Crítica: Sob Nuvens Elétricas, de Alksey German.
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Filme: Sob Nuvens Elétricas (Mostra de São Paulo 2015)

sob-nuvens-elétricas Filme: Sob Nuvens Elétricas (Mostra de São Paulo 2015)

Ao longo de seus 137 minutos de projeção, Sob Nuvens Elétricas nos convida a andar por desertos congelados, ruínas abandonadas, vielas sombrias e interiores claustrofóbicos que, cobertos por uma camada espessa e cinza que já foi chamada de céu, parecem formar uma grande e interminável Chernobyl. Sintomaticamente ambientado em 2017, ano em que a Revolução Russa completa seu primeiro século, o longa faz um retrato pessimista e melancólico de um país que, de lá pra cá, assistiu ao colapso tanto de uma versão distorcida do Socialismo de Marx quanto do capitalismo predatório que levou parte de todo o Continente Europeu ao buraco.

Adotando uma estrutura de antologia em que, aqui e ali, personagens de segmentos diferentes se cruzam (ou apenas avistam de longe o grande elefante branco que o edifício construído com orgulho – mas não finalizado – por um recém-falecido magnata da engenharia soviética se tornou), o longa escrito e dirigido por Aleksey German tem sua linha temporal principal ambientada em uma Rússia pós-apocalíptica em que ouve-se rumores de guerras que já fecharam todas as fronteiras do imenso país, de chuvas-ácidas que despencam sem dar aviso prévio e de doenças misteriosas que avançam com ferocidade rumo à pandemia enquanto vê-se homens esfomeados matando uns aos outros para se alimentar e, claro, o que sobrou das estátuas dos heróis da Revolução refletindo em sua própria aparência carcomida o estado de decomposição em que o país se encontra.

É mais do que apropriado, aliás, que os dois principais flashbacks a que a narrativa se permite remetam a 1991 e 2011, anos históricos para o país por representarem respectivamente a ruína da União Soviética e a quebra econômica de um sistema implantado há apenas vinte anos. Para German, são acima de tudo a Arquitetura, mas também a Escultura e a Literatura, Artes historicamente representativas de seu país, os últimos guardiões de o que seria a essência do povo russo, cujas individualidades e liberdades foram esmagadas por um século de opressão através do poder e da autoridade intolerante e desumanizada.

E se falo “para German” é porque Sob Nuvens Elétricas é, acima de tudo, um filme-tese: ao final da projeção, o espectador dificilmente se lembrará dos dramas pessoais do imigrante que perambula pedindo ajuda sem conseguir produzir uma única palavra em russo, dos herdeiros de um império da Engenharia ou do arquiteto que não consegue parar de ter sonhos estranhos (até porque suas histórias propriamente ditas não são lá muito interessantes); mas é impossível abandonar a sala de projeção sem refletir acerca do legado que governos opressores (seja pelo controle irresponsavelmente opressor do Estado quanto pelo mau-caratismo selvagem do neoliberalismo econômico) tem deixado à Rússia, à Europa e ao mundo inteiro.

Remetendo ao ótimo (e também extremamente consciente) Leviatã, exibido na Mostra do ano passado, o filme consegue extrair humor do cenário absolutamente desolador que apresenta e apesar da abordagem narrativa lenta, repleta de planos longuíssimos e pouco movimentados e da fotografia cinzenta de Sergey Mikhalchuk e Evgeniy Privin, que é ainda mais entristecida por uma trilha sonora silenciosa que conta apenas com sons diegéticos como o som assustador do vento, o choro melancólico de um saxofonista solitário e daí por diante.

Enquadrando seus personagens à distância (e assim fazendo jus à tradição russa da “tipagem”, que trata seus personagens como grupos sociais responsáveis por produzir o discurso do diretor sem se desenvolverem como indivíduos), não é que Sob Nuvens Elétricas não se preocupa com eles; o filme apenas compreende que o enorme peso histórico que carregam nas costas os tornou um povo cuja identidade não se encontra mais nos olhos, narizes e bocas de seus filhos, mas das estruturas de concreto, argila ou mesmo tinta de caneta que seus pais lhes permitiram herdar.

Sob Nuvens Elétricas (Pod Elektricheskimi Oblakami, Rússia, 2015). Escrito e dirigido por Aleksey German. Com Louis Franck, Merab Ninidze, Viktoriya Korotkova, Chulpan Khamatova, Viktor Bugakov, Karim Pakachakov, Konstantin Zeliger, Anastasiya Melnikova e Piotr Gasowski.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.