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Lincoln

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O QUE HÁ DE MAIS PECULIAR NA HISTÓRIA DE UM PAÍS, é que é realmente impossível agradar a todos, e se tratando dos Estados Unidos ainda mais, já que eles possuem um sistema de Federação e não de República e também um sistema de bipartidarismo. Mas começo aqui já louvando a ideia de Steven Spielberg de pegar a obra de Doris Kearns Goodwin, e usar um nome de grande projeção, como o seu, para levar isso até as telonas, dar para a história uma projeção hollywoodiana, consequentemente mundial. O que em hipótese alguma está errado, afinal, ele deve mesmo ter orgulho da historia de seu país. Só não acho que causará a mesma comoção mundial (e nem entre os americanos, já que o filme não ficou nenhuma semana no topo das bilheterias, e os mesmos são muito preguiçosos com a história do próprio país).

Dito isto, dada a minha total falta de interesse na história do filme, tentei me prender à narrativa de Tony Kushner, que já haviamos acompanhado em Munique, e que aqui de alguma forma para mim não funcionou como em seu antecessor. Não sei se pela ausência do apelo emocional de Eric Roth, ou se pela falta de agilidade do filme, pelo excesso de datas e lugares… Porém, às vezes o que para mim é lento, para outro pode ser rico em detalhes, vai de uma questão de ponto de vista. O que dá pra perceber, e é de se tirar o chapéu, é que Spielberg realmente tem tentado recuperar sua boa forma ao lado de Kushner e que uma fórmula muito boa usada no outro filme, foi aplicada aqui também: o cumprimento de uma série de tarefas que devem ser executadas para conquistar-se tal feito, no caso de Lincon é “convencer” o maior número de congressistas para votarem à favor da 13ª emenda.

Já que a narrativa não conseguiu prender muito a minha atenção, passemos às atuações, aonde o destaque é todo e incondicional de Daniel Day-Lewis. Sinceramente, se você acompanha a carreira do ator e os personagens imponentes que ele vem fazendo no decorrer dos últimos anos como O Açougueiro, o memorável Daniel Plainview e até mesmo Guido Contini, jamais esperaria do ator uma performance tão delicada e tão terna na pele do presidente americano que conduziu a guerra civil no país. Alguns podem dizer que remente à fase jovem de sua carreira… Para mim não remete à nada, e é Day-Lewis mais uma vez se reinventando e provando novamente porque é um dos maiores atores de Hollywood.

Outra atuação de destaque foi a de Tommy Lee Jones, que é sempre um presente ver na telona. Acho que era o personagem que mais tinha interesse na aprovação da ementa, e o ator conseguiu refletir exatamente essa corda bamba em que Thaddeus Stevens vivia, ao mesmo tempo em que queria defender com unhas e dentes a igualdade racial, deveria medir suas atitudes para a emenda passar. Jones nos entregou uma atuação comedida e honesta passando muito longe do tipo ranzinza que está acostumado a fazer nos cinemas.

Em contrapartida tivemos Sally Field fazendo… Sally Field. Gente, coitada, tem quase a mesma quantidade de tiques na atuação que Regina Duarte. Não sei se é porque assisti a uma série com ela por cinco anos, só sei que cada movimento dela é previsível e cada cena em que ela protagonizava no filme, como o longo discurso que faz para Mr. Stevens ou a “big fight” que tem com Lincon por causa do filho, tudo! Lembra um dramalhão mexicano.

A direção tem muitos pontos positivos, como as cenas catárticas ao final da aprovação da ementa, Mr. Stevens chegando em casa e compartilhando o momento com sua esposa, a do empregado de Lincoln olhando sua saída através da porta, a própria cena do discurso, são todas grandes ouros… Porém, também tivemos alguns erros cruciais, como as cenas de Sally Field completamente inúteis e avulsas (a personagem até tenta justificar sua aparição no final mas não convence), a enxurrada de lugares e datas diferentes sem um mínimo de diferenciamento, o que além de confundir, prova um certo relaxamento com a edição do filme.

No mais é isso Lincoln não é de todo mal, sem dúvidas é um filme grande, mas particularmente me incomodou profundamente e me deu muito sono. Apesar do longa-metragem ir muito além do comprometimento com o entretenimento e ser informativo, não me senti em nada acrescentado, já que não pretendo usar história americana para nada na minha vida (sei que eles influenciaram o processo de comercialização des escravos no mundo, que sou preto, e tudo mais, só que “zzzzzz, boring!”). Contudo fomos presenteados com mais uma brilhante atuação de Daniel Day-Lewis e uma daquelas obras de Spielberg que claramente saem de sua zona de conforto, então já me dou muito satisfeito por isso.

Nota:[tres ]