Mistério e Morte no Hotel Cecil: um olhar sobre doenças mentais e internet

 

Mistério e Morte no Hotel Cecil: um olhar sobre doenças mentais e internet

Em 31 de janeiro de 2013, Elisa Lam desapareceu em Los Angeles. A canadense de 21 anos estava viajando, sozinha, pela costa oeste dos EUA. Somente em 19 de fevereiro que o seu corpo foi encontrado, dentro de uma caixa d’água do hotel em que estava hospedada. Apesar da resolução do caso em junho daquele ano, a morte de Lam ainda gera muita discussão. No documentário Cena do Crime: Mistério e Morte no Hotel Cecil, Joe Berlinger conta a história da estudante em quatro episódios, além de discutir profundamente sobre doenças mentais e o comportamento das pessoas na internet.

Enredo

Berlinger também é autor de outro documentário da Netflix, o excelente Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy. Com Lam, o diretor mergulha em diversos aspectos da vida dela, da mesma forma que fez com o assassino norte-americano. No caso, sua família, o Tumblr que mantinha, sua luta contra a depressão e transtorno bipolar, sua experiência em LA, e suas ações no temido Hotel Cecil. O cineasta ainda entrevista pessoas envolvidas no “crime” ou com a acomodação, como a gerente do hotel, detetives, especialistas, hóspedes e usuários que tentaram desvendar o ocorrido por conta própria: os “detetives da web”.

O que mais chama atenção, e que até hoje gera arrepios em algumas pessoas, é o último vídeo de Elisa antes de falecer. Este é exibido inúmeras vezes no documentário, com ângulos e focos distintos. Pra quem não sabe, foi a própria polícia que divulgou o material ao mundo, pois precisava de ajuda do público para ver se encontrava novas pistas. Ao longo da produção, entendemos o motivo do que vemos ali.

Mistério e Morte no Hotel Cecil: um olhar sobre doenças mentais e internet

Estigma de doenças mentais

Inicialmente, você acha que Elisa está sendo perseguida por alguém, ou por algum espírito. Isto porque o Hotel Cecil tem um histórico bastante macabro, que envolve homicídios, suicídios, estupros e overdoses. Na época, além de hotel para turistas que queriam gastar pouco, o local era habitado por pessoas de baixa renda, sendo parte delas viciados em drogas e criminosos. Era difícil não considerar que Elisa pudesse ter sido assassinada ou assombrada. Porém, à medida em que avançamos na história, vemos que não existe nada em seu corpo que indique qualquer tipo de violência. Eventualmente, a autópsia conclui que a morte da jovem foi acidental. Como? Ela parou de tomar os seus remédios, teve um surto, jogou-se na caixa d’água por medo ou desespero, e morreu afogada.

Sim, uma pessoa que sofre de doença mental ou múltiplas doenças mentais pode fazer isso. Então, o que Berlinger mostra no filme é muito mais do que o caso em si. O diretor tenta mostrar como que os seres humanos ainda são incapazes de compreender esses transtornos e os seus efeitos. Falar sobre depressão e bipolaridade, por exemplo, ainda é um grande tabu. Tem gente que não dá conta de lidar, ou que não entende como uma pessoa assim se sente. O fato disso acontecer até hoje, aliás, não ajuda em nada quem tem essas doenças. Elisa era uma delas. Queria ser feliz, dar amor, mas sua cabeça lhe dizia outras coisas. Quando ela parou de tomar os remédios que controlavam isso, foi o primeiro passo para os eventos que levaram à sua morte.

Por isso, o mundo precisa entender que as doenças mentais existem e não podem ser vistas como algo bizarro ou nojento. São indivíduos sentindo uma imensa dor dentro de si, que os impede de viver plenamente. Em outras palavras, é preciso, cada vez mais, que filmes, séries e eventos abertos ao público abordem o tema. Somente conscientizando as pessoas que seremos capazes de enfrentar o problema, assim como ajudar as suas vítimas.

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Efeitos da internet

Outro ponto bastante aprofundado por Berlinger é a internet. Os “detetives da web” são duramente criticados na produção, pois são os famosos donos da verdade. Durante a investigação, a polícia recebeu incontáveis ligações de pessoas com suas próprias teorias; o YouTube viu sua plataforma hospedar milhares de vídeos analisando o crime e questionando o resultado da autópsia. Foram capazes de até criar um assassino para Elisa: o usuário Morbid. Descobriram vídeos “suspeitos” dele na internet e, por causa da sua aparência e do conteúdo de suas criações artísticas, concluíram que era o assassino. Ele sofreu tanta perseguição e ameaças, que teve suas contas excluídas e chegou a tentar suicídio. Segundo ele, ninguém lhe pediu desculpas.

Isso traz à tona os perigos desse mundo, ainda recente, chamado internet. Um espaço impossível de controlar, que transformou nossa forma de se comunicar e de lidar uns com os outros. Por um lado, a web ampliou o acesso à informação, deu maior visibilidade ao que acontece pelo planeta, aproximou indivíduos de lugares diferentes, e permitiu uma nova forma de produzir e consumir conteúdo. Por outro lado, deu mais espaço para discursos conspiratórios e radicais, à uma doentia comparação entre pessoas, e ao que vemos no documentário: usuários que usam o espaço para atacar outros (cyberbullying), e que acham que sabem mais do que os próprios especialistas. É complicado.

Veredito

Cena do Crime – Mistério e Morte no Hotel Cecil é um documentário triste e pesado. Vendo de fora, você acha que é de terror. Depois, vê que é uma obra que explora dois assuntos que precisam ser discutidos urgentemente na atualidade: internet e doenças mentais. Pra ser sincera, acho que o filme até pode ser considerado um terror, pois a realidade que ele nos mostra é aterrorizante. A maneira que os seres humanos tratam uns aos outros é assustadora, mesmo com a humanidade tendo visto atrocidades no passado. Quando vamos aprender e parar de nos maltratar tanto?

 

Mistério e Morte no Hotel Cecil: um olhar sobre doenças mentais e internet.

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