A partir do momento que passamos a questionar o modelo de ética de Immanuel Kant, tudo é possível

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Homem Irracional é o lançamento nos cinemas que Woody Allen preparou para 2015. O diretor e roteirista octogenário mantém a regularidade de um longa-metragem por ano, alternando entre filmes bons e ruins, mas todos acima da média. De cara já é possível afirmar que Homem Irracional supera o sem graça Magiar ao Luar, de 2014.

Com uma pegada de mistério e crime, o filme resgata um pouco o ar hitchcockiano de Match Point, inclusive pela referência a Crime e Castigo, de Dostoiévsky, mas diferente do filme estrelado por Scarlett Johansson, aqui outros elementos filosóficos são introduzidos para rechear de conteúdo da trama com o posicionamento dos personagens em relação ao modelo de ética de moral e ética de Kant para antecipar seus atos futuros.

Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um professor de filosofia atormentado em seus próprios pensamentos e desiludido da vida. E sua vida volta a fazer sentido após ele aceitar lecionar numa universidade de uma pequena cidade do interior onde ele passa a relacionar-se com uma de suas estudantes Jill (Ema Stone) e Rita (Parker Posey), uma colega de trabalho. No entanto, a retomada das rédeas de sua vida não se dá ao fato simplesmente de seus relacionamentos amorosos, mas sim através de um, por assim dizer, ato de justiça.

O filme se baliza em três ótimas atuações: Parker Posey surpreende como uma professora entediada no casamento e disposta a correr riscos e partir para uma nova aventura; Emma Stone se confirma como uma atriz de grande potencial, vivendo uma jovem estudante que se deslumbra com os encantos intelectuais e altruístas de seu professor de filosofia, e parece ter caído nas graças de Woody Allen tornando-se mais uma de suas atrizes recorrentes; e Joaquin Phoenix já com uma carreira mais consolidada repete sua atuação convincente e fidedigna de uma cara neurótico (lembrem-se que seu personagem é um protagonista de um filme de Woody Allen), depressivo e desiludido com a vida.

O destaque fica para a trilha sonora, com a música “The “In” Crowd”, de The Ramsey Lewis trio, um jazz leve daqueles que dá vontade de estalar os dedos enquanto escuta. A música é introduzida em diversas cenas e reforça a narrativa de como estamos a mercê da aleatoriedade dos acontecimentos a nossa volta. O ponto fraco mais uma vez é o abuso da utilização da narração em off para descrever o que os personagens estão pensando e sentindo.

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Zona de Spoilers

Apesar do roteiro parecer simples e repetitivo, Woody Allen sabe muito bem como inserir elementos durante a trama para que sejam usados no seu desfecho. É fica claro concluir que a cena em que Abe elogia o trabalho de Emma Stone sobre Kant praticamente resume o argumento do filme de forma extremamente assertiva, pois descobrimos que Abe seria capaz de matar se achasse que aquilo tornaria o mundo um lugar melhor, rompendo com os conceitos de ética de Kant. Na seqüência, ele mesmo afirma que Jill estava contrapondo seus pontos de vista com argumentos novos, dando a entender que ela estava numa escala maior de ética e moral que ele.

E se Abe não se mata durante a roleta russa feita durante festa, ele o faz ao ganhar um prêmio numa espécie de roleta no parque de diversões. A lanterna escolhida por Jill é o elemento de mise-en-scène que volta a ser mostrado no desfecho do filme salvando sua vida. A lanterna em Homem Irracional cumpre o mesmo papel do anel em Match Point, decidindo o desfecho do filme reforçando a idéia principal de teoria do caos do filme em que nossas vidas são regidas por pequenos detalhes.

Trailer

Texto inicialmente publicado no Art Perceptions.

Tag: Woody Allen

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