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Perdas e Danos

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A PREMISSA É PROVOCANTE E INTERESSANTE, mas o que conferimos em Perdas e Danos é um retrato tímido e conservador da relação proibida entre um homem e uma mulher. Ele, interpretado por Jeremy Irons, é um ministro inglês, com uma bela esposa, uma filha adolescente e um filho adulto. Ela, interpretada por Juliette Binoche, é intrigante, misteriosa, possui um olhar distante e sedutor.
 
Stephen Fleming (Irons) poderia ter ignorado a presença de Anna Barton (Binoche) durante um coquetel, mas desde o primeiro momento em que os personagens cruzaram seus olhares, ficou claro o desejo e a cobiça de ambos. A atração entre os dois é, desde o princípio, tensa, selvagem, irracional e acima de tudo, extremamente proibida. Ela é noiva de Martyn Fleming, o filho de Stephen.
 
Mas independente das consequências da relação, Stephen leva adiante a sua vontade de ter o desejo saciado e mergulha em uma relação possessiva e irresponsável com uma mulher cheia de segredos e máscaras. O olhar distante e frieza de Anna são explicados quando ela conta sobre a relação quase incestuosa que mantinha com o irmão na adolescência. Quando ela preferiu se envolver com um namorado (Peter Stormare), o seu irmão ficou consumido de dor e tristeza e acabou cometendo suicídio. Anna ficaria marcada para sempre, se culpando pela morte do irmão e fugindo de qualquer relação de posse. Ela apenas viveria para saciar suas vontades e buscar sua própria liberdade, mesmo que isso envolvesse manter uma relação com o pai do marido.
 
A necessidade de afirmação e posse de Stephen, nos coloca diante um interessante conflito ético: o que cada um de nós faria se estivesse no lugar do personagem? Stephen é completamente arrebatado por Anna. Ele perde a noção do certo e errado, passa a ultrapassar limites e até mesmo transa em público. Ele vive uma verdadeira relação de amor obsessivo com uma mulher que mal conhece e que ainda por cima, será a futura esposa de seu filho. Deixando de lado toda a vida hipócrita que vivia com a esposa, ele enxerga em Anna,  uma oportunidade de se unir a alguém que o faz ser uma pessoa livre dos julgamentos morais. Ele é o provedor independente e autosuficiente, que não hesita em roubar a alegria/esposa do filho e abandonar sua família. 
 
O filme é recheado de referências mitológicas, especialmente ao mito de Perséfone, que é nada mais que a dualidade existente numa mulher que vive passivamente e indiferente às coisas que acontecem ao seu redor. No mito, Perséfone é entregue para ser a esposa de Hades, enquanto sua mãe Deméter sofre por sua ausência até conseguir convencer Zeus de trazê-la de volta das profundezas do reino de Hades. 
 
Hades permite que a esposa retorne, desde que ela passe um terço do ano em sua companhia. Então nessa época, tudo seca e as árvores e flores ficam sem vida, até que Perséfone retorna (sua volta seria a primavera) e tudo começa a brotar. 
 
Anna é a personificação de Perséfone, pois vive com a constante impressão de que cedo ou tarde as pessoas irão tentar lhe machucar e “fugir”, da mesma forma que aconteceu com seu irmão. Essa atitude e o vínculo de dependência que mantém com a mãe, a aprisionam e criam todo um distanciamento do mundo real, o que a faz não esboçar nenhuma reação quanto a morte do futuro marido e filho de seu amante. Anna representa a dualidade da esposa de Hades e da filha inocente de Deméter. 
 
Perdas e Danos mergulha fundo no tema da infidelidade e da hipocrisia da insistência em se manter relações familiares que só existem para manter as aparências. Baseado em um livro de Josephine Hart, este foi o penúltimo filme dirigido por Louis Malle, que viria a falecer três anos depois do lançamento. A produção soa arrastada em alguns momentos, onde parece que tudo depende exclusivamente do rendimento da dupla de atores principais. Infelizmente, por melhores que sejam as atuações e a frieza de Binoche, o roteiro não consegue acompanhar a narrativa e a opção de ignorar o potencial erótico acabam atrapalhando o desenvolvimento do filme, que fica muito aquém do esperado. (A nudez fica implícita, bem como a completa ausência das cenas das transas selvagens dos personagens. Como forma de não tornar o nu em algo gratuito e que tivesse um significado forte quando surgisse, a única sequência em que se pode ver o corpo dos personagens é no climax da trama, onde Stephen corre sem roupa atrás do corpo do filho.)
 
O que poderia gerar uma produção altamente excitante em todo seu aspecto proibido e impróprio, resulta apenas em uma obra que cria várias discussões sobre até onde se deve ir para realizar seus próprios desejos sexuais e se vale a pena abrir mão de sua felicidade em troca da alegria dos seus familiares. É um dilema interessante, difícil e que esbarra no lado emocional e psicológico, coisa que poucos conseguem explicar. Existe mesmo certo e errado? Ou limites? O filme de Malle prova que existe uma lei karmica que irá buscar justiça cedo ou tarde para todos os erros cometidos, mas realmente me pergunto o que eu faria numa situação parecida… Viver e apodrecer no inferno do exílio ou não viver e apodrecer no arrependimento?
 
3 caipirinhas
 
 
Damage, 1992
Direção: Louis Malle
Roteiro: David Hare
Elenco: Juliette Binoche, Jeremy Irons