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A Roupa Vermelha Esconde as Manchas de Sangue #4 – Um Conto de Natal

Ano 1. Crepúsculo do dia 25 de dezembro.

Um cometa imprime sua marca no céu. Ele é notado na abóboda celeste de qualquer parte da Judéia. Sua natureza desconhecida é capaz de estimular a imaginação de todos os habitantes da Terra. Maldições e mau agouros são previstas pelos pessimistas, providência e redenção permeiam as mentes dos otimistas.

Estamos nas comemorações de Solstício. Uma época de descanso do árduo trabalho nas lavouras. Os locais tanto relembram os eventos marcantes do ano que se finda como refletem sobre o novo ciclo que está prestes a reiniciar.

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A paisagem é quase desértica. Os ventos carregam a terra avermelhada de um lado para o outro, sendo barrados apenas por esparsos arbustos que insistem em crescer ali, mesmo com a escassez de água. Alguns poucos caprinos são os únicos representantes da fauna local. E eles estão raquíticos.

Em meio a calmaria, um grande vulto é avistado trazendo consigo um rastro flamejante. É um automóvel cinza. Ele derrapa na areia e atola numa baixada. De dentro do DeLorean sai o Dr. Emmet Brown, o inventor do capacitor de fluxo.

– Eu finalmente tomei coragem e aqui estou pra presenciar o nascimento de Jesus, um dos momentos mais importantes da história! – ele mal consegue segurar a emoção e já parte em caminhada a procura de um curral.

Logo em seguida ele avista um misto de nave com elevador e pousa nas proximidades. H.G.Wells desce e caminha ao encontro dele. Quando se aproximam eles se perguntam praticamente ao mesmo tempo:

– Quem é você? O que faz aqui?

Neste mesmo instante uma cabine policial britânica materializa-se e dela sai o Doutor. Ele caminha ao encontro da dupla.

– Vocês não pertencem a este época. Vocês são viajantes do tempo? – pergunta o Doutor.

– Eu inventei a viagem no tempo. Escrevi a Máquina do Tempo no ano de 1895 – brada H.G. Wells – Quem é você?

– Você é H.G. Wells? Eu sou seu fã, li muito dos seus livros, apesar de preferir os de Jules Verne – Dr. Emmet Brown não deixa o Doutor responder e interpela.

– Você prefere os livros daquele francesinho? Você tem algum problema? Os livros dele envelheceram muito mal, enquanto que os meus viajaram para o futuro e permanecem atuais! Eu sempre tive esta preocupação. – responde H.G. Wells ríspido com o colega.

– Evidentemente! – responde Dr. Emmet Brown, a dupla não deixava abertura para o Doutor se pronunciar – seus livros podem ser mais fiéis a ciência, mas não superam Jules Verne nos quesitos imaginativo e lirismo.

– Quem raios você pensa que é para me ofender desse jeito? Por acaso você escreveu alguma coisa que preste? Publique um best-seller antes de bradar seus bostejos pra cima de mim.

– Eu sou o Dr. Emmet Brown, eu tive a ideia do capacitor de fluxo em 1955, mas só consegui construir minha máquina em 1985. E vim aqui testemunhar um nascimento. Eu não estava esperando companhia.

– E eu sou o Doutor. Eu sou um Senhor do tempo. Enquanto vocês discutem a invenção da viagem no tempo na ficção eu estou em todas as épocas e desde sempre.

– Quem você quer enganar? Seu programa de TV foi criado em 1963. Você nem é um dos atores mais carismáticos da série. – interpela Dr. Emmet Brown.

– E você é um maluco lunático. – o Doutor responde a agressão – lembro bem de suas atuações em Um Estranho no Ninho e Família Adams.

– Eu não estou entendendo mais nada. – Interrompeu H.G Wells – pouco me importa quem são vocês, mas estou entendendo que vocês vieram aqui fazer a mesma coisa que eu, certo? Estamos no lugar certo?

– Estamos. O futuro presépio está logo após aquele morro ao norte – afirma o Doutor. – mas temos que tomar extremo cuidado para não sermos notados.

– Ah! Esse negócio de paradoxo temporal é um pé no saco! – afirma H.G. Wells.

– Foi por isso que você só viaja para um tempo indeterminadamente longe em seu livro, não é? – cutuca Dr, Emmet Brown – de onde você tirou esses nomes Elois e Morlocks? Alguma influência do leste europeu?

– Eu não lhe devo satisfações, seu careca maluco. – H.G. Wells já havia perdido a paciência.

– Será que as duas crianças podem parar de brigar por um instante? – interpela o Doutor.

– Não me venha com lições de moral, doutorzinho de araque. Não é verdade que você foi expulso da ordem dos Senhores do Tempo? E agora fica vagando por aí enchendo o saco de todo mundo! – provoca Dr. Emmet Brown.

– Espera aí. Não é você que só viaja no tempo e não no espaço? Quer dizer então que você teve que trazer a sua máquina do tempo feiosa dos anos 1980 da sua casa até aqui no Oriente Médio pra só depois viajar pro passado? – replica o Doutor.

– Nessa sua máquina você não consegue viajar no espaço tempo? Hahahaha! – intervém H.G Wells – e ainda fica aí provocando os outros com seus comentários juvenis.

O Doutor acompanha H.G Wells numa gargalhada uníssona enquanto o Dr. Emmet Brown vai ficando vermelho de raiva.  

Os ânimos estavam ficando cada vez mais exaltados, e os três já estavam quase partindo para as vias de fato. Quando perto dali, outra figura materializa-se. Nada mais, nada menos que o Exterminador do Schwarzenegger vestindo sua jaqueta de couro e empunhando uma espingarda calibre 12 mm.

Dr. Emmet Brown é o primeiro a notar a figura ameaçadora caminhando lentamente na direção do grupo. Ele logo se apavora, grita e sai correndo de volta ao DeLorean. Mas por conta disso é o primeiro a levar um tiro do Exterminador.

Foi um tiro nas costas. Certeiro. Dr. Emmet Brown é jogado para frente em alguns metros e cai de cara na areia, já praticamente sem vida.

Os demais olham estupefatos ao que estava acontecendo e permanecem imóveis. Praticamente paralisados com a surrealidade da situação. H.G Wells é o segundo morrer. Um tiro na altura do pescoço faz com que ele desabe no chão inconsciente.

O Doutor abaixa-se amedrontado e pede por clemência daquela figura assustadora. O Exterminador recarrega a 12 mm girando o cano num movimento que poderia ser confundido com o malabarismo com baquetas de um baterista habilidoso. Aponta a arma para a figura amedrontada no chão e diz:

– Hasta la vista, baby!

O final do Doutor é o mesmo de seus pares viajantes do tempo. Cai deitado no chão e não se levanta mais.

O Exterminador, por ter cumprido sua missão, entra no modo stand by. E permanece imóvel ali a espera de outras orientações. Ao seu redor, três cadáveres e três diferentes máquinas do tempo. E os acontecimentos além da colina nunca foram testemunhados por nenhum viajante do tempo. Mas continuam permeando a imaginação nas histórias de J. J. Benitez e nas conversas de bar.

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