A Roupa Vermelha Esconde as Manchas de Sangue #7 – Dead Men Tell no Ghost Stories (Ou Homens Mortos Não Contam Histórias de Fantasmas)

Era mais uma noite solitária no pequeno apartamento. O jantar descongelava no microondas enquanto um especial de Natal qualquer passava na TV.  Não fazia diferença o programa, como não fazia diferença o que ia jantar.  Toda a vida perdeu o ritmo e as cores depois que sua primeira namorada, esposa e único amor se foi violentamente devido a uma doença especialmente agressiva e fatal. Ele descobriu que algo estava errado ao voltar da sua última turnê, realmente a última pois nunca mais excursionou, ou sequer tocou outra vez sua guitarra. A culpa, a sensação de que se estivesse mais presente poderia ter percebido, ajudado ou enfrentado aquela situação corroeu sua sanidade.
Os royalties de seus sucessos do começo de carreira são suficientes.  Ele não precisa se preocupar com dinheiro se não cometer extravagâncias.  E assim seus dias vão passando, todos iguais.
O álcool faz o músico dormir no sofá mais uma vez.  A última vez que se lembrava de dormir no seu quarto foi no Halloween.   Ele preferia se esconder lá dentro que aguentar todas aquelas crianças com seus “doces ou travessuras” e frequentemente seus pais com aquele olhar de quem tenta lembrar de onde te conhece.  Dormiu pesado e sem sonhos, gin sempre fazia isso com ele.  Foi assim que ele soube que a luz o incomodando tinha que ser real e depois de se virar algumas vezes procurando uma posição que o levasse de volta a escuridão como a de sua alma ele desistiu.
Sobre ele pairava uma luz, com tamanho e forma condizentes com a de um adulto.  Dentro desse espaço de luz ele via tempos mais simples. Ele e sua namorada redecorando a árvore de Natal como sempre faziam, porre de eggnog e uma rapidinha antes de correr para o aeroporto. Ele havia sido convidado para tocar no especial de Natal de um novo canal com a proposta de só mostrar música o dia todo, o que parecia uma proposta arrojada e promissora.   Ela sempre se sentia desconfortável nesses eventos e perto das fãs.  Nada acontecia e ela sabia disso, suas fãs sabiam que ele era casado com sua primeira namorada e que nada mudaria isso, mas ainda assim ela não gostava da ideia de ser uma pessoa pública e levava uma vida tão discreta quanto conseguia.
Talvez a vida já não fosse tão simples quanto pensava. Ele partiu naquelas imagens e ela ficou assistindo shows antigos dele. Naquela época ela sempre estava lá, esses sim pareciam tempos mais simples. Estarem juntos era sempre mais simples.
De repente se deu conta que aquele foi o último Natal que tinham, não tinham, passado juntos. Na volta da turnê do ano seguinte estava tudo acabado. Ele voltou antes do dia de Ação de Graças, mas ela foi embora na semana seguinte.  As cenas dentro daquela luz levando ele a lembranças cada vez mais dolorosas.  No dia da morte ela tossia muito e perdia sangue. Ela tinha muita dificuldade de se concentrar e não percebeu que isso acontecia em sua dor.  Ele lembrou de uma camisa vermelha que estava no armário do hospital e a vestiu. Dessa forma sua esposa morreu em paz, sem nunca perceber a quantidade de sangue que perdia naquele final.  Por coincidência ele estava com uma camiseta vermelha nesse dia, em quase todos os dias.  Ele não sabia o motivo de estar sempre de vermelho, mas agora a camiseta escondia as manchas do sangue que começava a pingar daquela forma. Primeiro apenas umas gotas de sangue, mas depois um fluxo pequeno, mas constante enquanto a forma iluminada perdia a pouca altura e o tocou, todo de uma vez.  Aquele fantasma do Natal passado se transformou em sangue ao tocá-lo nesse momento a camiseta vermelha não escondeu mais aquele sangue, suas lembranças, sua dor é sofrimento.  Naquele momento ele se deu conta de um vulto negro em silêncio no canto da sala.
Era difícil saber realmente onde o vulto estava. Escondido nas sombras permanecia em movimento e alguns desses movimentos não pareciam humanos. Perdido nas sombras não vi o par de olhos surgir a minha frente até ser tarde demais.
Refletido nesses espelhos de olhos vi minha alma, minha solidão, a camiseta ensopada de sangue e a dor de semanas de sofrimento vividos de maneira instantânea minutos atrás.   Vi meu Natal presente refletido na alma antiga diante de mim e minha alma querendo ir com ela.
Nesse instante não reencontrei o vulto negro, mas senti o frio extremo me engolindo quando ele se aproximou de mim por trás.  Não foi preciso vê-lo para saber que aquele poço de desespero refletiam meus Natais futuros.  Senti que morria pelo simples fato que a alma se fora e aquela casca vazia não iria durar muito.  Sem conseguir pensar em mais nada me entreguei na espiral sem fim da morte sabendo que meu corpo não seria achado por dias. Não deixava nada nem ninguém para trás e apenas o cheiro do meu corpo apodrecendo iria trazer a polícia até minha porta. Ninguém seria notificado a até porque ninguém se importaria.

Tomo a espessa cerveja que ainda permanecia no meu copo naquele canto escuro e pouco movimentado do pub enquanto aquele estranho termina sua narrativa macabra.  Ele me viu escrevendo no meu bloco de rascunhos e disse também ser escritor.  A história que ele disse estar trabalhando e acabar de me contar me causou um profundo desconforto, quando não mais pela semelhança da minha vida com a de seu protagonista.  Nunca fui alguém como ele, mas hoje sou ninguém como ele.  Escrevendo naquele pub decadente sozinho na noite de Natal até ser interrompido por aquele escritor nada marcante.  Ergo meus olhos do bloco quando percebo que não lembro sequer do rosto com quem conversei os últimos minutos mas não encontro o rosto comum e desinteressante que procurava.  Em seu lugar aqueles olhos espelhos pairavam na minha frente como se me prendessem.  Levou um momento perdido em meu reflexo para que eu identificasse atrás de mim a luz e a escuridão se aproximando como se voltassem do banheiro imundo desse lugar e foi quando eu soube do fim. Pelo menos meu corpo não demorará tanto para ser achado pensei enquanto caía no chão após o escuro e frio abraço dos Natais futuros.

“No passado procuramos almas atormentadas, perdidas em seus pesadelos enquanto o mundo entoava canções de esperança e paz, enfim canções de Natal.  Tudo isso trouxe uma quantidade considerável de atenção indesejada para nós fantasmas.  Hoje procuramos essas mesmas almas desesperadas, mas não tentamos mais lhes devolver a paz do mundo.  Ao invés disso lhes damos a paz da eternidade, a nossa paz.  Isso parece melhor até por que mortos não podem contar histórias de Fantasmas…  Nunca mais.”
Isso foi o que falou a figura de olhos espelhados para seus colegas enquanto deixavam o bar.  Falou como se os lembrasse o motivo de estarem ali, como se lhes desse propósito.  Pareciam ainda ter uma longa noite pela frente e isso me incomodou muito na hora, mas ainda mais quando encontrei o corpo frio ali atrás.  Ele não falava muito, mas estava sempre aqui escrevendo. Olhei o bloco após chamar vocês. Parece ser uma história até um momento onde ele escreve grande uma única palavra FANTASMAS e alguns gotas vermelhas em volta, que acho serem sangue.  Não posso lhes ajudar a localizar esse pessoal, não creio que já tenham estado aqui antes.
E falando isso dá a volta se dirigindo ao seu balcão enquanto sorria um sorriso cheio de propósito.  Todo Barman sabe encontrá-los e também sabem como informar a respeito dessas almas desesperadas.  Como pagamento pelo bom trabalho esperava conseguir um pergaminho antigo com receitas abandonadas.  Algo que ele viu sobre Caipiroskas amaldiçoadas parece promissor ainda que ninguém realmente goste dessas porcarias de Caipiroskas.
Fim, até o próximo Natal.

Rodrigo Fernandes

Engenheiro por formação e com hobbies demais ocupando meu tempo. Games, filmes, séries e música fazem parte do dia a dia, mas cinema ultimamente só infantil.