Crítica: Sem Escalas, de Jaume Collet-Serra
Críticas de filmes Suspense Thriller

Sem Escalas

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NO PRIMEIRO PLANO DE SEM ESCALAS, um rack focus no para-brisa de um carro revela o ator Liam Neeson com um semblante fechado e representa nosso primeiro contato com o protagonista. No plano imediatamente seguinte, vemos o personagem, ainda dentro do automóvel, enchendo um copo de bebida. Alguns segundos mais tarde, o homem puxa o quebra-sol do veículo e a foto de uma garotinha fica visível.

Não é preciso ser um espectador particularmente sofisticado para ligar os fatos: com menos de um minuto de projeção, eu já sabia que estava prestes a acompanhar um sujeito alcoólatra e que essa condição possivelmente havia sido estimulada por alguma questão familiar, provavelmente envolvendo sua filha – e como Neeson já é um sexagenário e a garota da foto aparentava pouca idade, passei a acreditar que ela havia morrido jovem (e, no fundo, mantive a hipótese mesmo depois que o personagem insinua que a filha ainda estaria viva).

Eu estava absolutamente correto. E a profetização não parou por aí: ao notar que pistas nada sutis estavam sendo plantadas no início da projeção e considerando que realizadores do gênero têm o costume (quase vício) de se valer da ignorância do espectador em relação àquele universo e depositar ali, bem no comecinho, dicas mascaradas sobre a resolução do grande mistério da trama, redobrei imediatamente minha concentração e, graças a isso, consegui antecipar também a identidade do antagonista muito antes da dúvida sequer ser lançada pelo roteiro. Mas repito e reforço: não é preciso qualquer conhecimento cinematográfico extraordinário para chegar a essas conclusões; basta uma pequena experiência com filmes do gênero e um pouco de atenção em relação ao contingente de convenções que brotam na tela ao longo dos minutos iniciais.

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Estreantes no Cinema, os roteiristas John W. Richardson, Chris Roach e Ryan Engle optam por sediar sua narrativa em um ambiente claustrofóbico por excelência e arquitetam um sequestro engenhoso, que pega até o agente federal aéreo Bill Marks de surpresa. À paisana em uma aeronave comercial que atravessa o Atlântico, o sujeito passa a receber estranhas mensagens de texto de alguém que se anuncia como um dos passageiros do voo e promete matar uma pessoa a cada 20 minutos caso a importância de 150 milhões de dólares não  seja depositada em determinada conta bancária. Para piorar a situação, as autoridades passam a desconfiar que o próprio Marks possa ser o responsável pelo sequestro.

E até certo ponto, Richardson, Roach e Engle conseguem convencer o público da plausibilidade do plano e garantem a eficiência do suspense: a forma como Marks torna-se gradualmente digno de desconfiança por parte da tripulação, dos passageiros e da TSA possui seus pontos positivos, abraçando a paranoia generalizada e aumentada após os atentados de 11 de setembro. Infelizmente, a engenhosidade da armação torna-se cada vez mais absurda e furada à medida que a narrativa avança, uma vez que até os detalhes mais meticulosos parecem dar certo graças a conveniências das mais improváveis (como certo dispositivo foi parar dentro de um saco, escondido dentro de uma maleta ainda é a que mais me intriga) – e quando o(a) vilão(vilã) provoca o herói dizendo “Você não faz ideia de como foi fácil [realizar o plano]!”, só nos resta rir da cara-de-pau dos roteiristas.

Aliás, os escritores, em parceria com o diretor Jaume Collet-Serra (A Órfã), demonstram um senso de humor estranho, que até não chega a prejudicar efetivamente (embora tampouco contribua para) a atmosfera de suspense: além de várias gags pouco oportunas ou até possivelmente acidentais (não sei dizer se a intenção de fazer o público rir com o protagonista quebrando o nariz de um personagem apenas com o polegar foi ou não premeditada), os realizadores exibem um humor negro distinto ao abrir um rombo na fuselagem da aeronave justamente ao lado da poltrona de uma personagem com condição cardíaca que, embora já houvesse verbalizado incisivamente sua preferência pelos assentos da janela, acabara de ceder o lugar à única (e amedrontada) criança do avião. Por outro lado, Collet-Serra merece reconhecimento pelo esforço de criar um plano-sequência em um momento particularmente apreensivo da narrativa, embora a execução não chame muita atenção do ponto de vista técnico (não há o menor esforço para esconder os vários cortes, como comprovado pelo momento em que a câmera sai do avião por uma janela da classe executiva e retorna por uma da econômica).

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No que diz respeito à distribuição das cópias do filme pelo mundo, vale destacar a decisão de traduzir visualmente as mensagens de texto trocadas pelos personagens – algo que, embora incômodo em um primeiro momento (especialmente quando algum plano-detalhe mostra o personagem digitando algo em inglês e um texto equivalente em português surge na tela do celular), acaba se revelando uma medida fundamental para que o público brasileiro consiga acompanhar a interação dos personagens sem perdas, especialmente quando legendas e as tais caixas de texto ampliadas dividem a tela. E o trabalho, possivelmente realizado na fonte, pela mesma Prologue Films que cuidou da tarefa na versão original, é muitíssimo bem executado: todos os efeitos sofridos pelo celular (como as rachaduras eventuais do visor ou a instabilidade durante certa turbulência) e as operações executadas pela câmera (como travellings circulares ou mudanças de foco) são respeitados e refletidos nas janelas de texto que surgem na tela, sem denotar qualquer amadorismo na adaptação.

Quanto ao elenco, Liam Neeson dá sequência à fase badass tardia de sua carreira (A Perseguição, Busca Implacável) e segue no piloto automático, sendo eventualmente obrigado a se embaraçar graças às posturas absurdas que o personagem acaba por assumir: além de ser demasiadamente categórico (para um cara tão perspicaz) ao acusar cada um de seus suspeitos, Marks perde a chance de capturar mais rapidamente o(a) verdadeiro(a) criminoso(a) por agir como um personagem cinematográfico – isto é, lançando um olhar revelador ao(à) antagonista imediatamente após descobrir sua identidade – em vez de se portar como uma pessoa real – que, no caso, disfarçaria a descoberta para não conferir qualquer vantagem ao(à) vilão(vilã), pegando-a(o) desprevenido posteriormente. Completando o elenco, a coadjuvante de luxo Julianne Moore e todos os demais atores surgem como meros peões ali colocados para assumirem o papel de suspeito em momentos diferentes, embora alguns recebam uma inconveniente atenção especial (o personagem de Corey Stoll foi o primeiro que descartei como suspeito, tamanha a insistência do filme em nos convencer de que devemos desconfiar dele).

Amarrando pontas soltas com uma frouxidão estrategicamente encoberta por uma sequência final tensa e barulhenta, Sem Escalas ainda peca ao tocar em uma questão delicada como segurança nacional com levianidade, imaturidade e de forma excessivamente superficial. Antes tivesse se assumido como um mero entretenimento descerebrado.

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Título original: Non-stop
Direção: Jaume Collet-Serra
Gênero: Thriller
Roteiro: John W. Richardson & Chris Roach e Ryan Engle
Elenco: Liam Neeson, Julianne Moore, Michelle Dockery, Corey Stoll, Scoot McNairy, Nate Parker, Jason Butler Harner, Linus Roache, Anson Mount, Omar Metwally, Lupita Nyong’o, Quinn McColgan e Shea Whigham
Lançamento: 28 de fevereiro de 2014
Nota:[duasemeia]

Eduardo Monteiro

Eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas estou aqui tentando convencê-los que Encantada é um estudo de personagens subestimado, que Ela Dança, Eu Danço 4 não é um desperdício total de tempo ou que o documentário da Katy Perry tem mais camadas que muitas bacias de sedimentação por aí. E plantando outras sementes de discórdia em terrenos férteis nas horas vagas.