Crítica: Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike Nichols
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Crítica: Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966)

CHEGA UM MOMENTO EM NOSSAS VIDAS EM QUE É NECESSÁRIO DAR UM PASSO ADIANTE NUMA RELAÇÃO AMOROSA. Muitas vezes apelamos para amigos e familiares (ou até desconhecidos num ponto de ônibus) para saber se vale a pena trocar o título de namoro para casamento. Quando as opiniões não são o suficiente, é comum usar a arte como refúgio para tentar encontrar uma resposta. E neste caso, o espetacular Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Who’s Afraid of Virginia Woolf?, 1966), de Mike Nichols, pode funcionar como um conselho frio e direto sobre o casamento e suas dificuldades.

George (Richard Burton) e Martha (Elizabeth Taylor) interpretam um casal maduro que, após deixarem uma festa levemente embriagados, recebem em sua casa um casal mais jovem que irá passar a noite dormindo num dos quartos. No entanto, George e Martha iniciam uma constrangedora discussão sobre o seu relacionamento e arrasta Nick (George Seagal) e Honey (Sandy Dennis) para uma noite intensa com muita lavação de roupa suja.

Quem-Tem-Medo-de-Virgina-Woolf-Mike-Nichols-838x470 Crítica: Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966)

A direção de Mike Nichols, na época um estreante, já dava boas pistas sobre o talento do cineasta e sua preferência por adaptações de peças teatrais ou de obras com um forte teor emocional. No ano seguinte, ele dirigiria A Primeira Noite de um Homem e quase quarenta anos depois, a sua obra-prima, Closer – Perto Demais, que inclusive faz um curioso diálogo com os eventos de Quem tem Medo de Virgínia Woolf?, afinal as duas obras apresentam quatro personagens experimentando sensações amargas no meio de um verdadeiro turbilhão de emoções. Mesmo sem experiência, Nichols dominou o texto pesado da peça escrita por Edward Albee, e graças ao belo roteiro de Ernest Lehman (recheado de humor inteligente e sarcástico), o diretor não teve dificuldade em conduzir a narrativa de uma maneira sufocante para os espectadores.

Ainda que os excessos verborrágicos sejam cansativos em muitos momentos, na medida em que as coisas continuam acontecendo na trama acabamos presos no meio daquela discussão. Viramos parte dela e o lado voyeur de observar uma briga começa a falar mais alto. Nada disso seria possível sem o belo trabalho do roteiro no começo da produção. Nós vamos conhecendo os detalhes de George e Martha aos poucos, mas não demora para entendermos como é que cada um sabe exatamente o que dizer para ofender e magoar um ao outro: retrato perfeito da cumplicidade e intimidade obtida ao longo dos anos juntos.

Aliás, precisamos observar que um dos grandes trunfos da produção é colocar um casal da vida real (cuja vida particular costumava chamar muita atenção da imprensa, já que Burton tinha um probleminha com álcool e Taylor trocava de maridos com a mesma vontade que trocava de roupa) para viver os conflitos da trama. Foi um verdadeiro deleite para os fãs de Richard Burton e Elizabeth Taylor ter a oportunidade de assistir a uma ficção que em muito poderia se parecer com a própria realidade deles.

Como não podia deixar de ser numa adaptação teatral, além da necessidade de uma direção/montagem capaz de dar agilidade para o longo roteiro cheio de diálogos pesados, o elenco PRECISA ser formado por atores de alto nível para não deixar nada a desejar. Nichols mostra que desde o começo da carreira já sabia muito bem como tirar o melhor dos seus atores e somos recompensados com atuações de tirar o fôlego, especialmente do casal Burton e Taylor.

Confesso não ter muita intimidade com a obra de Taylor, mas posso dizer que a mulher era realmente um fenômeno. Uma combinação perfeita de talento para interpretar quanto consciência dos seus atributos. Ao mesmo tempo em que flerta com Nick, a personagem da atriz seduz o público: nós não queremos fechar os olhos e correr o risco de perder os seus gestos e palavras. Um verdadeiro show. O restante do elenco também se destaca. Eu, particularmente, me diverti muito com Sandy Dennis e a sua personagem ficando levemente entorpecida como uma defesa para tudo que estava presenciando, como o marido dando em cima de uma mulher mais velha bem na sua frente.

(Verdade seja dita: cada um dos quatro protagonistas merecia uma análise profunda e separada, mas a crítica ficaria longa demais e vamos pensar nisso para um outro artigo no futuro.)

Para quem viu (e gostou) de Closer; Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes; ou Deus da Carnificina, de Roman Polanski; Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? é uma obra obrigatória e uma dica perfeita para quem ainda vive as dúvidas sobre trocar alianças ou não. O mundo da ficção costuma reservar boas lições de vida para quem está disposto a aprender sobre a vida através da experiência de outros. Não é por acaso que Quem Tem Medo de Virginia Woolf? aparece entre os nossos filmes favoritos lançados em 1966.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.