Crítica: Perigo na Noite, de Ridley Scott
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Filme: Perigo na Noite

Perigo-na-Noite-838x524 Filme: Perigo na Noite

PERIGO NA NOITE É POSSIVELMENTE UM DOS FILMES MAIS BOBINHOS DA FILMOGRAFIA DE RIDLEY SCOTT. Digo isso pelo roteiro unidimensional e digno daquelas sessões de cinema na madrugada dos canais abertos na televisão. É até difícil reconhecer a assinatura do diretor, de tão simples e sem profundidade. Nem mesmo a fotografia da produção parece querer se destacar.

Até poderíamos acusar Scott de ser preguiçoso em Perigo na Noite. Fora o protagonista vivido por Tom Berenger, nada mais nos faz pensar que estamos diante uma obra de um diretor que anos depois conceberia Gladiador, Cruzada, O Gângster e tantos outros filmes. Berenger interpreta um policial com todas as características do cinema habitual de Scott: machista, viril e com a missão de proteger uma socialite que presencia um crime.

Aliás, vamos lá.

O roteiro de Perigo na Noite é simplório. Chega a doer nossos olhos e cérebro. A socialite presencia um assassinato e vira a única testemunha capaz de identificar o assassino, que ao invés de se mandar, desenvolve uma vontade inexplicável de matar a mulher. Eu engasguei com a sequência bizarra na qual o vilão invade um banheiro feminino durante uma grande festa para ameaçar a ricaça e depois foge correndo até ser preso. Antes do filme começar me surpreendi por ser um longa-metragem do Ridley Scott com menos de duas horas. A verdade é que não tem história nem para uma hora.

O longa-metragem tem uma mensagem claramente pró-infidelidade. E de um jeito bem hipócrita, veja vem. Existe uma insinuação sexual entre marido e mulher bastante sutil (quando ela inicia um charme reclamando que a gravidade derrubou a sua bunda), e no mínimo duas outras sequências que mostram o “garanhão” se pegando com a socialite rica, loira e poderosa. Fica claro o desenvolvimento da confusão mental envolvendo o personagem. Ele se sente responsável pela vida de sua amante depois que o criminoso escapa da prisão e isso o leva a sentir uma atração descontrolada. Ela, por sua vez, está desolada com o risco de ser assassinada e se apoia no único homem capaz de protege-la, mas puta que o pariu, né? Se o roteiro tivesse trabalhado mais com essa ameaça de forma que convence o espectador da sua necessidade, até poderia resultar numa obra mais ou menos, mas ao contrário temos apenas um pouco de relação extra-conjugal, um cara maluco querendo apagar a única pessoa que o viu cometendo um assassinato (não se explora o motivo da morte ou as razões para que ele não pudesse simplesmente dar o fora) e a tradicional reconciliação no final, quando a boa esposa perdoa o seu marido pelo deslize. Não sou santo e tenho as minhas cotas para pagar caso não queira ir direto para a tábua de assar jiló do capiroto, mas coisas mal feitas sobre um tema que me interessa é algo que me irrita.

Quando chamei Perigo na Noite de bobinho era para ser educado e não dizer que é uma porcaria e o pior trabalho do cineasta. O que acontece é que ficamos tão anestesiados com a preguiça do roteiro e aquela sensação de as coisas apenas acontecem para chegar ao mesmo lugar, que a obra se torna uma excelente opção policial para quem quer derreter o cérebro ou acordou de madrugada e precisa de alguma coisa para conseguir dormir novamente.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.