Crítica: Uma Longa Queda, de Pascal Chaumeil
Comédia Críticas de filmes Drama

Uma Longa Queda

O Cinema de Buteco adverte: a crítica a seguir possui doses moderadas de spoilers. Cuidado!


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NICK HORNBY ESCREVEU ALTA FIDELIDADE, que virou filme estrelado por John Cusack, e é considerado como uma bíblia do homem moderno (ou assim deveria). Dentre seus romances, sempre recheados com um alto nível de humor e ironia, se destacam Como Ser Legal e Juliet, Nua e Crua. Em 2005, ele escreveu Uma Longa Queda, uma obra que tenta tratar com leveza um tema tão delicado, e doloroso, como o suicídio.

O desconhecido Pascal Chaumeil ficou com a responsabilidade de dirigir Pierce Brosnan, Imogen Poots, Aaron Paul e Toni Collette na adaptação da obra de Hornby. A impressão inicial até poderia ser das mais negativas, mas felizmente somos presenteados com uma obra que apesar de fazer mudanças “necessárias”, possui mais acertos que erros, e consegue transportar para o cinema a sensibilidade do texto original.

Dispensarei aqui o tal parágrafo sinopse (para a alegria do amigo Hélio Flores, que há muito tempo reclamava dessa “regra” nas críticas) para iniciar direto com as tais modificações do roteiro em relação ao livro. O roteiro planta a ideia de um romance entre a maluquinha Jess (Poots) com JJ (Paul) de uma maneira sutil e natural. Começa com os olhares de um para o outro, fica explícito depois dela ficar enciumada com o bonitinho flertando com a jornalista, e tem uma conclusão bonita com a cena final. No livro, isso simplesmente não acontece. Jess se pega com outro personagem (não presente no filme), e os conflitos que levam JJ à tentativa de suicídio são outros. As modificações dão um peso maior para o longa-metragem, que culmina com uma cena dramática muito bem realizada durante o seu terceiro ato. O discurso de Paul é emocionante, daqueles que tocam na alma, e nos fazem ter a certeza de que o ator saiu da série Breaking Bad para ganhar as telas de cinema e se tornar um dos grandes nomes de sua geração.

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O restante do elenco não faz feio. Imogen Poots não é apenas um rostinho bonito e mostra isso com a profundidade de sua personagem, que tenta esconder suas frustrações com a vida através de um comportamento meio irresponsável, quase como se tivesse síndrome de Tourette. As melhores piadas da produção surgem de cenas com a participação de sua personagem. Toni Collette é sempre eficiente em seus trabalhos. Não teve qualquer dificuldade em entregar uma senhora solitária, e infeliz com os rumos de sua vida. E o mais surpreendente é constatar que mesmo um canastrão como Pierce Brosnan costuma ter seus bons momentos ao interpretar um personagem mais canastrão ainda. Pode não ser genial, mas certamente não compromete o resultado.

A narrativa até tenta fazer uma referência direta ao livro ao se dividir em “quatro partes”, cada uma delas começando com a narração em off de um dos protagonistas. No original, cada capítulo é apresentado sob a perspectiva de um personagem diferente. Poderia ser um recurso arriscado, mas que acaba funcionando por causa da química entre o elenco, e a direção competente de Chaumeil, que acerta ao dosar bem o humor com momentos mais tristes, até chegar ao climax da cena em que JJ faz o seu discurso.

Cenas musicais merecem uma atenção especial sempre. Na verdade, eu costumo dizer que uma boa sequência musical costuma ser um dos critérios mais importantes para a nota final de uma obra – ou em casos mais radicais, posso até dizer que gostei do filme especificamente por tal cena. Logo após uma sequência festiva em que os quatro aspirantes a suicidas dançam ao som de “I Will Survive” (uma ironia tremenda do roteiro, diga-se de passagem), acompanhamos o personagem de Aaron Paul mergulhando no mar e nadando sem parar. Embora tenha apreciado a escolha de “Youth” para embalar o momento, o que torna essa parte especial é a quantidade de significados implícitos presentes. Primeiro, é que o personagem havia acabado de sofrer uma grande desilusão e praticamente ignorou o pacto com seus amigos e investiu numa possível tentativa de suicídio ao testar os limites do seu próprio corpo. Segundo, porque na imensidão do mar, JJ percebe que o mundo é um lugar grande demais, ao passo que o espectador pode refletir sobre o quanto somos impotentes diante essa imensidão. Para piorar a sensação, a sequência inteira é bem escura, para aumentar essa vibe ruim. E terceiro pelo fato da cena se passar no mar, que geralmente representa a limpeza da alma do personagem. JJ toma a decisão de contar a verdade para seus amigos e tentar se revelar de verdade.

Uma Longa Queda é ousado por se arriscar a fazer piada com um tema considerado proibido. Sem ridicularizar a condição do suicida em momento algum, o sucesso do filme está em tentar mostrar que sempre existirá esperança, por pior que seja o momento, maior que seja a dor, encerrar a vida bruscamente não é uma resposta. Citei a cena do discurso de JJ diversas vezes ao longo do texto, e se faço aqui novamente é por saber que ela resume a dor de quem se foi, ou ao menos pensou em ir. Não deixa de ser uma lição de otimismo ver aquilo sendo retratado com tanta beleza e intensidade. E a certeza de que Aaron Paul fez valer o seu ingresso.

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.