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A Roupa Vermelha Esconde as Manchas de Sangue #5 – Velho Batuta

ANO 1985

Cenário: garagem de uma casa da classe média em São Paulo  

 

Todo final de tarde, um pequeno grupo de garotos de 14 anos se reúne na garagem da casa de César ou Chê, como gostava de ser chamado em alusão ao líder revolucionário.

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Lá eles sentiam-se livres dos olhares repressores dos adultos caretas – como eles denominavam os mais velhos. Passavam horas falando bobagens, palavrões e escatologias, fumando e ouvindo música. Às vezes arriscavam tirar algum som do velho violão jogado no meio da bagunça.  

Era véspera de Natal. Mais uma vez reunidos. César desliga o som e fala com uma voz firme “galera, vamos fazer um pacto?”

Os amigos se entreolham curiosos e, simplesmente, acenam com a cabeça seguindo o comandante. Prestem atenção e repitam “prometo que nunca irei me render ao sistema e aos tiranos opressores da sociedade”. Todos repetem o discurso, apertam as mãos e liberam uma espécie de grito de guerra! Para consagrar, Chê liga a música Papai Noel Velho Batuta no último volume para frenesi da turma.

Papai Noel velho batuta

Rejeita os miseráveis

Eu quero matá-lo

Aquele porco capitalista

Presenteia os ricos

E cospe nos pobres…

 

ANO 2017

Cenário: sala da mesma casa da classe média de São Paulo – 32 anos depois

 

Seguindo a tradição, César, seus irmãos e respectivos cônjuges e filhos, estão reunidos na casa dos pais na véspera de Natal.  

Como todo ano, os 4 irmãos chegam por volta das 19h e sentam-se alegremente em volta da mesa farta. Conversam, contam as últimas novidades, dão risadas e se divertem com as crianças. Neste ano, César preparou uma surpresa: vai personificar o Papai Noel! Quando o personagem aparece… as crianças ficam um pouco receosas, com carinha de medo, mas depois rendem-se às brincadeiras do bom velhinho. Indescritível narrar a felicidade estampada nos rostinhos dos pequenos. Eles ficaram encantados e esperançosos em reviver esse dia mais vezes. A seguir “milagrosamente” o papai César reaparece. Então todos se despedem, pois já está bem tarde.

Ao chegar em casa, Chê coloca os filhos na cama. Deita ao lado de sua esposa e antes do sono chegar lembra-se do pacto entre amigos ao som de Papai Noel Velho Batuta. Pensou “Nossa! Que idiota!”. Sorriu de leve ao constatar a ironia da vida, então fechou os olhos e sonhou com sua imagem vestido de Papai Noel.

 

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