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A Roupa Vermelha Esconde as Manchas de Sangue #9 – Asa Negra

A grande porta de vidro se abriu lentamente, enquanto caminhava em direção a ela. Acabara de cruzar um imenso jardim com arbustos em forma de animais, belas rosas vermelhas desenhando labirintos, árvores carregadas de frutos e luzes piscando em ritmo uniforme. A piscina oval ostentava uma imponente fonte de visual renascentista, que atirava jatos de água de acordo com as notas das canções. Respirou fundo, cumprimentou o boneco de neve e entrou na casa.

Uma salva de palmas o aguardava no hall de entrada da mansão. Crianças corriam para abraçá-lo, algumas mulheres choravam de emoção e os rapazes brindavam a sua presença. Uma escadaria de detalhes em ouro o levou à sala de jantar, onde pessoas de todas as idades sorriam, conversavam em tom elevado, trocavam presentes e se serviam de frutas, aves, panetones e champanhes. Com sua camisa xadrez, seus suspensórios vermelhos e sua barba branca cerrada, sentou-se à cabeceira da mesa e disse:

– Obrigado pelo carinho de vocês. É assustador pensar que toda essa gente aqui é resultado de um olhar e de um toque. Conheci a avó de vocês em uma festa. Meu falecido irmão estava completamente bêbado, a importunando. Seus olhos quase que suplicavam por ajuda. Eu me aproximei e ela segurou a minha mão, pedindo para que a retirasse dali. Só de sentir a pele dela, eu já sabia que era a mulher da minha vida. Ela não está mais aqui entre vocês e eu, durante vinte e oito anos, também não estive. Com poucas exceções, eu nem mesmo conheço vocês. Nesse tempo todo que estive encarcerado, eu ficava imaginando o rosto de meus filhos, se estavam casados, se tinham filhos, se tinham virado doutores. Hoje, vendo a capacidade que vocês tiveram de me perdoar, tenho orgulho de perceber que vocês são muito mais que meros diplomas.

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– Papai – respondeu a filha mais velha – tivemos dificuldades em aceitar o que aconteceu. Em limpar todo aquele sangue da mamãe espalhado pela casa. Em retirar a cabeça do tio do espeto do churrasco. Em carregar os restos mortais deles para enterrar no pomar, enquanto o senhor dizia que aquilo era tudo culpa nossa. Mas, papai, isso acontece, quem somos nós para julgá-lo.

Os discursos, somados à melancólica melodia do ambiente, causaram comoção geral. Porém, no auge de sua redenção, sentiu a vista embaçar e a pele do rosto queimar. Tudo a sua volta parecia se distorcer em câmera lenta. Seus olhos começaram a sangrar e suas mãos a gangrenar, enquanto ele gritava desesperadamente. Despertou e ainda estava na cela. Na realidade, parecia uma jaula. Silêncio completo. Como companhia, apenas a luz natural do céu noturno e algumas ratazanas. Sua barba já atingia a cintura. Levantou-se, apanhou alguns lençóis, emendou-os por nós e pendurou na estrutura do teto. Enlaçou o pescoço e se jogou no vazio. O corpo se debateu por poucos segundos e balançou levemente por mais alguns. Quando já estava imóvel, um enorme corvo adentrou voando pela grade e arrebentou o tecido.

– Feliz natal, meu senhor. Pensei que não viria – disse o velho jogado ao chão.

A ave crocitou e abriu suas asas negras, cobrindo o brilho da lua cheia e a solidão das pessoas dentro da noite.

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