Crítica de Logan (2017), de James Mangold:
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Crítica: Logan

Logan-1 Crítica: Logan

“(…) Mas que nós morreremos não significa necessariamente que todos deverão morrer sempre. A questão: “A morte é necessária?” está atualmente aberta. Pela primeira vez está aberta. Claro: imortalidade só tem sentido se fôr do corpo. Até as religiões sabem disto. “Na minha carne verei Deus”, porque se não fôr na minha carne, não serei eu quem verá Deus. Pela primeira vez a imortalidade do corpo tornou-se discutível significativamente. (…) Ótimo: não é preciso morrer doravante. Isto não implica que é preciso viver-se eternamente. Pode morrer-se aonde, como e quando se deseja. Depois da superação da morte surgirá a verdadeira liberdade. Será possível afirmar a vida, porque será igualmente possível negá-la. Por enquanto o suicídio apenas apressa o inevitável. É ato falso. Doravante passa a ser verdadeiro. Eis um aspecto do nosso drama: viver em tempo de crise. Não poder presenciar um futuro imaginável: nós morreremos, embora não seja necessária a morte.”

– Vilém Flusser, “A Morte”.

Reside um impasse conceitual na consciência do limite da vida humana: embora a morte seja temida, lamentável e façamos grandes esforços na intenção de evitá-la, nossa existência está irremediavelmente condicionada a ela; é preciso que saibamos de nosso fim para preenchermos nosso tempo vital com experiências significativas. A noção da morte é necessária à existência – por mais controversa que esta afirmação possa soar. E a existência de Logan (Hugh Jackman, em sua nona interpretação do herói) é martirizada pela ausência da finitude. Um dia imponente e determinado, à altura dos eventos de Logan, o Wolverine é uma sombra do que outrora fora, enfraquecido e calejado pelo acúmulo de tragédias e partidas que compõem a infinidade de sua própria trajetória.

A rigidez emocional que historicamente acompanha o emblemático personagem-título é representativa de nobreza. Este sujeito abdica do preenchimento afetivo, da necessidade humana em apoiar-se sentimentalmente no outro – não se engane com a questão mutante – para não colocar em risco àqueles que pode vir a amar; Logan é ciente de que, embora seja absolutamente resistente, a morte, a violência e o perigo caracterizam suas relações mais estreitas, acometendo necessariamente todos os indivíduos que o cercarem – sua alternativa é poupá-los, afastando-os com o comportamento sisudo e pouco receptível ou, quando inevitável, protegê-los obstinadamente. Logan, madura obra de James Mangold que catalisa a ótica do herói, consegue traduzir esta característica sublimemente num mero frame: o instante em que, embora jamais assuma ter se entregado a uma travessia de pleno risco apenas pelo compromisso de proteger sua filha Laura (Dafne Keen), é incapaz de aceitar a remuneração financeira pelo “serviço prestado”. Sua expressão afetiva, inestimável e factualmente bondosa se dá por meio de ações práticas, por mais que estas pareçam contrariadas pelo discurso. Pouco o importa.

Logan-1 Crítica: Logan

Devemos responsabilizar Hugh Jackman – no grande trabalho de sua filmografia -, porém, por grande parte do poder de uma narrativa que se sustenta, sobretudo, sobre um Wolverine ineditamente palpável, complexo e autenticamente sensibilizado. Num suspiro cansado, o australiano antecipa que indesejavelmente terá de atacar meia dúzia de sujeitos que tentam assaltar a limusine onde dorme; sua presença física se mantém intacta, mas a exaustão psicológica é evidenciada a cada um destes tão sutis quanto significativos segundos que antecipam práticas violentas. O trabalho, sujo, mas necessário, persegue Logan neste contexto em que não há outras esperanças senão a insistência na sobrevivência; o instinto de proteção e vingança se projeta sobre as figuras de Laura e do professor Charles Xavier (Patrick Stewart), e a alegria quase se manifesta quando há breves momentos de tranquilidade – Logan, no entanto, jamais parece se contentar com isto; ele sabe que, na lógica de sua jornada, a interrupção se dará tão breve quanto cruelmente.

E esta lógica existencial transborda para todo o contexto no qual Logan se passa, justificando ambiciosamente seu nível intenso de violência. Uma crueldade que não poupa sequer a figura infantil de Laura, ciente da necessidade de equiparar-se a esta realidade; não há alternativa neste universo tomado pela destruição e pela perda da noção de finitude da vida, tornando-a menos significativa, assim crescente e constantemente sujeita à depredação pelo outro – eis a previsão cada vez mais verossímil da normalização da violência. Portanto, pouco surpreende quando, na primeira – e absolutamente empolgante – oportunidade em que Wolverine e Laura lutam conjuntamente contra a gangue que os persegue, esta não deixa nada a dever àquele em termos de brutalidade contra seus opositores, manifestação de sua vivência integral nesta realidade. Aliás, vale ressaltar a notável virtude de James Mangold ao realizar – além da citada – aquela que definitivamente está entre as melhores sequências de ação da história da franquia X-Men: o ataque de Logan durante a convulsão de Xavier. A paralisação coletiva estiliza e abrilhanta uma cena catártica de todo o esforço físico de um envelhecido herói que não se desfez de suas habilidades, levando-nos a vibrar com seu êxito. O diretor carrega consigo, ainda, o mérito da sutileza: uma breve troca de diálogos à mesa entre Logan e o professor representa, junto de um tocante acesso nostálgico de ambos, a mais fidedigna captação do sentimento puro de parceria e coletividade entre o então saudoso grupo dos X-Men desde a clássica – e inesquecível – série animada.

Logan efetiva um esforço original, ousado e louvável ao apropriar-se do espaço de um filme de super-heróis para abordar sensivelmente o suicídio, dando andamento às relevantes discussões sociais alegóricas da série acerca das minorias e grupos oprimidos ao empregá-las neste contexto. “Don’t be what they’ve made you. You don’t have to fight no more”. Logan luta essencialmente para que Laura e os demais novos mutantes possam, na diferença que os caracteriza fundamentalmente, experimentarem a permanência da paz em suas vidas – algo que ele jamais pôde, tampouco aqueles que compuseram seu passado. E, na perseguição que marca os “distintos da normalidade”, permanece havendo constante impedimento da possibilidade de tranquilidade e esperança, não importando o quão valioso seja o empenho de resistência – restando a muitos, infelizmente, o caminho único do encerramento de suas próprias existências; e o suicídio também pode, afinal, expressar o sacrifício por uma causa.

Um esforço que encerra com brilhantismo a jornada da mais cativante figura da melhor franquia de super-heróis do cinema.

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that’s real

The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become
My sweetest friend?
Everyone I know goes away
In the end.”

– Trent Reznor, “Hurt”.

 

Leonardo Lopes

Estudante de Jornalismo, cinéfilo, marxista e um aspirante à admiração da Sociologia. Ou nada disso.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.