde a década de 1980. Incrível como podemos perceber a assinatura dos roteiristas com seu tradicional jeito de escrever piadas (“Ajuda se eu ficar preocupado?”) e como o estilo dos cineastas encaixou perfeitamente na própria forma como Spielberg conduz suas obras. E tenho certeza que o diretor de Tubarão já sabia que seria “mágico” desde a primeira vez que ouviu falar dos Coen. Ponte dos Espiões reforça a tese de que entre um bom roteiro e um bom diretor, realmente é o segundo que tem maior importância.

Outra novidade se tratando de Spielberg é a trilha sonora com Thomas Newman, que depois de 12 indicações, pode aparecer como um candidato forte no Oscar 2016. Especialmente pelo belo tema criado para os momentos finais da obra, quando Donovan retorna para casa após sua viagem “pescando salmão”. Não seria um filme de Steven Spielberg se o desgraçado não tentasse te fazer derramar uma lágrima que seja, né? E a combinação de todos os eventos que transformam esse cara num exemplo máximo de humanidade e bondade com uma trilha delicada e emocionante como a apresentada, foi fatal. Meu coração gelado deixou uma lágrima escorrer.

Ponte dos Espiões, como já disse, é um grande acerto da filmografia de Spielberg e funciona bem em tudo que se propõe: elenco, trilha sonora, roteiro, fotografia, e, claro, a direção magistral do Midas da indústria. Para os leitores advogados é um prato cheio acompanhar o conflito entre defender um espião russo e fazer o seu trabalho, mas a narrativa é eficiente ao ponto de conseguir se aprofundar um pouco na disputa jurídica sem se tornar aborrecida, arrastada ou complexa demais para que leigos possam entender. É Spielberg sendo Spielberg.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.