Crítica: O Inquilino (1976), um filme de Roman Polanski
Críticas de filmes Destaques Suspense

Crítica: O Inquilino (1976)

poster-o-inquilino-200x300 Crítica: O Inquilino (1976)QUANDO ROMAN POLANSKI ESTRELOU E DIRIGIU O INQUILINO (The Tenant, 1976), ele já havia entregado para o público as suas principais obras: Repulsa ao Sexo (1965), A Dança dos Vampiros (1967), O Bebê de Rosemary (1968) e Chinatown (1974). É incrível notar a qualidade do cineasta e tantas obras obrigatórias para qualquer cinéfilo num prazo tão curto. Na verdade, eu poderia dizer que mais de 80% da filmografia de Polanski deveria ser essencial para a formação de cinéfilos e críticos em geral.

Parte final da chamada trilogia do apartamento (Repulsa ao Sexo e O Bebê de Rosemary são consideradas as partes I e II, respectivamente), O Inquilino apresenta a história do jovem Trelkovsky (vivido pelo próprio Polanski), que se muda para um apartamento e começa a acreditar que é vítima de uma conspiração organizada pelos seus vizinhos chatos pra caralho.

Assim como em Repulsa ao Sexo, temos um protagonista psicologicamente debilitado. O Bebê de Rosemary também apresenta um caso semelhante, mas lá descobrimos que havia realmente algo errado e que a personagem de Mia Farrow foi manipulada para pensar que era maluca com as viagens erradas dos vizinhos serem adoradores do capeta ou de servir como barriga de aluguel do próprio coisa ruim. Trelkovsky é apresentado como um homem tímido, mas confiante. Um homem sério e que fica feliz de encontrar um bom apartamento. No entanto, as circunstâncias de sua mudança acabam transformando Trelkovsky num sujeito cada vez mais desequilibrado: é como se ele sentisse culpa pelo suicídio da moradora do apartamento.

Após a morte da moça, Trelkovsky faz a sua mudança e aparece entrando numa igreja para o velório. Acredito que o seu mal-estar começou nesse momento, quando o sermão do padre começou a causar um visível desconforto. O suor e a inquietação a cada palavra ouvida e olhar direcionado para as imagens católicas nos fazem imaginar que o coitado estava se sentindo culpado por ocupar o lar de alguém que se matou. Mas qual seria o motivo para isso?

Essa culpa também é refletida através da sua incapacidade de lidar com os vizinhos com idade mais avançada que simplesmente reclamam de tudo o tempo inteiro. Qualquer barulho é motivo para gritarem ou baterem em sua porta para ordenarem silêncio. Uma cena curiosa é quando Trelkovsky recebe uns amigos baderneiros e uma das convidadas roça os seios no seu braço. Esse é o primeiro momento em que Trelkovsky demonstra certo desconforto e fica ainda mais nítido quando ela se acomoda com o rosto bem no seu colo, numa insinuação de um boquete. Uma das regras do “síndico” é que ele não poderia receber garotas para “festinhas à dois”, e isso deixa o nosso pobre protagonista travado. Em outra oportunidade, ele rejeita levar Stella (Isabelle Adjani) para a sua casa porque se lembra da proibição e inventa uma história qualquer – para depois sugerir ir para a casa dela. Aliás, gosto muito do desenvolvimento do romance dos dois e como eles se curtem no cinema num amasso feroz (que é usado no ato final no auge da paranoia do protagonista) e discreto durante um filme com o Bruce Lee (!!!!). A loucura de Trelkovsky é tamanha que ele logo começa a se transformar numa mulher. Ele passa a viver uma crise de identidade que o faz acreditar que é a própria Simone.

Ao brincar com a questão da paranoia, o roteiro convida o espectador a entrar no jogo em seus minutos finais. E se tudo não passasse de um delírio do próprio Trelkovsky, que imaginou toda a história do suicídio da antiga moradora e agora está delirando imobilizado na cama do hospital? É uma leitura curiosa que pode ser feita, mas prefiro imaginar que não seja o caso. Isso empobreceria a obra, pois é muito mais interessante observar o declínio de um homem rumo à loucura do que a sua mente lhe pregando peças durante seu leito de morte.

Assim como aconteceu com Cul-de-Sac em nossa lista de melhores filmes de 1966, O Inquilino é outra obra de Polanski a receber o nosso reconhecimento (ou amor) ao figurar em nosso ranking de melhores obras de 1976. Um filmaço, que curiosamente recebeu uma apenas uma estrela do renomado crítico Roger Ebert. Esses críticos…

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.