10 filmes que completam 120 anos (!) em 2016 | Cinema de Buteco
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10 filmes que completam 120 anos (!) em 2016

O CINEMA DE BUTECO JÁ PREPAROU UMA PÁ DE LISTAS EM HOMENAGEM aos filmes que fazem aniversário em 2016, incluindo os pirralhos que completam uma década, como Pequena Miss Sunshine; os maiores de idade que chegaram aos 20, como Trainspotting; e os que agora são balzaquianos, como Highlander. Mas nostalgia de verdade é celebrar não 10 ou 20, mas os filmes que já têm 120 anos nas costas.

Grande 1896. Enquanto o Brasil era uma república recém-saída do berço e Prudente de Morais era apenas o nosso terceiro presidente, Atenas organizava os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna. Faltavam 18 anos para a Primeira Guerra Mundial, 43 para a Segunda e 73 para o homem chegar à Lua. Albert Einstein ainda estava na escola, Charlie Chaplin era um moleque de 7 anos e o Cinema só tinha 1 ano de vida, considerando a primeira exibição dos irmãos Lumière como o marco inicial da sétima arte. Só pra colocar em perspectiva, nenhum dos 7 bilhões de seres humanos que hoje habitam a Terra estava vivo em 1896: a vovó com mais vivência tem “apenas” 116 anos.

De todos os filmes produzidos nos primórdios do Cinema, muitos — mas muitos mesmo! — se perderam e provavelmente permanecerão sumidos para sempre. Para este artigo especial, consideramos apenas os que de fato sobreviveram e podem soprar 120 velinhas com louvor. Todos estão disponíveis para você ver aqui, e nenhum dura mais de 3 minutos.

Com vocês, os filmes mais antigos que você já viu no Cinema de Buteco:

A Chegada de um Trem à Estação

(L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat, dir. Auguste & Louis Lumière)

A primeira sessão de cinema do mundo foi apresentada pelos irmãos franceses Auguste e Louis Lumière no histórico dia 28 de dezembro de 1895, quando A Saída dos Operários da Fábrica Lumière e outros documentários vapt-vupt maravilharam os parisienses e deram origem à sétima arte.

Um mês depois, os Lumière voltaram a assombrar as plateias com A Chegada de Um Trem à Estação. Embora os famosos relatos de que os espectadores realmente acharam que um comboio do medo vinha atropelá-los em plena sala de cinema pareçam ser mais lenda urbana do que realidade, este registro de apenas 50 segundos entrou para a História e continua sendo revisto e discutido nas escolas de Cinema pelo mundo afora.

Além de ser homenageado por Martin Scorsese no seu A Invenção de Hugo Cabret, A Chegada de Um Trem à Estação ganhou um remake 100 anos depois (!), no documentário Lumière & Companhia (1996), quando o francês Patrice Leconte filmou um trem chegando na mesmíssima estação de La Ciotat.

O Beijo

(The Kiss, dir. William Heise)

Em O Beijo, reencenação de uma cena do musical The Widow Jones para os estúdios de Thomas Edison, um casal troca olhares, afagos e bitocas que estariam longe de merecer uma indicação a Melhor Beijo nos MTV Movie Awards da vida. Acontece que esta breve troca de saliva entre May Irwin e John Rice é nada menos do que o primeiro beijo da história do Cinema. Os espectadores da época, aliás, consideraram o filme obceno e chocante, e levaram a Igreja Católica a clamar pela censura da obra. Ah, se soubessem o que viria pela frente…

Uma Partida de Cartas

(Une partie de cartes, dir. Georges Méliès)

Três caras jogando baralho, bebendo e fumando num jardim. Essa cena aparentemente besta é na verdade tão curiosa quanto significativa. Curiosa porque este é um remake de um filme dos irmãos Lumière lançado alguns meses antes, também em 1896 — e você achando que a onda das refilmagens era modinha recente.

Mas muito mais importante: este foi o primeiro filme de Georges Méliès, o mágico que virou cineasta e foi responsável por alguns dos primeiros clássicos do Cinema, incluindo o famoso Viagem à Lua, de 1902.

O Castelo Assombrado

(La Manoir du Diable, dir. Georges Méliès)

Após esse seu primeiro experimento audiovisual, Méliès produziu um filme atrás do outro: só em 1896, foram quase 80 curtas-metragens onde ele foi muito além dos meros registros documentais que os Lumière realizavam, inovando e revolucionando essa arte ainda recém-nascida.

A má notícia? Apenas uma meia dúzia desses filmes feitos em 1896 (e 1897, e 1898…) sobreviveram ao tempo. Um desses poucos vigecentenários é O Castelo Assombrado, que, por conter feitiçaria, assombração, morcego virando gente e criaturinhas medonhas (em ótimos efeitos especiais, vale apontar), é considerado o primeiro filme de terror da História. Embora eu suspeite que A Chegada do Trem à Estação tenha causado muito mais arrepios nas plateias…

A Fada do Repolho

(La Fée aux Choux, dir. Alice Guy-Blaché)

Este é outro que coleciona importância histórica: é possivelmente o primeiro filme de ficção, precedendo Méliès em algumas semanas; é provavelmente o primeiro a ultrapassar a barreira de 1 minuto; e, como se não bastasse, é a estreia da cineasta francesa Alice Guy-Blaché, considerada a primeira mulher a dirigir um filme na história do Cinema.

A trama é baseada num conto de fadas europeu em que as meninas nascem em roseiras e os meninos em… pés de repolho. Fica a dica para a Disney na hora de escolher a próxima refilmagem.

Coroação do Imperador Nicolau II

(Scene from the Coronation of the Czar of Russia, dir. Camille Cerf)

O registro visual da coroação daquele que acabaria sendo o último czar russo é também o primeiro filme feito na Rússia. O diretor, entretanto, era belga: Camille Cerf, também operador de câmera dos irmãos Lumière.

O que as cenas históricas não mostram é a tragédia que marcou a cerimônia: mais de 1.300 pessoas morreram pisoteadas e sufocadas depois de rumores de que não haveria comida e bebida para os mais de 100 mil presentes.

Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança

(dir. Aurélio Paz dos Reis)

Parece que a onda era fazer remake dos Lumière, porque o primeiro filme português é uma refilmagem assumida de A Saída dos Operários da Fábrica Lumière, lançado no final de 1895. Aurélio Paz dos Reis, o pioneiro cineasta lusitano que filmou a obra no Porto, desembarcou no Rio de Janeiro no ano seguinte e foi um dos primeiros cineastas a registrar imagens desse nosso Brasil.

Demolição de um Muro

(Démolition d’un mur, dir. Auguste & Louis Lumière)

Nos primeiros 45 segundos, um grupo de operários derruba um muro a golpes de picaretas. E aí, de repente… um plot twist! A ação se reverte, a poeira sobe novamente e o muro destruído se reconstrói, terminando o filme intacto como o começou.

O efeito, que dizem ter sido descoberto por engano durante uma projeção, é o que torna A Demolição de Um Muro tão fascinante e mesmo simbólico: é só pensar em quantos muros – físicos ou não – continuam a ser construídos, derrubados e reconstruídos mais de um século depois.

Um Pesadelo

(Le Cauchemar, dir. Georges Méliès)

Outro bom exemplo do talento de Georges Méliès – e do quão rapidamente seus efeitos visuais, cenários e figurinos foram ficando elaborados – é Um Pesadelo, que conta com um homem tentando dormir (o próprio Méliès) que é atormentado por diversas figuras inusitadas, incluindo uma bocarra que lembra bastante o homem-lua do clássico Viagem à Lua, produzido seis anos depois.

O Canguru Boxeador

(The Boxing Kangaroo, dir. Birt Acres)

80 anos antes de Rocky Balboa esmurrar pedaços de carne e pular corda ao som de “Gonna Fly Now”, um dos primeiros filmes britânicos (e um dos primeiros filmes de esporte, por que não?) mostrava um canguru e uma criança lutando boxe. As imagens duram pouco e terminam depois de meio minuto, antes de soar o gongo final e deixando no ar uma dúvida que ficará no ar para todo o sempre: quem venceu?

Lucas Paio

Lucas Paio é mineiro de Belo Horizonte, passou quatro anos na China e desde 2013 vive em Berlim, onde passa o tempo livre no cinema (os poucos que exibem filmes sem dublagem em alemão) e conhecendo a cerveja, digo, a cultura local.