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A Roupa Vermelha Esconde as Marcas de Sangue #1

Carlos havia perdido o emprego na véspera do Natal.

Na sua volta “sem chão” para casa, contemplava as ruas e edifícios iluminados, cheios de pessoas andando e fazendo suas compras.

Ao parar no sinal de trânsito, escutou a menina do carro ao lado: “Mãe, quero pedir um celular para o papai Noel”.

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Ao escutar aquilo, Carlos se entreteve com a hipocrisia inocente da criança. Seria o ser humano egoísta na essência? Teria Papai Noel essa fama boa com as crianças se não trouxesse presentes …claro que não!!! Da mesma forma que coelhinho da Páscoa só está na jogada por causa dos ovos de chocolate.

Lembrou dos seus 6 anos e a visita de um papai Noel de máscara de plástico que o assustou e o fez cair em prantos e fugir para os braços dos pais. Perder o emprego na época do Natal parece trazer essas lembranças traumáticas de volta.

Mas nem todas as memórias do Natal eram ruins – família reunida e falante, uma árvore de Natal gigante na casa do avós, e por fim os vários presentes de véspera com a alegria de brincar com aquele LEGO de bombeiro na manhã seguinte, antes de todos acordarem.

Sabia que ao chegar em casa seu filho Joaquim já estaria de férias e muito ansioso com o Natal, como sempre fez.

– Papai, o que vou ganhar de presente do Papai Noel ?

– Joaquim, acho e que esse ano Papai Noel vai ter que tirar umas férias… Sabe como é a crise na economia… Pegou até ele.

– Ah não, papai!!! Papai Noel nunca me deixou na mão. Sempre ganhei vários presentes super legais – e caros, pensou Joaquim. Tenho certeza que esse ano ele vai me dar um XBOX X!

– Joaquim, acho que você já é uma criança bastante inteligente e precisamos ter uma conversa séria.

– Não quero conversar, papai! Vou falar com a mamãe. Preciso do XBOX X! É um video-game novo e de última geração, todos os meus amigos do colégio vão ganhar.

– Fique quieto, Joaquim. A verdade que é Papai Noel não existe. É apenas uma invenção do comércio para as crianças receberem presentes – Ao ver a cara de desiludido do filho Carlos sentiu um aperto no coração.

– Mas e todos os presentes que ganhei? Não foi o Papai Noel que me deu, papai ?

– Não, Joaquim! Fui eu ou sua mãe. Agora vá brincar com seus presentes do ano passado. Muitas crianças nem tem presente pra ganhar e aprendem muito mais cedo que Papai Noel não existe. Pensou que o filho reagiria chorando ou esperneando, mas simplesmente lhe deu um abraço e foi brincar no quarto.

Já sozinho e sentado na poltrona , pegou um copo de whisky.

Sentido o sabor amargo, Carlos agradeceu ao bom velhinho por ter sacrificado sua existência aquele ano, não voltaria mais no ano seguinte. Para Joaquim, Papai Noel foi assassinado com um tiro a queima roupa. Para Carlos a roupa vermelha do bom velhinho escondeu as manchas de sangue.

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