Crítica: Persona, de Ingmar Bergman
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Persona

por João
Ingmar_Bergman_-_Persona Persona(Persona) de Ingmar Bergman. Com: Liv Ullman, Bibi Anderson, Gunnar Björnstrand.
 
Assistir à um filme de Bergman é um prazer. Mesmo. Sua filmografia é toda permeada por abordagens a cada contato mais profundas da psiquê humana, e de nossas preocupações com o fato de estarmos no mundo; na responsabilidade e no fardo que isso acarreta.
 
São muitos os filmes que recomendaria: Sonata de Outono, O Sétimo Selo, Gritos e Sussurros, Morangos Silvestres… (ainda não assisti a todos). Cada um com um tema que, na totalidade de sua obra, tenta responder à questões, que por si só já fazem desde cineasta alguém tão admirável, dada a complexidade que representam. Mas ele as enfrenta como nenhum outro o fez, e a volta dessa viagem tão profunda nem sempre é das melhores para o espectador. É uma pancada atrás da outra! Mas não podemos condenar Bergman por ser tão pouco hipócrita quanto a essas sondagens que faz do humano. É a verdade, sem máscaras que está ali.
 
No caso de Persona, o que está em jogo é a convivência com o outro. Pra dizer o mínimo. O filme é tão rico em significados, que fica difícil falar de possivel sinopse ou tema central. Talvez esta: uma atriz, Elisabet Vogler (a linda e perfeita como sempre Liv Ullman), parece estar em um estado de “choque voluntário”. Durante a encenação de Elektra, para de falar definitivamente, ficando aos cuidados psiquiátricos de irmã Alma (Bibi Anderson). Para que o tratamento se intensifique, as duas são mandadas para uma distante casa de praia. O que será intensificado, além do tratamento, é a relação entre as duas. Não se sabe mais quem é o médico e quem é o paciente, ou a quem aqueles segredos que estão sendo revelados pertencem de verdade. Uma transição entre dependência e ódio. As duas passam a ser vistas como almas de um mesmo corpo, como no momento em que o marido de Elizabet se dirige a Alma como se ela fosse a sua esposa (e Bergman se aproveita da semelhança entre as duas atrizes para criar este clima)!
 
A cena inicial é enigmática ao extremo, e as falas como sempre, são um show à parte, daquelas que você volta pra ler e reler… Em um dado momento do filme por exemplo, quando a médica que coordena o antendimento do hospital em que Elizabet está internada lhe recomenda a ida à casa de campo, ela lhe faz o seguinte diagnóstico:
 
“Pensa que não entendo? O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas desse gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos…
Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica (…). “
Não só nas falas, mas também, nas tomadas, na fotografia, nos enquadramentos dos rostos, na atuações (Ullman e Anderson são colaboradoras recorrentes de Bergman). Sempre marcas registradas deste grande cineasta, que faleceu no ano passado. Enfim… É um grande filme, obrigatório pra quem gosta de cinema.
 

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.

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