Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crítica: Nós

Jordan Peele se supera com terror inovador sobre a desconstrução do sonho americano

0

Jordan Peele é um comediante que estreou como diretor com o aclamado Corra!, um filme ousado que misturava terror e comédia para falar sobre racismo, com um orçamento modesto de 5 milhões de dólares, o filme acabou arrecadando 255,4 milhões nas bilheterias.

Apesar de apontar todas as qualidades de Corra!, devo dizer que não sou um grande fã do filme, portanto tive uma grata surpresa após o término de Nós, já que achei o filme imensamente melhor que o primeiro longa do diretor.

Nós conta a história de uma família bem-sucedida americana formanda por Adelaide (Lupita Nyong’o, incrível) e Gabe (Winston Duke), que têm sua rotina abalada quando passam a serem perseguidos por pessoas que se parecem exatamente como eles. O trailer expõe exatamente essa parte da história, e já começo a elogiar o filme neste ponto, pois o trailer é interessante o bastante para fazer que vejamos o filme, porém não entrega nem 30% do que se trata realmente.

- Advertisement -

Aliás, é inegável o talento de Jordan Peele para criar histórias inovadoras, surpreendentes e com mensagens profundas por trás. E isso não significa que o filme não tenha referências, pelo contrário, Nós está cheio delas, a sinopse por exemplo já demonstra uma inspiração muito forte de Violência Gratuita de Michael Haneke, e alguns personagens usam camisetas de obras que fizeram parte da infância do diretor, como Tubarão de Steven Spielberg e Thriller do Michael Jackson.

Uma das coisas que me decepcionaram em Corra! é a proporção de humor que o filme toma do meio para o fim, fato que felizmente não ocorre em Nós, o filme é terror do começo ao fim, mesmo que ocasionalmente tenha momentos de alívios cômicos (ótimos por sinal). E apesar de ser um bom terror, Nós é ainda melhor por contar uma história que nunca foi contada, de uma maneira que provavelmente ninguém nunca pensou em contar, e ainda faz pensar.

Sem revelar nenhum spoiler, posso dizer que o filme possui uma forte crítica social, porém não tão óbvia, uma crítica mais abstrata, que pode ser interpreta de várias maneiras, uma delas é a desconstrução do sonho americano, ideia presente até mesmo no título original do filme (US). Nenhuma cor, diálogo ou música que aparece no filme é por acaso, esse é um desses filmes cheios de simbolismos que merecem ser estudados.

Jordan Peele vem se tornando um desses diretores que seguram a bilheteria de um filme pela força de seu nome, assim como Spielberg e Christopher Nolan. E ele está de volta, maior e melhor.