Crítica: Aliança do Crime, de Scott Cooper.
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Filme: Aliança do Crime (Mostra de São Paulo 2015)

black-mass Filme: Aliança do Crime (Mostra de São Paulo 2015)

Como filme de máfia à moda antiga, Aliança do Crime tem todos os elementos no lugar: um chefão impiedoso e imprevisível, um ou outro agente idealista cercado por homens corruptos comprados pela máfia, locações suburbanas vistas através de uma fotografia granulada e dessaturada (se alguém da equipe do filme merece ser ao menos lembrado durante a temporada de premiações, é o diretor de fotografia Masanobu Takayanagi), relações escorregadias entre gangsters, policiais, políticos, cidadãos comuns e autoridades religiosas e, claro, violência gráfica que surge inesperada (e por isso mesmo, chocante) para quebrar a monotonia que predomina no dia-a-dia de seus personagens de chapéu e sobretudo. E talvez seja justamente por isso que o filme não consegue se destacar de fato: quanto mais segue as pegadas dos clássicos do gênero (principalmente os de Martin Scorsese), menos consegue ter sua cara própria.

Construindo sua narrativa em torno da ascensão do mafioso James ‘Whitey’ Bulger (Depp), a versão irlandesa, narcótica e oitentista de Al Capone (ou de Michael Corleone, a julgar pelo “respeito” que goza diante dos vizinhos), o roteiro escrito por Mark Mallouk e Jez Butterworth desenvolve uma trama movida pelas interações entre seus personagens: mais interessado em capturar os mafiosos italianos da “Zona Norte” de Boston, o agente do FBI John Connolly (Edgerton) consegue a autorização do seu chefe (Bacon) para propor uma parceria com Bulger que basicamente se resume a fazer vista grossa para seus crimes em troca de reforço no combate a um inimigo em comum. Quanto mais se envolve com o sujeito, porém, mais seu estilo de vida luxuoso o fascina, trazendo-o para dentro de sua própria casa – a contragosto de sua esposa Lindsey (Johnson) – e logo passando a infringir a lei de diversas maneiras para atingir seus objetivos.

Com uma estrutura em flashbacks em que os depoimentos dos capangas que entregaram Bulger ditam a ordem dos eventos que se desenrolam na tela, o longa não apenas estraga algumas descobertas que só deveríamos ter em seu desfecho, mas também soa episódico e fragmentado, avançando de uma sequência à outra não por uma lógica narrativa fluída de causa-e-efeito, mas pelo simples fato de que seus roteiristas decidiram apresentar certas informações primeiro e guardar outras para mais tarde. Para piorar, o longa carece de conflitos que lhe garantam um clímax minimamente envolvente, saltando de um “caso” ao outro, e depois ao outro, e depois ao outro e assim por diante, tornando-se repetitivo já em meados do segundo ato.

É justamente por atravessar um arco dramático perceptível em uma narrativa que tanto carece de um, aliás, que o personagem de Joel Edgerton acaba roubando o protagonismo de Depp e se transformando na figura mais interessante da história: patético em sua falta de personalidade (e o trabalho de figurinos de Kasia Walicka-Maimone é simplesmente excepcional ao fazer o sujeito passar a vestir roupas supostamente “estilosas”, mas que ficam ainda mais cafonas pelo fato do sujeito não perceber nem a idade nem a barriga que tem), Connolly se enrosca gradativamente em uma teia de favores, dívidas e trocas de interesses, se envolvendo em crimes cuja gravidade é inversamente proporcional à sua consciência em relação a sua imoralidade.

Não que Depp não esteja bem: auxiliado por uma maquiagem pesada que lhe dá cavidades fundas nas bochechas, nariz pontiagudo, careca lustrosa e olhos tão azuis que não poderiam ser humanos, o ator adota um olhar fixo e congelado que, não piscando nem diante da notícia mais chocante, é capaz de amedrontar mesmo quem não conheça seu extenso portfolio de assassinatos. Do mesmo modo, Depp é inteligente ao usar o humor e a falsa simpatia como armas de disfarce social – e a cena em que Bulger assusta Connolly e a esposa em um jantar em sua casa apenas para revelar que tudo não passava de uma piada funciona, mesmo que não com a mesma intensidade, como a reação de Joe Pesci ao ser chamado de “engraçado” em Os Bons Companheiros: mesmo que o humor do sujeito mude mais de uma vez, é impossível relaxar um segundo sequer sem considerar a possibilidade de uma explosão de violência a qualquer momento.

Prejudicado por jamais mostrar Bulger vulnerável – o que nos impede de nutrir qualquer tipo de simpatia pelo sujeito – Aliança do Crime diverte os fãs do gênero e é extremamente competente em inserir-nos num universo verossímil, obscuro e ameaçador. Se tomasse um pouco mais de cuidado com sua construção dramática, seria um ótimo exemplar do gênero “filmes de gangster”.

O que não chega a ser surpreendente, já que o diretor Scott Cooper já havia demonstrado as mesmas dificuldades de encontrar uma história dentro de seus filmes nos igualmente razoáveis Coração Louco e Tudo por Justiça.

Aliança do Crime (Black Mass, EUA, 2015). Dirigido por Scott Cooper. Escrito por Mark Mallouk e Jez Butterworth, baseado no livro de Dick Lehr e Gerard O’Neill. Com Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, W. Earl Brown, Bill Camp e Juno Temple.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.