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Filme: O Quarto Proibido (Mostra de São Paulo 2015)

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forbidden room

Quem conhece o estilo frenético e, digamos, característico do diretor canadense Guy Maddin (The Saddest Music in the World, Keyhole) já sabe o que esperar deste O Quarto Proibido, que talvez seja seu primeiro filme de terror (desculpem-me pela imprecisão, mas o sujeito tem nada menos que 53 créditos listados no IMDb, entre longas, curtas, documentários e ficções), e também já tem uma boa ideia se irá apreciar sua abordagem narrativa ou não – e aqui, peço permissão para iniciar este texto com uma posição meramente pessoal e subjetiva: particularmente, considero a estética de seus filmes de extremo mau-gosto, apesar de jamais poder dizer que eles não aparentam exatamente do jeito que seu realizador quer que eles aparentem.

Rodado em câmeras digitais, mas simulando o aspecto “sujo” de películas desgastadas em 8 e 16mm, o longa apresenta praticamente cada cena com um visual completamente diferente, compartilhando apenas a superexposição da fotografia (ou seria ultra-exposição?), as cores artificialmente fortes (como se a “película” houvesse sido colorizada a mão na pós-produção), as cartelas que trazem legendas para as cenas, subdividem o filme em capítulos e até mostram diálogos de cenas quase mudas (em uma tentativa óbvia de metalinguagem) e a sobreposição insaciável de imagens – e a sensação ao final da sessão é a de ter acabado de ser exposto a um interminável teste de visão envolvendo aquelas luzes desconfortáveis do consultório do oftalmologista.

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Mas… e a história? Bem, mais uma vez, há de se reconhecer que Maddin sabia muito bem a premissa que queria desenvolver e até mesmo o tom que sua narrativa deveria assumir, mas ao trabalhar com quatro co-roteiristas diferentes, um número absurdo mesmo para um filme com uma trama bem elaborada (não é o caso aqui), o sujeito permite que complexidade narrativa seja confundida com bagunça – e mesmo que a proposta do longa seja interessante, sua execução é bagunçada, desconexa e em vários momentos entediante.

Se propondo a funcionar como um mergulho nos medos mais profundos de seus personagens (e até funcionando em momentos pontuais como uma espécie de antologia de delírios inacabados e um tanto surreais), o filme parte do interior de um submarino atracado no fundo do mar cuja carga inflamável pode explodir a qualquer momento; e, a partir da chegada de um desconhecido lenhador (de onde ele poderia ter vindo?) que atiça a curiosidade e o pavor de sua tripulação, mergulha nos corredores escuros da embarcação – que, por sua vez, acabam servindo de portais para os mais diversos pesadelos, que vão de um confronto de uma personagem feminina com sua própria versão infantil a um esquisito ritual de adoração a um demônio enclausurado em uma figura de madeira.

Contando com nomes de peso como os de Mathieu Amalric, Geraldine Chaplin, Charlotte Rampling, Maria de Medeiros e Udo Kier em seu gigantesco elenco, todos em papeis pequenos ou minúsculos, e sendo aberto e fechado por um bizarro guia de “como preparar um banho de banheira”, O Quarto Proibido é, ao menos visualmente, um filme “de autor” por definição, e, narrativamente, o extremo oposto disso.

Mas mesmo reconhecendo sua proposta e validando suas estratégias, tenho todo o direito de acha-lo um porre, não?

O Quarto Proibido (The Forbidden Room, Canadá, 2015). Dirigido por Guy Maddin. Escrito por Guy Maddin, Evan Johnson, Robert Kotyk, John Ashbery e Kim Morgan. Com Roy Dupuis, Clara Furey, Louis Negin, Udo Kier, Gregory Hlady, Mathieu Amalric, Noel Burton, Geraldine Chaplin, Paul Ahmarani, Caroline Dhavernas, Jacques Nolot, Slimane Dazi e Maria de Medeiros.