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Entrevista: Paulo Henrique Fontenelle – Mostra de SP

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Paulo Henrique Fontenelle

Em meio à excelente safra do Cinema brasileiro exibida na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, houve pelo menos uma unanimidade: capaz de levar o espectador ao riso e às lágrimas com a mesma facilidade (e às vezes simultaneamente) e de despir sua protagonista de sua persona rebelde e subversiva para apresentar seu lado doce, generoso e extremamente humano, o documentário Cássia não apenas conquistou o prêmio de Melhor Filme pelo público, conquistando também críticas positivas de praticamente todos os veículos que cobriam o evento.

Em entrevista comigo (que você acompanha abaixo), o diretor Paulo Henrique Fontenelle (que também dirigiu os igualmente fantásticos Loki: Arnaldo Baptista e Dossiê Jango) falou sobre sua relação com Cássia Eller e sobre seu processo criativo como documentarista.

O que te levou à história da Cássia? Você já era fã da cantora quando ela ainda estava viva ou foi atraído por ela depois?

Como muitos da minha geração, vivi os anos 90 tendo a Cássia Eller como parte da trilha sonora da minha vida. Fui a alguns shows no circo voador, no Rock in Rio e sempre me surpreendia com as atitudes espontâneas que vinham dela. Quando ela morreu o vazio que ficou foi enorme. Um dia, ouvindo a musica “Relicário” do CD Acústico, me veio uma tristeza por não ter tido a oportunidade de conhecer a Cássia pessoalmente e quis saber um pouco mais sobre aquela cantora que tanto emocionou as pessoas, mas de cuja vida pessoal quase não se tinha noticia. Fui pesquisar e me espantei em ver que não havia quase nada sobre ela. Nenhum documentário, nenhum filme, nenhum especial de TV mais aprofundado – e a única biografia que existia já estava fora de catálogo. Querendo conhecer mais sobre essa artista, tive a ideia de fazer o filme e nesse processo conheci a mulher Cássia Eller, que é tão ou mais fantástica que a artista.

Apesar de ser estruturado linearmente pela trajetória cronológica da carreira da Cássia Eller, o filme acaba adotando um outro arco, o de partir da “persona” da cantora nos palcos e passar a revelar a mulher, a amiga, a mãe que sempre esteve ali por trás. Até que ponto esse processo foi consciente?

Desde o inicio minha intenção era mostrar essa dualidade da Cássia, privilegiando esse lado pouco conhecido do grande publico que para mim a tornava ainda mais admirável. No final de 2011, eu viajei com Chicão e a antiga banda da Cassia para um show em homenagem a ela em Maceió, onde mora a Rubia Eller, irma da Cássia. Fiquei três dias convivendo com todos eles, ouvindo as histórias e compreendendo o mundo dela. Através dos relatos, vi o quanto ela era uma pessoa simples, ligada à família e aos amigos e desapegada de qualquer tipo de estrelismo. A historia que mais me fascinou foi de quando ela, no auge da fama, fugia do empresário e armava uns shows clandestinos quase que de graça, pois o prazer dela era simplesmente cantar. Ali compreendi a alma dela e a beleza contida naquela mulher e percebi que era isso que precisava ser mostrado no filme.

Do ponto de vista meramente musical, “Cássia” é capaz de convencer mesmo alguém que jamais a tenha visto nos palcos ou a ouvido cantar acerca de sua genialidade artística. Como foi o processo de lapidar canções e trechos de shows que casassem com os depoimentos dos entrevistados para justificar sua profunda admiração pela documentada?

Talvez esse tenha sido o trabalho mais difícil. A Cássia tem tantas músicas emblemáticas que fica dolorido decidir o que cortar. Busquei fazer um resumo das músicas que mais falavam sobre ela  e sobre determinados períodos da vida dela e, para isso,  selecionei desde gravações obscuras dos primeiros anos de Brasília até os grande sucessos, passando por algumas gravações inéditas. O mesmo aconteceu com os shows, que vão desde as primeiras apresentações no teatro até o apoteótico show do Rock in Rio e o Acústico. É bacana ver essa evolução acontecendo na tela. Mas, mais do que tudo, me preocupei em mostrar como essas músicas e esses shows se inseriam no momento pessoal que a Cássia vivia em cada época.

Você já trabalhou tanto com documentário musical quanto com documentário político/investigativo. Quais são as diferenças na produção de um e de outro? Pode-se dizer que o trabalho de investigação do ser humano por trás do ídolo que você faz em “Cássia” se assemelha de alguma forma à investigação da verdade por trás da história que costumamos ouvir e ler nos livros que você fez em “Dossiê Jango”?

Perfeitamente. Nesses dois filmes que você citou como exemplos, o processo foi muito parecido. A teoria do assassinato de João Goulart era algo que sempre foi tratado como lenda urbana e não havia muitas biografias para onde recorrer. O processo do filme foi uma verdadeira investigação policial onde cada entrevista levava a outra e cada documento encontrado era uma grande revelação e uma nova pista que se abria. Fomos formando a historia a partir do que íamos colhendo no caminho. No filme da Cássia Eller foi a mesma coisa. Diante da escassez de material de pesquisa, cada entrevista era uma lado da Cássia que era revelado. Fizemos mais de 40 entrevistas, todas repletas de muita emoção e saudades. Pessoas iam surgindo no caminho com novas historias, com materiais em vídeo, gravações de musicas inéditas iam surgindo… Tudo isso foi ajudando a compreender quem foi a Cássia. Hoje, passados quatro anos desde o início da produção, fico feliz que as pessoas estejam se emocionando com o filme e principalmente descobrindo esse ser humano incrível que foi a Cássia Eller.

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Cássia tem estreia prevista para 15 de Janeiro de 2015.

 Confira a crítica do filme