Crítica: No Limite do Amanhã, de Doug Liman
Aventura Críticas de filmes Sci-Fi

No Limite do Amanhã

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NA ESPERADA E RECORTADA MONTAGEM QUE ABRE O SCI-FI NO LIMITE DO AMANHÃ, descobrimos que, em um futuro não muito distante, a sobrevivência da humanidade na Terra encontra-se ameaçada por uma raça alienígena altamente hostil e implacável que, embora lutando em terreno desconhecido, parece ter alcançado uma inesperada vantagem na disputa pelo domínio do planeta. Nesse contexto, o major William Cage (Tom Cruise), relações públicas do exército norte-americano, é forçado a se juntar à Força de Defesa Unificada (FDU) para combater uma colônia alienígena sediada em determinada região da Inglaterra, mesmo não tendo qualquer experiência ou treinamento de campo. Assim, poucos minutos após desembarcar no caótico terreno da batalha, Cage é encoberto pelas vísceras corrosivas de um dos miméticos (nome dado pelos homens aos alienígenas) e sofre uma morte violenta – e, ao invés de vermos os créditos finais surgindo aos 15 minutos de projeção, somos levados de volta à manhã do dia anterior, momento em que o protagonista havia acabado de chegar às instalações militares e várias horas antes de embarcar para o massacre que acabara de testemunhar.

Uma nova e fatal visita ao campo de batalha é suficiente para que Cage perceba que, por razões ainda desconhecidas, ele havia desenvolvido a habilidade de reviver repetidamente aquele mesmo período sempre que suas funções vitais são anuladas. Entretanto, os problemas do oficial estão longe de acabar: como utilizar aquilo a favor dos humanos, considerando que sua explicação é absurda demais para convencer qualquer um daquele batalhão? Escrito por Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e por Christopher McQuarrie (Jack Reacher – O Último Tiro) com base no romance “All You Need is Kill”, de Hiroshi Sakurazaka, No Limite do Amanhã abraça este conceito peculiar de viagem no tempo (popularizado pela comédia romântica Feitiço do Tempo) e o desdobra em uma narrativa que não só consegue desenvolver sequências de ação dotadas de uma dinâmica particular e curiosa, mas também lança um olhar sobre as sequelas emocionais sofridas pelos indivíduos sujeitos àquele cruel videogame humano.

Não que o trabalho dos roteiristas esteja alheio a questionamentos legítimos e pertinentes por parte do público. Quando decide utilizar sua capacidade de voltar no tempo para adquirir habilidades como soldado, por exemplo, o protagonista é obrigado a reencenar uma série de situações e enfrentar com precisão vários pequenos obstáculos para desviar a atenção do sargento Farrell (Bill Paxton) e partir para o salão de treinamento – e se considerarmos que Cage é abatido inúmeras vezes durante os treinos (muitas delas logo nos primeiros minutos) pelos robôs que simulam os miméticos, é impossível ignorar que o esforço exercido pelo personagem soa como algo absurdamente exaustivo e desalentador, levando-nos a questionar de onde vem a força de vontade para dar continuidade ao treinamento. Felizmente, os roteiristas não ignoram completamente essa questão, mas apenas adiam a discussão: o protagonista só é visto demonstrando sinais inequívocos de angústia e cansaço mais adiante, especialmente após a cena em que, durante um dos retornos no tempo, Cage opta por deixar completamente de lado a obrigação de treinar ou tentar salvar o mundo e se refugia em um pub em busca de descanso e com o objetivo de afogar as próprias mágoas.

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Como esperado, Tom Cruise faz um excelente trabalho: deixando de lado (pelo menos em um primeiro momento) os tipos durões e implacáveis que costuma encarnar (desde o famoso agente Ethan Hunt da franquia Missão: Impossível até seus papéis em filmes com Oblivion, Encontro Explosivo ou Minority Report – A Nova Lei), o astro quinquagenário evolui da insegurança e inabilidade à destreza e dureza com energia e competência, transformando William em um sujeito amargurado pela dimensão da responsabilidade que tem em mãos e pelas constantes e repetidas tragédias que é obrigado a vivenciar e testemunhar, mesmo que posteriormente revertidas. Dividindo boa parte das cenas com o ator, Emily Blunt surge pouco empática em um primeiro momento, mas logo abre espaço para que o público decifre a casca grossa da habilidosa e venerada Rita Vrataski, única personagem que já esteve na mesma situação que o protagonista e o melhor braço direito que este poderia encontrar.

Com um design de produção que não tenta chamar atenção para si ou soar particularmente original (em momento algum a equipe tenta apresentar o exoesqueleto dos supersoldados – semelhante ao de Elysium – como algo inédito ou inusitado, por exemplo), No Limite do Amanhã é prejudicado por um 3D convertido que, além de ineficaz e mal empregado, compromete algumas sequências mais movimentadas, como os ágeis combates no litoral (que rementem involuntariamente a O Resgate do Soldado Ryan). Por outro lado, o filme é beneficiado por um alienígena cujo design, além de fugir dos padrões habituais, surge verdadeiramente ameaçador, levando-nos a temer pelo destino dos personagens.

Por todos os méritos alcançados, é frustrante perceber que os roteiristas e o diretor Doug Liman deixam a peteca cair a poucos minutos do fim da projeção: tentando criar um desfecho mais aprazível para o público, os realizadores encerram a narrativa com uma resolução que oscila entre a incoerência e a falta de explicação e parece ferir conceitos martelados insistentemente ao longo das quase duas horas anteriores. Seria um desgosto e tanto para carregar pra fora da sala de exibição caso o filme, como um todo, não fosse tão animador e eficiente.

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Eduardo Monteiro

Eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas estou aqui tentando convencê-los que Encantada é um estudo de personagens subestimado, que Ela Dança, Eu Danço 4 não é um desperdício total de tempo ou que o documentário da Katy Perry tem mais camadas que muitas bacias de sedimentação por aí. E plantando outras sementes de discórdia em terrenos férteis nas horas vagas.